O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

domingo, 26 de agosto de 2012

Ye algo miu



L gusto de pintar la bida an fiesta sbarra-se ne ls queloridos i ne l choro de l musgo na parede de la bielha casa.
La casa ye un lhibro siempre abierto. Bonda oupir las scaleiras rafadas ne l delor de pasmáren l tiempo. Parécen andar depriessa als sítios i als abraços - ye neilhas que chube la suidade: las casas ténen coraçon.
Na preça de casa, l'arca grande i antiga inda recende a trigo nas eiras. Stálhan-se ls uolhos i apura-se l cheiro na mimória de l pan louro, caliente (acabado de salir de l forno: que prefume miu Dius!). Parece que l'arquita, na copa, inda stá abierta – acoquelhada.
Ls bagos lhargos i burmeilhos (ferral-de-rosa) zbotórun i las pinturas cólgan-se secas, mofosas – bindimadas.
Apagou-se l'oulor de las tabafeias i chouriços: quedou la malga de la coalhada antes de salíren queisos i requeisones.
Quedou, tamien, l frasco i la quelor de la ginjada, acumpanhada de queiso duro, nas tardes qu'inda gémen ne l sobrado de l salon.
Defrentes éran ls prefumes, ls sabores i l bolo antre las mecas, las monhecras i las cuntas de l'abó.
Ye secreto, antenso i persente l prazer de me sentar a la selombra de la parreira, i mirar-me al speilho d'auga ne l fondo de l poço de la figueira: ye algo miu



É ALGO MEU

O gosto de pintar a vida em festa esbarra-se nos tons e no choro do musgo no muro da velha casa.
A casa é um livro sempre aberto. Basta subir as escadas rafadas na dor de pasmarem o tempo. Parecem andar depressa aos sítios e aos abraços - é nelas que sobe a saudade: as casas têm coração.
No pátio, a arca grande e antiga desprende ainda um cheiro a trigo nas eiras. Estalam-se os olhos e apura-se o olfacto na memória do pão louro, quente (acabado de sair do forno: que perfume meu Deus!). Parece que a arquinha, na copa, ainda está aberta – abarrotada.
Os bagos compridos e vermelhos (ferral-de-rosa) desbotaram e as pinturas penduram-se secas, mofosas – vindimadas.
Apagou-se o cheiro das alheiras, chouriças e salpicões: ficou a malga da coalhada antes de saírem queijos e requeijões.
Ficou, também, o frasco e a cor da ginjada, acompanhada de queijo duro, nas tardes que ainda gemem no sobrado do salão.
Diferentes eram os perfumes, os sabores e o voo entre as mecas, as bonecas e os contos da avó.
É secreto, intenso e presente o prazer de me sentar à sombra da parreira, e olhar-me no espelho de água no fundo do poço da figueira: é algo meu.

Teresa Almeida

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

STREMUNDIAR las palabras

Ye esso – apaixono-me pulas palabras airaçadas
cumo perlas berdadeiras.
Auga doce ó salada: gusto de stremundiar – nas palabras
que tráigan l gusto brabo de l mar ó de l riu.
Salbaiges sálen de la concha cumo se fússen agarradas por nuobo amor - mais bagamundo.
Parece que se sinte l bruar de l riu ó de l mar a roçar ne l peito.
L strelhumbre de las streilhas sal nas perlas.
Alguas son menos purfeitas, squinadas;
mas l´ancanto de l lhugar adonde fúrun ancuntradas
bai a lhuzir por ende – acardito que si
porque salbaiges – las palabras – abrólhan assi
arrolhadas an óndias salbaiges
num arrepelo friu de perla rial
salindo d'andrento de mi.

Teresa Almeida

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

No teu passo

No teu passo o som vibrante de violinos
a penetrar as fímbrias dum leito verde-água
como se foras funcho num rio aromatizado
a abrir caminho a um desejo renovado

No rio mergulham atracções violentas
mistérios espelhados em afagos transparentes
Pressente-se um secreto balanço de volúpias
e um baile íntimo entre os juncos inocentes

Há um silêncio penetrante na delicadeza
da luz coada, nas margens a beleza
e o desafiante calor da tua mão

Há uma nota melódica no teu passo
um som cruzado com o meu, no compasso
e na inquietude de violinos em noites de verão

Teresa Almeida

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

L tou grito

Nien un trinado d'abe a cruzar l cielo me derreterie assi: aquel grito era tou. Tan bibo cumo la frecha de lhuç que se sgueirou pula casa quando abri la puorta de l lhado naciente.
Era la surpresa de la fiesta, l'einocéncia dua ourora pura - la gana de bibir.
Soubo a calor de fogueira an nuite gilada. Tubo l poder debino de remoçar i fazer bibrar las cuordas dua abó cun sede de cantigas: esta fui dua ternura de arrepelar – l tou grito.
Griteste para te scunderes, cumo quien ten priessa de ser ancuntrada. Bolei na tua alegrie cumo se (presa naquel abraço) tubisse ancuntrado la rialidade de l paraíso.
Las tues palabras çpuntában bibrantes - an cachoneira biba, no zeio de me sentires andrento de l tou ouniberso.
Stralhórun foguetes de lhágrimas a rumpéren la suidade.

O teu grito
 Nem um trinado de ave a cruzar o céu me derreteria assim: aquele grito era teu. Tão vivo como o raio de luz que se esgueirou pela casa, quando abri a porta do lado nascente.

Era a surpresa da festa, a inocência duma aurora pura - a vontade de viver.
Soube a calor de fogueira em noite gelada. Teve o poder divino de rejuvenescer e fazer vibrar as cordas de uma avó sedenta de canções: esta foi de uma ternura arrepiante – o teu grito.
Gritaste para te esconderes - como quem tem pressa de ser encontrada. Voei na tua alegria como se (presa naquele abraço) tivesse encontrado a realidade do paraíso.
 As tuas palavras despontaram vibrantes - em cachoeira viva, na vontade de me sentires na cumplicidade do teu universo.
Estalaram foguetes de lágrimas a romperem a saudade.
Teresa Almeida

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Serei a tua canção

http://soundcloud.com/vinicius-pinto/serei-a-tua-can-o


Há uma enorme satisfação quando a letra conquista a melodia.

Grande abraço, Vinicius Pinto, por mais esta alegria.
"Eis um exemplo do que o filósofo Deleuze chama de rizoma: a poeta Teresa Almeida, de Portugal, participou da antologia Poetas da Confraria. Depois a poeta Elvira Campos B. Alves, também autora da antologia, presenteia o poeta e músico Vinicius Pinto com um exemplar num dos encontros do Corujão da Poesia. Vinicius transforma o poema da Teresa numa bela canção. Os dois não se conheciam, coube a este que vos escreve fazer a ponte. Viva a poesia, viva as possibilidade! "...O rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga." ((DELEUZE e GUATTARI)" Delmo Fonseca