O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

domingo, 28 de dezembro de 2014

Sons e Tradições - Natal/2014

Ainda há rescaldo no Adro da Sé, apesar de já terem passado alguns dias desde que os carros de bois, carregados de lenha, desceram a rua dos Adis, passando em claro a primeiro de Maio, a minha. Vêm numa bolina impressionante e, quando se aproximam do café Porto,fazem uma curva em ângulo reto que arrepia quem gosta de ver todo este vigor e entusiasmo da rapaziada. Há um chefe, em cada ano, que levanta o ânimo usando a sua voz em máxima potência. Sim, quem puxa os carros são os destemidos rapazes, na força da vida! O frio corta-nos as orelhas, mas não arredamos pé! O chiadeiro neste ângulo deve ser o mais forte de todo o percurso. O eixo e as rodas chiam a bom chiar!

Vem-me todo este entusiasmo pela paisagem sonora duma palestra do investigador Mário Correia em S. Pedro da Siva, no dia treze deste mês de Dezembro, a propósito dos festejos do solstício de Inverno. A verdade é que bem sentimos tudo isto, mas se percebermos os fatores que concorrem para
que um som saia de forma irrepetível num determinado lugar, o caso ganha outra dimensão.

Já passaram alguns dias desde que os toros começaram a arder em frente à vetusta Sé desta linda cidade de Miranda do Douro.  É impressionante a fogueira do galo! Como se nela ardessem todos os medos e a esperança renascesse! À volta as pessoas conversam a lenha vai ardendo. E as chispas registam no ar sons do outro mundo

Todo este cenário, com o crepitar das brasas, na verdade fazem do Adro da Sé algo surreal e contribuem para o encantamento desta quadra festiva. Sai daquele imenso braseiro toda uma orquestra, digna do melhor compositor.

O investigador bem quereria pôr os microfones no centro do braseiro, mas tem que se contentar com os sons à volta da fogueira. As palavras também andam a rodopiar e devem ter uma melodia especial, depois da ceia de Natal. Palmadinhas nas costas, beijos e abraços são, afinal, os tons da amizade. É, também, o dia em que quem tem uma capa de honra mirandesa se apresenta cheio de "proua". Nem o Menino Jesus esquece a sua.

De dentro da Sé saem cantares de anjos, é certo, mas também algumas risadas incontidas. Não admira porque o Menino Jesus sempre teve cara de amigo, principalmente o Menino Jesus da Cartolinha que bem se vê que não pode com o riso. O riso vem dos céus, temos a certeza. E que falta nos faz em
qualquer paisagem sonora do dia a dia!

O adro não é o mesmo do resto do ano, muito menos os sons que mudam a cada momento. Não sabemos definir todo este encantamento da noite de Natal, como se as estrelas quisessem mudar de lugar e se mostrassem entre nós em todo o esplendor de luz e som.

Não faltarão a gaita de foles, a flauta pastoril, o realejo e os bombos da nossa terra. Miranda do Douro é uma terra musical e não pode haver festa sem os sons que lhe pertencem e lhe conferem identidade.

Teresa Almeida Subtil



 
(Texto publicado na BIRD MAGANIZINE e partilhado na Rádio sem fronteiras.)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SAPATINHOS DE NATAL


 
Como seriam os sapatinhos que eu e o meu irmão colocávamos,

 junto ao borralho, cheios de devoção. Como seriam?

Lembro-me da candeia de azeite a alumiar os serões da nossa infância,

das filhós e do arroz doce feitos a preceito pela avó Adília,

do valor e do prazer de estreitar os laços de família,

sentir que, à roda da fogueira do galo, aos amigos se estendia.

 

Os sapatinhos ficavam pela noite dentro, debaixo da chaminé,

 no rescaldo dos sonhos. Com fé, também eu ficava

e rezava até adormecer de exaustão! A minha prece ao Menino Jesus,

aquele que tinha o mundo na mão, no altar da minha meninice,

seguia sempre na mesma direção. Que pedia eu?

Uma boneca real, que chorasse, que falasse.

 

No dia seguinte, ao acordar, corria,

e era o sorriso dos anjos que nos espreitava: os meus pais.

Não me lembro de ficar desiludida, esquecia o fervor

e os desejos que depositara no sapatinho. Não havia frustração!

Encontrava uma bugiganga qualquer(digo agora eu).

Apenas sentia que era um presente do céu!

