O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O voo da cotovia


Se vires uma cotovia perdida no espaço,

desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora,

onde possa amar a claridade do tempo inicial,

o tempo dos amplexos do sol nas escarpas,

o espanto do mundo pendurado no penhasco

e do canto esgalhado nas arribas do apertado vale.

 

Já não se reconhece nas asas em que acreditava,

mas sabe que bebia a melodia imaculada das cascatas enfurecidas,  

dos orvalhos da noite, do grito surdo das folhas perdidas.

Sabe que percebia o resfolgo da terra quente e molhada.

 

Fez-se caminho de rio, eco de margens a pulsar paixão,

perigo, queda, lonjura, graça esfumada, queda rasa de alma.

 

Morou sempre longe, rente ao penhasco, para lá da imaginação.

A cotovia que tinha colhido na areia movediça o esplendor,

fechou o ciclo. Fez-se regresso, primórdio. Sabia que voava.

 

Esvoaçar  é o seu destino.  Sempre longe da claridade do ninho,

continua a rasgar asas, perseguindo  horizontes impossíveis.

 

 Se vires uma cotovia perdida no espaço,

desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora.


Teresa Almeida Subtil
 
 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Abraço arrochado


Registar as minhas emoções é prolongar o que me dá prazer ou arrancar de mim todas as agruras. É como ir ao psiquiatra e deixar a conversa fluir sem freios.

Hoje foi um dos dias de registo, hoje fui dar-te um abraço, daqueles teus - arrochados -, abraço de amigo que se quer sempre perto. Não podia deixar de ir. Fui até Sendim, a tua terra, e encontrei-te metido numa capa que nunca te tinha visto. Parecia que deveria vir dos afetos que se aconchegam nas palavras. Encontrei-te rodeado de amigos porque tens um coração do tamanho do mundo, onde cabe sempre mais um. Eu sou um daqueles que tem o privilégio de conhecer e sentir essa capa de amizade. Bem hajas!
Encontrámo-nos no lugar dos sons da terra, um espaço que te é muito querido. Ao passar pelos bancos, às portas das casas, lembro-me que sempre lá viste os amigos que já partiram como eu na minha rua ( até os vejo ao postigo!). Parece que ficámos contagiados e mais amigos entre nós, só por estarmos irmanados contigo, com as letras, com o calor da sabedoria e dos afetos.
Desta vez eram "Ditos Dezideiros" que recolheste para engrandeceres as duas línguas de Portugal. Ninguém pense que este país terá o mesmo vigor e conteúdo cultural se não lutar pelas duas, se não se mostrar ao mundo na autenticidade da sua história.

Sabemos que o trabalho e a curiosidade sempre deu vida e luz ao teu olhar, Amadeu Ferreira!
"Não pares de escrever", dizes-me sempre que nos falamos. Fico um pouco embaraçada, mas aguças-me esta vontade, este prazer que me move.

"Isto é algo sério", teimas em repetir. Na verdade quando leio um livro teu, é isso mesmo que sinto, é o valor daquilo que realmente importa, um legado dum amigo, dum escritor contemporâneo da nossa terra. É uma experiência tão forte que falta força às palavras.

"Teresa, queres pertencer ao grupo? - perguntaste-me um dia, só por te aperceberes do meu apreço pela língua mirandesa - o teu graal!
Entrar para os Blogueiros Mirandeses é um prémio que guardo com carinho, no lugar dos meus tesouros. Encanta-me calcorrear caminhos, conhecer a história dos lugares, falar e ouvir a língua da origem de Portugal, a língua do planalto, a língua de "La BOUBA DE LA TENERIE", a língua de "NORTEANDO".

Ainda hoje te fui ver e guardo o teu sorriso, a força do teu olhar e as palavras que sabes que me fazem bem. Tens tanto para dar e até parece que dares-te aos outros é o alimento da tua alma.

Ainda hoje me disseste "tens escrito, Teresa?" Não pares! Os teus upas sempre me aqueceram as palavras.

À saída, Alfredo Cameirão, outro sabido da língua mirandesa despediu-se assim: escreve, Teresa!

Bem, sendo assim: aqui vai!

ABRAÇO ARROCHADO

Registrar las mies eimoçones ye prolongar l que me dá prazer ó arrincar de mi todas las agruras. Ye cumo ir al psiquiatra i deixar la cumbersa scorrer sin trabones.

Hoije fui un de ls dies de registro. Hoije fui-te a dar un abraço, daqueilhes tous - arrochados -, abraço d'amigo que se quier siempre acerquita. Nun podie deixar d'ir. Fui até Sendin, la tue tierra, i ancontrei-te metido nua capa que nunca te tenie bisto. Parecie que deberie benir de ls afetos que s´ arróchan an las tues palabras. Ancontrei-te arrodeado d'amigos porque tenes un coraçon de l tamanho de l mundo, adonde cabe siempre mais un. You sou un daqueilhes que ten l prebileijo de coincer i sentir essa capa d'amisade. Bien haias!

