O poema só nasce onde quer
Como um pé de fiolho,
é pura emoção selvagem ...

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Malas à porta


"Professor que é professor, em Setembro tem as malas à porta." Há-de correr bem, dizia ela - otimista por natureza. E eu fiquei a pensar que já tive as malas à porta - muitas vezes (e havia muita adrenalina em tudo isso) mas, se isso me acontecesse depois de constituir família... deixava o coração para trás ...levava-o comigo? Pensamento matinal demasiado arrepiante.
Um dia pus uma cruz no distrito do Porto, a título definitivo, mas depressa me trouxeram de volta à origem. Hoje penso que a opção foi acertada. Fez parte de um percurso encantador. E ao Porto vou sempre que posso. A cidade é linda de morrer porque também é minha. Vou cirandando...

Teresa Subtil

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Festival Intercéltico. Convite

Foto de FESTIVAL INTERCELTICO DE SENDIM.

Pino do verão, da música e da proa da língua.
Sangue celta a correr pelos dias, pelas noites e pelas melodias.
É no arrepio da dança que vivemos e fazemos a festa.
E os instrumentos levam as palavras a brilhar e a cirandar.
Corpo e alma. Pois quem não bailou que baile
no requebro do verbo, na alegria do povo que somos,
na voz que geme, na tristeza e no verso que afeiçoa;
no perfume silvestre que sublima. É a cultura que se espraia
no palco e no terreiro. Apesar do grito. 
É o hino à vida que se alcantila.
É sair voando ao intercéltico, festival de estio, festival de proa.


Ye l cherume de l berano, de la música i de la proua de la lhéngua.
Sangre celta a correr puls dies, pulas nuites i pulas cantigas.
Ye ne l'arrepelo de la dança que bibimos i fazemos la fiesta.
I ls anstrumientos lhieban las palabras a relhuzir i a çarandar.
Cuorpo i alma. Pus quien nun beilou que beile
na droba de l berbo, na alegrie de l pobo que somos,
na boç que geme,  na tristeza i ne l berso que mos gusta;
no prefume silbestre que chube. Ye la cultura que se spabila
ne l tablado i ne l terreiro. Anque l bózio.
Ye l'hino a la bida que s' alhebanta.
Ye salir bolando al antercéltico, festibal de l tiempo e de lomiada.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Mãe


Será que ouviste o meu palpitar?

E a minha mão acariciar a tua, 
será que sentiste?
E os últimos beijos
 no teu rosto ausente,
percebeste-os mãe?

Na hora dura e fria, 
deslizei num rio de paz,
firme leito de afetos.
E no teu peito me deitei 
pela última vez.

Os teus olhos, minha mãe, 
haviam partido,
mas os meus adoravam-te na luz que me deixaste.
Luz que, na partida, quis dar-te.
E o sossego da tua mão na minha.
Disse-te tudo, como sempre.

Estou aqui, mãe, como te dizia …  

Acariciei contigo os rostos que te queriam.
E te querem.
Passaste e viverás no amor que semeaste.

Mãe, eu vi as arribas a arder
quando à terra desceste.

Teresa Almeida Subtil

Foto de Carla Subtil Rodrigues.

domingo, 23 de julho de 2017

Poesia rebelde


 (Pintura de Sara Mata) 

Sob teu olhar eu me vestiria de guiupura.
Papoila esvoaçante.
No teu chapéu faria ninho e céu,
e ideias sem rota.
Não gosto de destinos. Sonho teu hino e galhardia.
E sobre teu riso … poesia rebelde.
Luar fogoso, cheiro a savana e cacau puro.

Erguida à tua altura, navego.
Errante. Acrescento som ao teu riso
como se visse o mundo alvorecer,
e nas palavras, moídas, clareiras de liberdade,
e asas floridas num olhar que apenas adivinho.
Transbordante.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 15 de julho de 2017

Apresentação de Rio de Infinitos - Riu d'Anfenitos em Miranda do Douro




Apelidada de filha de Torga por Conceição Lima, a sua  geografia é de amor (Amadeu Ferreira), a poesia seu traje de madrugar,  (Alfredo Cameirão) e a sua cor é a brisa da vida (Domingos Raposo). 





Foto de Anabela Torrao.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Despe-me




Despe-me de dores e incertezas,
vulcões de ternura, trilhos de utopia,
desejos frementes, pássaros multi-cores,
ânsia, fome de viver. Mostra o dia-a-dia
a alvorecer na palavra. O riso e o amor.
Minha página alvoroçada, sons da terra,
fraga esfiapada, urtiga e flor aberta.

Nasce-me de novo, rebelde,
filho segundo de geração espontânea,
teia que me prende e desvenda.
Aquieta-me. E embora cálida 
e finita seja a tarde,
despe-me, hoje, num fio de aurora.

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Hortênsia azul



Esta foi a noite de todos os azuis,
pingas copiosas, labaredas e céus.
Arrasto de cinzas. Beijos à janela.

E esta mistura prazer-dor.
não é insanidade, é arrepio inevitável,
afago e fome.