 

Volvidos os verdes anos, volvidos tantos passos,

olho, com viva emoção, as prendas que eu tanto desejava:

 a Carla, a Guida, a Ana Teresa, A Laura Maria

e  o Fernando, o meu amor mais recente!

O Natal aconteceu! Verdadeiramente!
 
 
Teresa Almeida Subtil

 (Respondendo a um desafio poético, fui buscar a magia do Natal da minha infância.)

domingo, 7 de dezembro de 2014

PALAVRA DE TORGA integrada na FEIRA DO LIVRO do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro.

Não, não direi que a noite estava escandalosamente fria. No Nordeste Transmontano conhecemos muito pior! Mas, se dissermos que a magia deambulou por aí, já não exageramos. E se dissermos que a poesia do nosso Miguel Torga aqueceu a noite no coração da cidade de Miranda do Douro, também não exageramos.
No interior do Museu da Terra de Miranda a palavra do poeta brilhava nos olhares dos que já a queriam muito e dos que para ela despertavam. Conceição Lima, uma minhota com a alma arraçada de transmontana, esteve no auge do seu fulgor poético! Sala cheia.
A transparência das portas do museu oferecia-nos uma visão da praça D. João III em todo o esplendor noturno. A poesia subia e a emoção crescia!
Estamos crentes que Miguel Torga se sentiria tão feliz como nós ao ouvir os seus poemas, ditos pelos alunos e professores do Agrupamento de Escolas, nesta língua "amerosa" - a Língua mirandesa.
Um conto ( Fronteira) - ao jeito telúrico de Miguel Torga (a cargo da juventude exuberante dos "Tretas"), rematou o sarau no seio de uma ovação bem sentida.
Estão de parabéns os que deram as mãos para levar a efeito esta aposta poética que entrou pela noite mirandesa de forma inesquecível!
A escola e a comunidade em interação. O precioso apoio da Câmara Municipal. A Associação de pais, O Museu da Terra de Miranda. O grupo de teatro "Tretas".
Foi bom sentir este estimulante abraço cultural.


PALABRA DE TORGA

Nuite de Poesie ne l Muzeu abarcada pula Feira de l Lhibro de l grupamento de Scuolas de Miranda de l Douro

 
No, nun bou a dezir que la nuite staba frie. Ne l Nordeste Stramuntano conhecemo-las muito más malas. Mas se dezirmos que la magie andou por ende, nun mos botamos fuora de l reilho. I se dezirmos que la poesie de l nuosso Torga calciu la nuite ne l coraçon de la cidade de Miranda de l Douro cuntinamos ne l reilho.
Drento de l Muzeu de la Tierra de Miranda de l Douro la palabra de l poeta relhuzie ne ls uolhos de ls que yá la querian muito i de ls que pareilha spertában.
Conceição Lima, ua minhota cul´alma raçada de stramuntana, arrepaçou la carapota de l sue arte poética! La sala iba-se cumponendo ...
Las puortas de l muzeu deixában arrepassar ls uolhos i oufrecien-mos ua bista de la Praça  D. João III an todo al sou brilho noturno. La poesie chubie i l´eimoçon crecie!
Stamos ciertos que Miguel Torga s´habie de sentir tan feliç cumo nós al oubir als sous poemas dezidos puls alunos i porsores de l Agrupamento de Scuolas, nesta lhéngua amerosa  - La Lhéngua Mirandesa.
Ua cuonta (Fronteira) - a la moda "telúrica" de Miguel Torga (por cuonta de la mocidade formidable de ls "Tretas") - arrematou la nuite, ne l meio de muita palma bien sentida.
Stan de parabienes als que dórun las manos para poner de pies esta aposta poética q´antrou pula nuite mirandesa de maneira que nunca s´apagará.
La Scuola i la quemunidade an açon. L ajuda de la Câmara Munecipal. L Associaçon de Pais, l Muzeu de la Tierra de Miranda i l grupo de teatro "Tretas".
Fui, al fin de cuontas, un baliente abraço cultural.


Teresa Almeida Subtil







terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Adeus, apenas.


Dir te ei adeus na estação mais improvável,

bem perto do rio, na confluência de olhares,

acenar te ei na brevidade do gesto,

antes que o vendaval nos tome de assalto.

 

Sei, sei que sentiremos o frio no rosto

e o ímpeto do vento nos lábios,

pétalas a tombar de desejo. Beijo, leveza,

vontade a abrir desmedidamente.