Ancuntrámos-mos ne l lhugar de ls sonidos de la tierra, un spácio que te gusta muito. Al passar puls bancos, a las puortas de las casas, lhembro-me que siempre alhá biste ls amigos que yá partírun cumo you an la mie rue ( até ls beio al postigo!). Parece que, nesta tarde, ficámos cuntagiados i mais amigos antre nós, solo por starmos armanados cuntigo, culas lhetras, cula calor de la sabedorie i de ls afetos.

Desta beç éran "Ditos Dezideiros" que recolhiste para angrandecires las dues lhénguas de Pertual. Naide pense qu'este paíç terá l mesmo bigor i cuntenido cultural se nun lhuitar pulas dues, se nun s´ amostrar al mundo na berdade de la sue stória.

Sabemos que l trabalho i la curjidade siempre dou bida i lhuç al tou mirar, Amadeu Ferreira!

"Nun pares de screbir", dizes-me siempre que mos falamos. Fico un pouco ambaraçada, mas aguças-me esta buntade, este prazer que me mexe.

"Esto ye algo sério", teimas an repetir. Na berdade quando lheio un lhibro tou, ye esso mesmo que sinto; ye l balor daqueilho que rialmente amporta, un lhegado dun amigo, dun scritor cuntemporáneo de la nuossa tierra. Ye ua spriéncia tan fuorte que falta fuorça a las palabras.

"Teresa, quieres pertencer a la quadrilha? - pregunteste-me un die, solo por sentires l miu aprécio pula lhéngua mirandesa - l tou "graal"!

Antrar pa ls Blogueiros Mirandeses ye un prémio que guardo cun carino, ne l lhugar de ls mius tesouros. Ancanta-me calcorrear caminos, coincer la stória de ls lhugares, falar i oubir la lhéngua de l'ourige de Pertual, la lhéngua de l praino, la lhéngua de "La BOUBA DE LA TENERIE", la lhéngua de "NORTEANDO".

Inda hoije te fui a ber i guardo la tue sonrisa, la fuorça de l tou mirar i las palabras que sabes que me fázen bien. Tenes tanto para dar i até parece que dares-te als outros ye l'alimiento de la tue alma.

Inda hoije me deziste: tenes scrito, Tresa? Nun pares! Ls tous upas siempre me calecírun las palabras.

A la salida, Alfredo Cameiron, outro sabido de la lhéngua mirandesa, çpediu-se assi: scribe, Tresa!

Bien, sendo assi: ende bai!
 
Teresa Almeida Subtil (in Jornal Nordeste)


 

sábado, 10 de janeiro de 2015

A ARTE É MULTIFACETADA

 
Doeu-me quando me apagaste,
como se amarrotasses as páginas,
destruísses as lombadas
e conspurcasses os laçarotes;
aqueles que diziam a festa da vida
aqueles que prendiam o carinho
a arte no enrolar de uma fita,
na cor e na textura do tecido,
no brilho solto no detalhe.
 
À hora do sol-pôr o botão é ouro,
os berloques são minaretes,
os pormenores são beijos,
poemas a arder no peito.
A arte é multifacetada;
não lhe apagues a graça,
não lhe belisques o estilo,
mesmo que tenhas direito.
 
Teresa Almeida Subtil


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

HORA DA POESIA

Deixemo-nos penetrar pela beleza e intensidade poética de Amadeu Ferreira:

"guarda os pequeninos gestos, os instantes, quase sem tempo,
os lugares de que só te ficou um registo gasto na memória:
os bocadinhos de ser feliz podem durar sempre na lembrança,
ainda que não passem de uma dor..
...tem-nos sempre à mão para resistir e acalmar as fomes que te povoam..."

Link directo: http://www.radiovizela.pt/radiovizela.asx

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Enterro do ano velho.

 

Pela noite velha queima-se o ano, em cerimónia ritual. Uma tradição solsticial que não queremos deixar morrer. Esta foi uma noite que quisemos viver - não direi em plenitude - mas aproveitando os últimos acordes antes de rasgar a página e seguir em frente. Bem sei que o tempo é selvagem e voraz e teima em escrever o calendário em nós. Apesar de tentarmos domesticá-lo com festejos, somos marcados, ano após ano, qual código de barras. 
Nesta última noite de 2014 - bem geladinha, como é próprio da época, só uma grande coragem arrancou alguns ao aconchego do lar.
Nos olhares uma intrínseca mistura de sentimentos.
Faltam as máscaras! diziam alguns. É verdade, sentimos que faltaram as máscaras para que as pessoas se pudessem evadir e queimar, sem medo, as agruras e as revoltas. Desde tempos imemoriais , sabemos da necessidade de soltar personagens treatreiras, talvez as mais genuínas.
A ideia é queimar só os maus momentos porque os bons não os deixaremos morrer; não queremos extinguir-lhes a chama.

Teresa Almeida Subtil