Dizem as hortênsias
do tempo a suavidade, do verso o perfume,
da casa a graça, o olhar e a luz.
Do muro a liberdade.

E do desejo de águas novas
que perpassa por elas e por nós,
há, ainda, beijos que se apagam
e janelas que ardem.


Teresa Almeida Subtil

terça-feira, 13 de junho de 2017

Despudor


Toco-te, delicada, quase com ternura.
Olho a elegância arroxeada e os matizes agradam-me.
Toco uma e outra vez … avanço e …
continuo a cobiçar-te …
É à toa que te folheio, e irrompo desastrada.
O último verso é mesmo o primeiro.
E percorro o poema sorvendo cada detalhe
que te é pele, que te é cheiro, despudor …
oblíqua miragem.
E se me quiser afogar de claridade,
preciso de me tornar íntima aragem
e ser do prado o teu olhar.

Teresa Almeida Subtil


                             
Terras da lombada - Quintanilha.
       

quarta-feira, 7 de junho de 2017



                                                                       " ...  Por isso, deixemo-nos levar por este “Rio de Infinitos”, escrito com cintilante claridade, onde a autora, norteada pelo maior dos ideais, permite que nos enriqueçamos e deleitemos com as suas magníficas criações, deixando-nos a esperança num amanhecer resplandecente, puro, expurgado de males e livre para pensar, sonhar, agir, repleto de Amor. Amor que conseguiu pintar com a sua cor preferida: a brisa da vida. "

Domingos Raposo
03.06-2017

sexta-feira, 26 de maio de 2017

1ª Apresentação de RIO DE INFINITOS / RIU D'ANFENITOS


Ventos poéticos sopram a nordeste.
Agrestes aromas, melodias de sempre ...

E é quando a flor do dia mais se abre
que, a pique, o verso se levanta 
e a giesta arde.

Da ave o abraço e a dança.
Pura rebeldia.
Do rio o espanto, a mágoa e o desejo.

E um lastro de amizade
sabe a cerejas maduras de fim de tarde.

-------------- 

Aires poéticos assopran a nordeste.
Ásparos cheiros, modas de siempre …

I ye quando la flor de l die mais se abre
que, a pique, l berso se lhebanta 
i la scoba arde.

De l'abe l'abraço i la dança.
Pura rebeldie.
De l riu l spanto la mauga i l deseio.


I un campo d'amisade
sabe a cereijas maduras de fin de tarde.





Seria um enorme prazer abraçar os meus amigos nesta tarde poética (03/06/2017).
Estarei presente na apresentação do meu livro "RIO DE INFINITOS / RIU D'ANFENITOS" e ainda
na apresentação da "ANTOLOGIA DE AUTORES TRANSMONNTANOS DE HOJE", da qual sou coautora.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O MAIS ALTO CANTAR

Todo o tempo está mudado

a montanha grávida de fontes
e ávida de andorinhas
sente o viço da mocidade

o vale exala um aroma subtil
e convoca o fogo do primeiro amor

a vinha desfolha-se
para se vestir de claridade e afinar a melodia
onde desagua a naturalidade da sede.

todo o tempo está mudado

quero ser harpa em cada gavinha de bem-querer,
semente de união e de vida,
e,no peito do meu amado, deusa quero ser.

todo o tempo está mudado

- trazei cestas, comei e bebei: é a festa dos sentidos!
a alegria é bago cheio, litania que embriaga.
é a festa preparada em cada trovoada,
em cada penada de frio, em cada roçar de ave ferida

a palavra é, agora, mel e sussurro da fonte
o verso é toque e perfume
e o amor será sempre o mais alto cantar

Teresa Almeida Subtil

Foto de Lucia Torricella.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A espera é já festa.





A semente germinou. Beijo cada dia 
que meu riso acrescenta. 
Beijo o ninho que te aconchega e espero.
Que a espera é já festa, revolução.
Quero-te Abril, criança a palpitar e a florir.
Virás quando quiseres. Semearam, um dia, 
margaridas no meu peito e, agora, 
que o tempo é de cravos, 
semeio alvoradas para te receber.
E sonho Abril a merecer um país.
E esta espera é já festa, liberdade e ânsia.

Teresa Almeida Subtil
25.04.2017



sábado, 15 de abril de 2017

Murmúrio de saudade



A ressurreição é, em mim, um fio de água
a correr, em jeito de fonte, à beira de casa.
Janelas floridas, cântaros de asa, 
colchas de renda, linho e damasco. 
E rostos amigos.
Postigos escancarados, antigos.

De pétalas são os tapetes da minha rua 
e as cores são da minha aldeia.
É tudo tão verdade!
E este murmúrio de fonte a cantar é uma oração
de saudade. Saudade que traz de volta o olhar 
daqueles que um dia
por ali caminharam e amaram.

Do tempo sabemos apenas que é breve
e a vida uma procissão, 
um compasso na eternidade.


Sonido de soudade

La ressurreiçon ye, an mi, un filo d'auga
a correr, an modo de fuonte, acerquita de casa.