 

 Quase inadvertidamente, às primeiras chuvas,

o caminho faz-se céu aberto e silhuetas avançam

 num espelho líquido de ilusão, chão de sobressaltos.

 

Meu rio de emoção, arrepio, meu outono deslizante!

Onde está a verdade, o grito, o esplendor?

Beijo a brevidade da chama, a envolvência da cor!

Na confluência de olhares, na estação mais improvável,

dir te ei adeus, apenas,

ser te ei ardente e breve, meu amor!

 

Teresa Almeida Subtil

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014


(Pintura de Carolina Henriquez V.)

NOSTALGIA

 
Quando entro no teu leito
há um diálogo imperfeito
Talvez tenha que tê-lo e dizê-lo
para dele extrair a dor
e mergulhar no prazer de escrever,
dilacerar o teu seio inquieto
neste tema aberto,
na nostalgia do entardecer.

 
Se me tocas
trazes-me ainda a vontade de mudar de rumo,
a vontade de viver: talvez por ti, talvez por mim.
mas é certo que não te amo, não te quero perto,
não se reuniram os astros para te fazer minha,
não se voltaram os búzios
para te incluir na minha sina,
e se me quiseres terá que ser a doer,
porque aos pés da minha mãe não te vi,
porque, na hora em que nasci,
gritei!

 
Teresa Almeida

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Sabor do Poeta

Sente-se-lhe substrato, paladar.

A palavra é rio e mar. Vai!

Cai por medida ou escorrega desbragada.

Se embalada em partitura

é textura de poesia.

A palavra musicada é paraíso, é procura.

Viaja da sombra à luz!

Toca a imortalidade se levada à saciedade.

É angústia, bravura,

é a suavidade e a sensualidade  do olhar

Sim, é ternura e aurora de mudança

quando aflora nos lábios de uma criança.


A palavra é o fascínio da cor

e o o bálsamo da dor, é esperança.

É presente degustado, aroma do passado.

É questionamento, indecisão,

movimento, libertação;

 é a fricção do verso na melodia da canção.

A palavra só pode ser janela, porta aberta,

sabor do poeta.


Teresa Almeida

quinta-feira, 25 de setembro de 2014


FAZ-SE OUTONO

e a minha pele torna-se sensual, molhada,
acariciada da forma mais pura.
A cadência é meiga, redentora. Deixo-me penetrar!
Escuto a harmonia desta batida outonal!
Os primeiros frios exultam a sensibilidade, o sentir;
hidratam-me a mente. O outono depura-me o paladar.
 
Que venham as uvas maduras a beijar-me os lábios sedentos,
que venha a chuva, o vento e as aves tresloucadas,
que se dispam as árvores e para ti sejam verdade!
E nós, aquelas folhas bailarinas, esvoaçantes
sem sabermos onde arrumar o rigor do inverno,
conceberemos um recanto, um socalco nas arribas
aonde o rio nos possa namorar.
 
E todas as horas serão nossas e cantarão
nos olhos dos grifos e no orvalho das palavras
as madrugadas que se acenderão para nós.
O riso celebrará a festa que abriremos.
Ah! e os olhares! os olhares espelharão
o regalo da tarde e a luxúria do sol pôr.
E por ali ficaremos até sermos humos, flor, vida;
até percebermos o mistério a explodir
e um fio de emoção a abrir indefinidamente .
 
Teresa Almeida

sábado, 13 de setembro de 2014

O Ocaso da vida



Há um entrançado divinal a ladear-te o caminho,
os tons esbatem-se na neblina e tu
deslizas num mundo que se vai diluindo...
e as tranças do cabelo embranquecendo.
Sentes que a vida se vai perdendo
à medida que os passos descem a ponte
em comunhão e intimidade construída.
Os candeeiros esguios são esculturas,
luz que findou nos cofres da luxúria.



Desces com elegância e entardeces de bem contigo.
Pareces ter um destino escrito nas vestes escuras,
um mistério cravado nas pedras da calçada.
Olhas mas já não queres ver nem sentir.
A luz magoada da tarde realça a lonjura
e o movimento de desafio ao infortúnio.
Nos contornos esbeltos do teu corpo
escapa-se um jeito dolente que arrefece quem te vê.
Pareces indiferente em descontraída atitude.
Voltas as costas como quem cede a fatal destino,
sentes na pele o sol a arder no ocaso da vida.
Teresa Almeida


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

PARABÉNS, TERESA ALMEIDA!



