O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

domingo, 28 de dezembro de 2014

Sons e Tradições - Natal/2014

Ainda há rescaldo no Adro da Sé, apesar de já terem passado alguns dias desde que os carros de bois, carregados de lenha, desceram a rua dos Adis, passando em claro a primeiro de Maio, a minha. Vêm numa bolina impressionante e, quando se aproximam do café Porto,fazem uma curva em ângulo reto que arrepia quem gosta de ver todo este vigor e entusiasmo da rapaziada. Há um chefe, em cada ano, que levanta o ânimo usando a sua voz em máxima potência. Sim, quem puxa os carros são os destemidos rapazes, na força da vida! O frio corta-nos as orelhas, mas não arredamos pé! O chiadeiro neste ângulo deve ser o mais forte de todo o percurso. O eixo e as rodas chiam a bom chiar!

Vem-me todo este entusiasmo pela paisagem sonora duma palestra do investigador Mário Correia em S. Pedro da Siva, no dia treze deste mês de Dezembro, a propósito dos festejos do solstício de Inverno. A verdade é que bem sentimos tudo isto, mas se percebermos os fatores que concorrem para
que um som saia de forma irrepetível num determinado lugar, o caso ganha outra dimensão.

Já passaram alguns dias desde que os toros começaram a arder em frente à vetusta Sé desta linda cidade de Miranda do Douro.  É impressionante a fogueira do galo! Como se nela ardessem todos os medos e a esperança renascesse! À volta as pessoas conversam a lenha vai ardendo. E as chispas registam no ar sons do outro mundo

Todo este cenário, com o crepitar das brasas, na verdade fazem do Adro da Sé algo surreal e contribuem para o encantamento desta quadra festiva. Sai daquele imenso braseiro toda uma orquestra, digna do melhor compositor.

O investigador bem quereria pôr os microfones no centro do braseiro, mas tem que se contentar com os sons à volta da fogueira. As palavras também andam a rodopiar e devem ter uma melodia especial, depois da ceia de Natal. Palmadinhas nas costas, beijos e abraços são, afinal, os tons da amizade. É, também, o dia em que quem tem uma capa de honra mirandesa se apresenta cheio de "proua". Nem o Menino Jesus esquece a sua.

De dentro da Sé saem cantares de anjos, é certo, mas também algumas risadas incontidas. Não admira porque o Menino Jesus sempre teve cara de amigo, principalmente o Menino Jesus da Cartolinha que bem se vê que não pode com o riso. O riso vem dos céus, temos a certeza. E que falta nos faz em
qualquer paisagem sonora do dia a dia!

O adro não é o mesmo do resto do ano, muito menos os sons que mudam a cada momento. Não sabemos definir todo este encantamento da noite de Natal, como se as estrelas quisessem mudar de lugar e se mostrassem entre nós em todo o esplendor de luz e som.

Não faltarão a gaita de foles, a flauta pastoril, o realejo e os bombos da nossa terra. Miranda do Douro é uma terra musical e não pode haver festa sem os sons que lhe pertencem e lhe conferem identidade.

Teresa Almeida Subtil



 
(Texto publicado na BIRD MAGANIZINE e partilhado na Rádio sem fronteiras.)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SAPATINHOS DE NATAL


 
Como seriam os sapatinhos que eu e o meu irmão colocávamos,

 junto ao borralho, cheios de devoção. Como seriam?

Lembro-me da candeia de azeite a alumiar os serões da nossa infância,

das filhós e do arroz doce feitos a preceito pela avó Adília,

do valor e do prazer de estreitar os laços de família,

sentir que, à roda da fogueira do galo, aos amigos se estendia.

 

Os sapatinhos ficavam pela noite dentro, debaixo da chaminé,

 no rescaldo dos sonhos. Com fé, também eu ficava

e rezava até adormecer de exaustão! A minha prece ao Menino Jesus,

aquele que tinha o mundo na mão, no altar da minha meninice,

seguia sempre na mesma direção. Que pedia eu?

Uma boneca real, que chorasse, que falasse.

 

No dia seguinte, ao acordar, corria,

e era o sorriso dos anjos que nos espreitava: os meus pais.

Não me lembro de ficar desiludida, esquecia o fervor

e os desejos que depositara no sapatinho. Não havia frustração!

Encontrava uma bugiganga qualquer(digo agora eu).

Apenas sentia que era um presente do céu!

 

Volvidos os verdes anos, volvidos tantos passos,

olho, com viva emoção, as prendas que eu tanto desejava:

 a Carla, a Guida, a Ana Teresa, A Laura Maria

e  o Fernando, o meu amor mais recente!

O Natal aconteceu! Verdadeiramente!
 
