O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

domingo, 25 de novembro de 2012

Partida!


O comboio aproximava-se da estação 
era-me familiar este ruído
por um breve instante
...

o coração ficou em reboliço
era partida ou chegada?
sempre uma mudança
e uma estada nova
na vida da aldeia

Apurei o ouvido
o sono já apoquentava
a hora ia alta
o dia arrumado nas prateleiras

Foi um breve instante
na memória recuperado
a saudade revolvida
qual comboio, qual estação
a carvão ficou o lápis
porque a lapiseira
falha na hora menos pensada

Depressa percebi
que era o vento galego
a despir despudoradamente a figueira
junto à janela do meu quarto
o vento ruge com um sinal diferente
nada parecido com o silvo do comboio
ou a voz que alta se ouvia: partida!

Havia um desenraizamento na palavra
assustada e dorida despedida
por larga temporada
em fins de semana ninguém pensava
a merenda com sabor a casa
era um embalo de viagem

a retorcida linha do Douro
agarrava-nos a alma e a conversa que crescia
ia diluindo o aperto do peito
o comboio andava devagar a apanhar o futuro
partia para a vida
liquidámos o comboio - liquidámos o futuro
abandonou-se a estação - instalou-se o retrocesso
precisamos do sinal de partida

Teresa Almeida

(Foto de José Sobral)


3 comentários:


  1. "a retorcida linha do Douro
    agarrava-nos a alma e a conversa que crescia
    ia diluindo o aperto do peito
    o comboio andava devagar a apanhar o futuro
    partia para a vida"

    Outros tempos... outros contentamentos... mas a verdade é que eu também tenho saudades dos comboios a vapor, que apenas vi quando já poucos circulavam, substituidos pelas automotoras...
    Gostei do teu poema, é excelente.
    Teresa, querida amiga, tem um bom domingo e uma boa semana.
    Beijo.

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  2. È verdade amiga,precisamos do sinal de partida...

    Adorei viajar por esse trem poético,levando vida,cheios de

    emoções vivas a cores e a vapor...

    Beijinhos,minha querida amiga!

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  3. Ao ler o teu Poema, "agarrei" o que acima transcreveu de ti, o Nilson Barcelli. Repeti-lo, agora, seria "clonagem" dum pensamento que não pode deixar de nos ser comum.
    Na verdade, Amiga, estamos a perder o "comboio" que esperávamos ser o do nosso futuro.
    Oportuno e reflexivo Poema.


    Beijos


    SOL

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