Mulher das duas línguas de Miranda (1)
Excelsa professora em sua vida,
Hoje essa Poetisa amiga querida
Que cá no pensamento me ciranda,

Meu desejo de ir vê-la não abranda
Lá onde o Douro entra e na corrida
Se espalha em nossa Pátria na descida
Que o traz até ao Porto... e tanto anda!

Teresa de seu nome. A simpatia.
Que no modo de ser toda é poesia
Com gestos sempre alegres e ufanos!,

Que conte aniversários sem ter conta!
Que o sol que lá da Espanha lhe desponta
Lhe aqueça sempre a vida longos anos!

Joaquim Sustelo
(Administrador de Horizontes de Poesia)

(1) em Miranda do Douro fala-se português e mirandês
Parabéns Amiga!

 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Feira do Livro


Respondendo ao convite que me foi endereçado, estarei amanhã  (11 de Setembro, pelas 20,30 h) na Feira do Livro em Mafamude - Vila Nova de Gaia.
Terei imenso prazer em abraçar os meus amigos.
Teresa Almeida

terça-feira, 9 de setembro de 2014

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Voltaremos

                                                    (Pôr do sol no Planalto Mirandês)


Voltaremos para atear a fogueira
 
Num rastro de fogo que se faz caminho largo e apelativo 
 
Será nossa a noite que semeia estrelas
 
 
 
Voltaremos para ganhar asas
 
Serão nossos todos os abraços poéticos
 
E os céus das mais belas melodias
 
Serão nossas as faúlhas que abrem madrugadas
 
 
 
Voltaremos para atear a fogueira
 
Nas emoções que escaldam as palavras
 
Será nosso um dueto único - em pleno voo
 
Teresa Almeida



domingo, 13 de julho de 2014

Chove na praça



Não sei se chove na praça meu amor          

se o vento desnuda as árvores

da confiança

que nos fustigam o caminho

e nos atiram cascalhos de mudança.                    

Uma a uma vão caindo as certezas,

os cabelos branqueando

e o sorriso amarelecendo.

As horas arrastam-se lentas e tardias

sem nos devolverem o tempo das cerejas

e as rosas que no peito me trazias.

Não sei se chove na praça meu amor

não sei se logo veremos as estrelas

e se o nosso olhar se cruzará entre elas.

Não sei se chove na praça meu amor,

se o tempo trará de volta a poesia,

se ainda me vestirei de esperança

e se encontrarei

a melodia que a aurora em nós escrevia.
 
Teresa Almeida

 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Madressilva

Sou íntimo peregrino de emoções selvagens
enredo de madressilva, sedução bravia e verdadeira.

 Rodeiam-me sonhos que tropeçam nos caminhos,
 olhares sozinhos que vertem rios de esperanças
 e rebuscam mares, marés jovens, vida plena.

Sentidas gargalhadas, sangue a
pulsar, encostas de arribas.
Gritos de aves a céu aberto, futuro incerto
a desenhar-se na pele chamuscada de árvores nuas.
Nesta peregrinação existo e nada
se esvai que mereça ser dito.

De além do rio evoluem cenários
multicores, abraços que se atrevem

e há um filme ensaiado algures, no infinito,
intocável!

Se me vires com uma invejável madressilva
no decote

saberás que é todo o meu dote, meu
grito, meu verso de perfume silvestre.


Teresa Almeida

terça-feira, 13 de maio de 2014

De que falas?



 Dum entrelace que quase queima
e acende fogueiras no regaço?
Sei que nos teus lábios nasce o sol de Agosto...
e a pele tece rubra palavra.
É nos picos que Dezembro se despe
e de êxtase o jardim rejuvenesce.
É nas veias que acontece o sobressalto
e o meu corpo perdido em mar alto
é barco à vela, sôfrego de estrelas.

Teresa Almeida

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Viajo na garupa


Há um voo de mil aves em festivo acasalamento
atitude desafiante, pensamento escorregadio.
O norte é o desassombro e a liberdade.
No corpo um dinamismo avassalador,
 como se o trotear fosse a canção.

Cabelo solto na dimensão do vento,
açoite propulsor de ilusão.
Quando o ritmo aperta, a palavra, sem idade,
desata -se espavorida ,
parte em frente, luzidia, e o trotear dá-lhe o ritmo
de melodia consentida.

Viajo na garupa, pegadas nuas
marcam caminho de areias inconstantes.
Fora do sonho, a sombra em sentido contrário,
continua rastejante; como se num outro eu
ela vivesse e sem mim viajasse.

