O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

sábado, 24 de outubro de 2015

Amanhecer no Gerês



Ao despertar qualquer varanda é palco de contemplação, um convite à evasão dos sentidos: é o apelo da natureza, é a emoção que nos pendura sobre o verde talhado a várias altitudes, é a neblina matinal que nos toca num arrepio de madrugada.
Não conseguimos ver o rio porque as árvores se lhe entregam e entrelaçam como se fora um romance de encantamentos. Não conseguimos vê-lo, mas ouvimos o seu palpitar impetuoso, o seu cantarolar entre os seixos que vai arredondando em massagens de corrente e vai fazendo caminho na direção de um destino infinito que lhe pertence. Talvez seja esta noção de movimento perene que nos prende ao momento, sabendo que a vida se vai fazendo de pequenos passos e, se não soubermos aproveitá-los, ficaremos com as mãos cheias de coisa nenhuma.
Pressinto um toque romântico que me eriça a pele ao reescrever a poesia do olhar, agora maduro, mas que - aqui - já foi tão verde como as folhas que teimam em manter a tonalidade primaveril ou como os veados que dominam graciosamente a paisagem e desfrutam de total liberdade. Passaram por mim tantas estações, alguns apeadeiros dissonantes, mas é gratificante redescobrir este bosque imaculado. E ao correr da pena deixo cair algumas gotas de orvalho matinal, este pulsar em que me sinto e confundo, como se fosse um pássaro que se enche de audácia e esvoaça para o sítio onde se sente feliz.
As palavras são, assim, esse poleiro de assombros e evasões. É verdade que tropeçamos em estados de alma que nos dizem que somos muito mais que nós mesmos, que não cabemos no sítio onde estamos e, por isso, voamos - nas palavras.

Embrenhados na serra, descobrimos fontes dispersas, pausas revigorantes. Há quem nunca esqueça as sedes da Guiné e vá abraçá-las e desfrutar do seio líquido da terra (a guerra gritará sempre na alma de quem a viveu).
Atrevo-me a dizer que experimentamos uma subtil intimidade com a natureza no rumorejar que nos acompanha, eco de fios de água a serpentear por ali. Parecem tão puros como os sentimentos. Depois, nos meandros da objetiva, surgem azuis intensos, verdadeira alquimia de vida e de amor.
Na serra do Gerês há partes selvagens e intocáveis. Ali a natureza é ela mesma em toda a sua biodiversidade. Sabemos que o parque nacional Peneda Gerês é considerado pela UNESCO como Recurso Mundial da Biosfera.
De facto, é grande a variedade e a riqueza vegetal devido às variações de altitude e às influências oceânica e continental. A cabra, o cavalo e a vaca surgem soltos como companheiros de jornada.
E, de repente, o Outono abre portas, tão lentamente, como se os deuses sussurrassem baixinho um poema escrito em requebros de beleza, um poema que é terra, que é alma, que é vida.
No Gerês experimentamos, também, um sentido duro de existir, ao vacilarmos nas curvas onde o fragaredo se mostra na iminência de ruir. As penhas parecem empurradas, em desequilíbrio permanente, como um país a doer. E dizem que os demónios vociferam em cascatas alucinantes. Debruço-me nos miradouros e deixo-me enfeitiçar. Olho e ouço cantares altivos de montanha e esculturas cinzeladas de espanto.
Por aqui se respira e se entende a presença e a alma poética de Torga:
“Serra!
Há qualquer coisa que em mim se acalma,
Qualquer coisa profunda e dolorida
Traída, Feita de Terra e alma.
 Uma paz de falcão na sua altura
 A medir fronteiras!
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras.”

Parto com fome de voltar, para saborear a magia do amanhecer no Gerês, este desejo insubmisso de acordar em lençóis de neblina, em beijos humedecidos, nesta sensualidade a derramar-se à flor da pele. Parto com uma agradável sensação de leveza, sentindo em pleno o ser físico e espiritual que somos, em qualquer momento e em qualquer lugar.

Teresa Almeida Subtil


(Texto publicado na BIRD MAGAZINE, em 21/10/2015)

7 comentários:

  1. A comunhão com a Natureza bem sentida, bem narrada, despertando partes adormecidas de nós...
    Um excelente texto, Teresa, parabéns!

    Um beijinho :)

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  2. Olá Teresa (que saudade!),
    Um texto belíssimo, que nos encanta a cada parágrafo,
    com a luminosidade, profundidade e poesia que inundam
    a nossa alma nesta transcendência, nesta unidade e
    nesta renovação com a natureza descrita por ti.
    Adorei este trecho do poema de Torga:
    "Serra!
    Há qualquer coisa em mim se acalma,
    Qualquer coisa profunda e dolorida
    Traída, feita de terra e alma."
    Texto brilhante e acompanhado desta foto da
    poetisa linda e luminosa...
    Muito grata com a partilha!!
    Beijinhos saudosos.

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  3. De uma varanda se sente, pela manhã o acordar do mundo. E no Gerês deverá ser, como tão bem descreves, uma experiência única e emocionante. Feita de múltiplos verdes na neblina matinal, com o murmúrio de um rio escondido pela vegetação. Por isso transbordaste nas palavras como um pássaro a sobrevoar a paisagem que te desperta tão poeticamente o olhar.
    Ah quem me dera ir ao Gerês!
    Um texto belíssimo! Parabéns.
    Gostei também do Torga e da tua foto!
    Bom resto de domingo, Teresa.
    xx

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  4. Belo casamento de viagens
    palavras em carne viva

    Bj

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  5. Esse contacto com a natureza é tão fascinante !! Como fascinante é a tua escrita e a forma como descreves esses lugares , onde o mundo parece pintado de verde, montanhas íngremes,a força da água a cair das cascatas fazem do Gerês, talvez, um doslugares mais belos do nosso País....

    Beijinhos Teresa

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  6. Agora me conta : como não ser vestida de Natureza se sou parte dessa terra bendita !?
    Maravilhoso texto! Um hino !
    Abraço

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  7. Não é roteiro, não é crónica de viagem, não é um relato de uma vivência... É um pouco de tudo isto, sim, mas vai para lá da estreiteza desta catalogação: é a alma a dar conta do deslumbramento sentido...
    Muito bom!
    Bjo :) :)

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