O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O voo da cotovia


Se vires uma cotovia perdida no espaço,

desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora,

onde possa amar a claridade do tempo inicial,

o tempo dos amplexos do sol nas escarpas,

o espanto do mundo pendurado no penhasco

e do canto esgalhado nas arribas do apertado vale.

 

Já não se reconhece nas asas em que acreditava,

mas sabe que bebia a melodia imaculada das cascatas enfurecidas,  

dos orvalhos da noite, do grito surdo das folhas perdidas.

Sabe que percebia o resfolgo da terra quente e molhada.

 

Fez-se caminho de rio, eco de margens a pulsar paixão,

perigo, queda, lonjura, graça esfumada, queda rasa de alma.

 

Morou sempre longe, rente ao penhasco, para lá da imaginação.

A cotovia que tinha colhido na areia movediça o esplendor,

fechou o ciclo. Fez-se regresso, primórdio. Sabia que voava.

 

Esvoaçar  é o seu destino.  Sempre longe da claridade do ninho,

continua a rasgar asas, perseguindo  horizontes impossíveis.

 

 Se vires uma cotovia perdida no espaço,

desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora.


Teresa Almeida Subtil
 
 

16 comentários:

  1. O voo das cotovias diz-me muito.
    Teresa, parabéns por esta maravilha!

    Beijo :)

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  2. O iniciar e finalizar do dia é evocado pelo seu canto magistral. Bem sabes do voo e canto da cotovia. Ela se esforça por manter o diálogo entre o rosicler e o repouso do Espírito.
    "[...] Se vires uma cotovia perdida no espaço,

    desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora".


    Beijos


    SOL

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  3. Se acontecer assim uma cotovia

    nunca estará perdida
    Belo este voo rasgado

    Bj

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  4. Nunca devemos deixar uma cotovia perdida. Seria um mau presságio! Os espaços do seu habitat pertencem-lhe por direito. Mas esta cotovia parece sofrida. Talvez com os desmandos dos Homens. Sim, é preciso devolver a esperança...
    Um voo poético excelente, amiga, acompanhado de uma belíssima foto!
    Bjuzz, querida Teresa :)

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  5. Uma foto linda, de cortar a respiração, e um poema que é um autêntico voo sobre a beleza da cotovia e o seus espaços de liberdade; ora espaço recôndito ora a céu aberto, ora perdida a necessitar de um "fio de aurora".
    Muito belo, Teresa!
    xx

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  6. A tua poesia rasga o céu das palavras, acompanhando este voo sincopado da cotovia que não conhece limites.
    Tu e a cotovia cada vez voando mais alto!
    Belo Teresa
    Beijinho!

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  7. "Se vires uma cotovia perdida no espaço,
    desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora."
    Que beleza!
    Um beijo.

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  8. Há muito tempo que não vejo cotovias. Ou ando distraído ou elas migraram de vez...
    Mas o teu excelente poema trouxe-me o canto do anjo da primavera...
    Bom resto de semana, querida amiga Teresa.
    Beijo.

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  9. Boa noite Teresa,
    Que a cotovia tenha a sabedoria de manter-se longe dos olhares do homem destruidor.
    Belíssimo poema, com cheirinho de "horizonte impossíveis".

    bj amg

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  10. Belíssimo,Teresa.
    Um voo poético magistral, com a expressão libertária nas
    asas do teu sentir poético e um apelo para preservação,
    somos responsáveis para continuidade do belo voo da cotovia.
    Beijinhos,querida amiga.

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  11. Um excelente voo planado até ao horizonte infinito, feito liberdade, cor e amor.
    Nunca a cotovia ficará sem rumo, com tanta lux e esplendor.
    Excelente, excelente, excelente!

    Beijos Teresa...

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  12. Gostei de reler o teu excelente poema.
    Mas vim à procura de mais...
    Aproveito para te desejar uma boa semana, querida amiga Teresa.
    Beijo.

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  13. Teresa, reli o seu belo poema e depois, fiquei a brincar num fio de aurora...
    Beijo!

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