Teresa Almeida

sexta-feira, 28 de março de 2014

Teatro e vida


Essa energia que te atira ao alto,
esse riso, essa mímica, irresistível atração,
sobressalto, questionamento, aflição,
esse chão e esse palco que te amolece.

Há alegria que pisas e um céu que te arrebata,
olhar que fulmina de ódio e se derrete
contradição que te anima, grito, revolta,
vontade de dar a volta e dizer não
ao sim sem força.

Ah, esse fingimento de seres,
essa glória, esse fulgor,
essa prisão.

Esse voo maior é teatro e vida
momento fugaz, dor que aperta,
poeta rebelde, dura paixão, querer,
peça gasta, que nunca te afasta
do menino assustado,

a tremer na vontade de crescer.

Teresa Almeida

segunda-feira, 17 de março de 2014

Desperto


Desperto fazendo-me nua na palavra,
escrita no fulgor de rara melodia,
acariciada num trecho musical único, invulgar,
tão intenso que te pressinto a reger-me os sentidos.

Os acordes espraiam-se no meu corpo e os dedos
deslizam na energia que se faz palpável.
Ah! e aquele tom que soltaste mais além
imbuído de uma ponta de ciúme - adorável!

Sim, sei que essa trilha não é minha
e não percebo porque me colei, como se o tema
tivesse nascido para mim, pleno de intensidade.
Até me vejo poetisa, sim, no poder de te ver e te ter
na voz, na emoção e na singeleza do verso original.

Teresa Almeida 

sábado, 8 de março de 2014

La Mulhier i la poesie

 (Hoje, em Miranda do Douro)

Mulhier
porquei stamos hoije eiqui?
ye l nuosso die si,
 l die de la mulhier de l praino
de la mulhier mirandesa
bien andrento de l alma pertuesa.
I nun son todos  ls dies dezde que
tenemos  un filho na barriga?
Si, porque la mulhier ye mai,
 mas ye filha tamien;
 i agarra  l mundo ne ls braços
 i lo ambala por ende i le dá guarida,
cun  carino debino de quien la bida  ten.
Ye ua frol que se zarrolha i amadurece
na alegrie i na tristeza,
de mano dada quando alguien percisa.
Ye buono tener l´home cun nós, al lhado
nun ye cierto?
sien el acerquita que grácia tenerie?
Que si me gusta  ber-los hoije eiqui,
nesta fiesta tan galana!

Hai sfregantes an que la zgrácia mos apanha
i l delor  mos droba la spina.
Anton, son l amor i l'amisade la melhor cumpanha,
l furmiento de la sociadade
la fuorça que mos fai andar camino
cun magie ne l'oulhar.
De que sirbe botarmos-mos ambaixo
se la nuossa hora chigará, yá  l sabemos.
Assi i todo, agarremos cada die, cuntentas, 
cumo se  derradeiro fuora,
cantemos  ne l mirar de ls filhos, de l cumpanheiro,
de ls pais, de ls amigos - bielhos  ou nuobos.
La bida anda a la ruoda  i manhana seran outros
que staran eiqui i cuido you que cantaran
nesta lhéngua amerosa
 la mulhier i la poesie.

A MULHER E A POESIA

Mulher
porque estamos hoje aqui?
É o nosso dia sim!
O dia da mulher do planalto
o dia da mulher mirandesa,
bem dentro da alma portuguesa.
E não são todos  os dias desde que
temos um filho na barriga?
Sim, porque a mulher é mãe
mas é filha também!
E agarra o mundo nos braços
 e o embala e lhe dá guarida,
com  carinho divino de quem vida tem.
É uma flor que desabrocha e amadurece
na alegria e na tristeza,
de mão  dada quando alguém precisa.
É bom ter o homem connosco, ao lado
não é certo?
Sem ele por perto que graça teria?
Sim, gosto de os ver hoje, aqui,
nesta festa tão bonita!
Há momentos em que a desgraça nos apanha
e a dor nos dobra a espinha
Então é o amor e a amizade a melhor companhia,
o fermento da sociedade
a força que nos faz continuar o caminho.
De que serve deixarmo-nos ir abaixo
se a nossa hora chegará, já o sabemos.
Agarremos, então cada dia, contentes
como se fosse o último.
Cantemos no olhar dos filhos, do companheiro,
dos pais, dos amigos - velhos ou novos.
A vida anda à roda  e, amanhã, serão outros
que estarão aqui e penso eu que cantarão
nesta língua amerosa
a mulher e a poesia.