 
Teresa Almeida Subtil

 (Respondendo a um desafio poético, fui buscar a magia do Natal da minha infância.)

domingo, 7 de dezembro de 2014

PALAVRA DE TORGA integrada na FEIRA DO LIVRO do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro.

Não, não direi que a noite estava escandalosamente fria. No Nordeste Transmontano conhecemos muito pior! Mas, se dissermos que a magia deambulou por aí, já não exageramos. E se dissermos que a poesia do nosso Miguel Torga aqueceu a noite no coração da cidade de Miranda do Douro, também não exageramos.
No interior do Museu da Terra de Miranda a palavra do poeta brilhava nos olhares dos que já a queriam muito e dos que para ela despertavam. Conceição Lima, uma minhota com a alma arraçada de transmontana, esteve no auge do seu fulgor poético! Sala cheia.
A transparência das portas do museu oferecia-nos uma visão da praça D. João III em todo o esplendor noturno. A poesia subia e a emoção crescia!
Estamos crentes que Miguel Torga se sentiria tão feliz como nós ao ouvir os seus poemas, ditos pelos alunos e professores do Agrupamento de Escolas, nesta língua "amerosa" - a Língua mirandesa.
Um conto ( Fronteira) - ao jeito telúrico de Miguel Torga (a cargo da juventude exuberante dos "Tretas"), rematou o sarau no seio de uma ovação bem sentida.
Estão de parabéns os que deram as mãos para levar a efeito esta aposta poética que entrou pela noite mirandesa de forma inesquecível!
A escola e a comunidade em interação. O precioso apoio da Câmara Municipal. A Associação de pais, O Museu da Terra de Miranda. O grupo de teatro "Tretas".
Foi bom sentir este estimulante abraço cultural.


PALABRA DE TORGA

Nuite de Poesie ne l Muzeu abarcada pula Feira de l Lhibro de l grupamento de Scuolas de Miranda de l Douro

 
No, nun bou a dezir que la nuite staba frie. Ne l Nordeste Stramuntano conhecemo-las muito más malas. Mas se dezirmos que la magie andou por ende, nun mos botamos fuora de l reilho. I se dezirmos que la poesie de l nuosso Torga calciu la nuite ne l coraçon de la cidade de Miranda de l Douro cuntinamos ne l reilho.
Drento de l Muzeu de la Tierra de Miranda de l Douro la palabra de l poeta relhuzie ne ls uolhos de ls que yá la querian muito i de ls que pareilha spertában.
Conceição Lima, ua minhota cul´alma raçada de stramuntana, arrepaçou la carapota de l sue arte poética! La sala iba-se cumponendo ...
Las puortas de l muzeu deixában arrepassar ls uolhos i oufrecien-mos ua bista de la Praça  D. João III an todo al sou brilho noturno. La poesie chubie i l´eimoçon crecie!
Stamos ciertos que Miguel Torga s´habie de sentir tan feliç cumo nós al oubir als sous poemas dezidos puls alunos i porsores de l Agrupamento de Scuolas, nesta lhéngua amerosa  - La Lhéngua Mirandesa.
Ua cuonta (Fronteira) - a la moda "telúrica" de Miguel Torga (por cuonta de la mocidade formidable de ls "Tretas") - arrematou la nuite, ne l meio de muita palma bien sentida.
Stan de parabienes als que dórun las manos para poner de pies esta aposta poética q´antrou pula nuite mirandesa de maneira que nunca s´apagará.
La Scuola i la quemunidade an açon. L ajuda de la Câmara Munecipal. L Associaçon de Pais, l Muzeu de la Tierra de Miranda i l grupo de teatro "Tretas".
Fui, al fin de cuontas, un baliente abraço cultural.


Teresa Almeida Subtil







terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Adeus, apenas.


Dir te ei adeus na estação mais improvável,

bem perto do rio, na confluência de olhares,

acenar te ei na brevidade do gesto,

antes que o vendaval nos tome de assalto.

 

Sei, sei que sentiremos o frio no rosto

e o ímpeto do vento nos lábios,

pétalas a tombar de desejo. Beijo, leveza,

vontade a abrir desmedidamente.

 

 Quase inadvertidamente, às primeiras chuvas,

o caminho faz-se céu aberto e silhuetas avançam

 num espelho líquido de ilusão, chão de sobressaltos.

 

Meu rio de emoção, arrepio, meu outono deslizante!

Onde está a verdade, o grito, o esplendor?

Beijo a brevidade da chama, a envolvência da cor!

Na confluência de olhares, na estação mais improvável,

dir te ei adeus, apenas,

ser te ei ardente e breve, meu amor!

 

Teresa Almeida Subtil