Teresa Almeida

terça-feira, 4 de março de 2014

Poesia na galeria





 
Sinto o encantamento a sugar-me os sentidos.
Desço as escadas e na arte, consagrada, ascendo.  
Mares e caravelas ganham vida, viajam na palavra
 e fazem-se poesia que cresce ao descer a escada;
 um movimento em passo de dança versificada.
E eu desço entrelaçada  na melodia e no desafio.
 E este passo e esta dança evoluem em sonoridades tais
que me fazem acreditar que todo este enredo me quer
e me mostra que nem sempre estou presente neste mundo.
Pressinto um mistério profundo de quem  balança
na harmonia entre a pintura, a música, o verso e a dança.
Harmonia que me guia. Sinto que este dia pela vida se estende,
e vou deslizando no divinal poema que na galeria se aprende.
 
Sem nunca ter estado na galeria - escrevo
o entusiasmo e a vontade de, ali, viver poesia.
 
Teresa Almeida

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014


Mulher e chama

 

 sou-te presente mulher e chama
ímpeto fremente de lua abandonada
aberta ao calor na turbulência da noite
ignota fonte de ternura derramada
 
na tua pele terno leito desejado
no teu peito celestial momento
estrela perdida em teu horizonte
   faísca a galope, calendário sem tempo 
 
vem ter comigo, vem e faz-me
florir no inverno, rubra de desejo
a gemer num beijo louca de saudade
 
vem ter comigo, vem e traz-me
a verdade e o lance de um condor
e nos céus do Prazer voarei contigo
 Teresa Almeida

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"Pathétique"

 
Talvez como quem justifica a dor da ausência

mandaste-me Tchaikovsky como embaixador.
 
 
Interpretei os silêncios  da sinfonia (era a 6º )

 como quem se prepara e espera do amor

uma avalanche de emoções. Depois sentia-as fluir,

por antecipação, deslizando na amargura,

na saudade, na ânsia. O rosto molhado e o olhar entranhado

na apoteose de toadas finais. Porém, quando a melodia hesita

 e treme nas íntimas fímbrias do meu peito,

 quero adivinhar novos acordes - sinfonias de euforia.
 
 
E foi assim, nesta manhã estremunhada e opaca,

que Tchaikovsky ocultou as estrelas que nos adormeceram

e a orquestra tocou - demoradamente - só para nós!
 
Teresa Almeida
Rio Douro - Miranda do Douro

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

País decerto


Senti-te seda na minha pele, especiaria
poema pujante que de dor se arrastava
e de impossíveis se alimentava.
Trazias a cegueira e a visão na pena de Camões
a lágrima de Amália
o violento e derradeiro amor de Pedro e Inês,
ou deste a vez à poesia que te tocava de forma exacerbada?
 
Disseste a alegria do olhar e vestiste o verbo de melancolia
trouxeste a alma portuguesa naquela madrugada
do fado, a tristeza a corroer-te.
Deixa-me dizer-te que vieste comigo na brisa marítima
que meus cabelos acariciava
e na onda invulgar que meu peito sossegava.
 
Hoje
deposito na profundidade deste mar
a vontade de um poema feito ternura e grandeza
marcado de sensibilidade
deposito e grito, esconjuro e sonho um país decerto
que desperto, não morre de saudade.
 
Teresa Almeida






segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Pantera Negra



predestinado, vieste lá de longe
na atitude atlética, doce e feroz
de nós fizeste admiradores e poetas
contigo pelo mundo aos pontapés
 
colados ao teu efeito magnético
o ópio do povo voando nos teus pés
e num lance de pantera, sempre novo
maior do que um grande clube tu és
 
do Porto minha alma contida e clubística
rende-te sentida e serena homenagem
és alto, és maior, és poema, és paixão
 
foste loucura, simplicidade, alienação
foste a voz que no mundo explodiu
e ficarás lenda viva - saudade em nós
 
Teresa Almeida

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O perfume do verso


Ser poeta não é só escrever versos

é saber criar um clima de liberdade

é cevar em ti o desejo de renascer

e no deserto das ideias maltratadas

 dar-te a chave do céu e do prazer


ser poeta é saber beijar as palavras

e despir-te dentro delas sem alarde

saber que  o poema não voa nem arde

se a lira não afinar ao teu toque

e um único perfume o verso não tiver

Teresa Almeida