Jinelas floridas, cántaros d'ala, 

colchas de renda, lhino i damasco.
I rostros amigos.
Postigos scancarados, antigos.
De pítulas son ls tapetes de la mie rue
i las quelores son de la mie aldé.
Ye todo tan berdade!
I este sonido de fuonte a cantar ye ua ouraçon
de soudade. Soudade que trai a la mimória l mirar
daqueihes q'un die
por eilhi caminórun i amórun.De l tiempo que tenemos
solo sabemos que ye mui debrebe
i la bida ua percisson,
un cumpasso na eiternidade.

Teresa Almeida Subtil

domingo, 9 de abril de 2017

A dança da vida


Não queiras saber que tom é aquele que me arrepia,
nem em que caminho a natureza desfalece,
sente apenas que a vida são dois dias 
a a meio situo este cântico que me eriça a pele
e me entontece. Sente apenas este abraço,
e ouve Abril a madrugar. Falta pouco.
E se de enganos, meu amor, se criva a vida,
e eu me prender numa canção deslaçada,
nunca será mentira a sonata que me envias ao luar.
E me floresce nos dedos. E me desassossega.
Acertemos! É nossa a hora,o passo e a dança.

Teresa Subtil
30.=3:2017

sábado, 1 de abril de 2017

Chamam-lhe Ribeirica.



Por ali se saboreavam as iguarias da terra. Lembro-me, particularmente, dos ovos verdes da avó Angelina e dos peixinhos da ribeira do avô António (recheados de carinho) a saírem das cestas de vime. Pressinto que, agora, nos fazemos ao caminho e voltamos às nesgas de praia do rio Maçãs para revivermos o cálido sabor das antigas tardes de romarias e encontros de família.

E tu andas por ali, recolhido, morto de saudades, nos sítios onde o rio se faz criança e brinca, mostra o leito e salta as pedras redondas e macias.
Chamam-lhe Ribeirica, deram-lhe nome de mulher. Mais acima, o Colado.
E no teu olhar, perturbado, ainda mergulho. Nos teus silêncios, profundos, ainda transpareço. E salto contigo.
Só quem te ama entende: não pode ser um rio qualquer aquele que te viu crescer.


No quintal há, agora, uma pedra (raiana) que o rio amou, junto ao freixo de geração espontânea. Quando a Primavera a abraça, é ali que saboreio o café matinal, como se fosse o lugar mais alto do mundo. E então, na intimidade do silêncio, nasce um murmúrio de ribeirica a saltitar. Chego a sentir os pés molhados.


Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 20 de março de 2017

Poesia de baloiço

COMEMORAÇÕES DO DIA MUNDIAL DA ÁRVORE
E DIA MUNDIAL DA POESIA




A melodia da passarada é sempre nova.
Já havia uma brancura a brilhar junto à árvore,
parecia espreitar as brincadeiras.
Era o primeiro malmequer!
Vi-o e amei-o ao saltar
e não me saiu do pensamento.

Desenhei-o num papel e escrevi-lhe segredos.
Pintei-o às escondidas, entre as corridas
que não queria perder. Levei-o para casa.
Minha avó espreitou, gostou e perguntou:
é para mim, meu amor? E assim, esta flor,
tão singela e bravia, tinha as cores do dia
e por dentro a beleza do sol e do amor.

De repente tive outra ideia:
e se eu pintasse outro malmequer para o meu avô?
E para os meus amigos?’ Ah! meus queridos,
naquela folha branca e limpa parecia
rebentar a verdadeira Primavera. Festiva.
O sol acertou-lhe em cheio e o tom do meio
mostra agora o riso dos meninos no recreio.

E eu a correr como se voasse e criança fosse.
Sou avó. Já fui menina, professora,
mas apetece-me saltar e dançar como antes.
E ser primavera em cada gargalhada.
E flor de amendoeira branca e rosada
que a pomba trouxe no bico para entrar na roda.

Este esplendor que a natureza tece. Ah! como me apetece!
E sinto-me coroada de pétalas, cabelos soltos e perfumados.
Que o vento é apenas brisa, melodia e encantamento.
Todos os sentidos são ritmo no corpo de uma criança.
Que seria de tanta beleza sem os sons da natureza?
Onde guardaremos o silêncio? E a alegria? E a dança?

Vamos plantar árvores, aquelas que enfeitam o Natal
e se enchem de bolas vermelhas no rigor do Inverno,
e nogueiras para termos nozes ao serão, à lareira.
E durante todo o ano serão abrigo e encanto da pardalada.

E os patos lá no lago a deslizarem sem mácula,
como se o mundo lhes pertencesse. E pertence.
Será que espreitam as águas profundas,
a calmaria e o mundo de cada ser que as habita?
Diria que a felicidade é esta primavera a acontecer,
hoje e aqui, se a soubermos sentir.

E eu não sou eu
se não for onda roubada ao mar alto a desfalecer
e a beijar cada nesga de praia à beira-rio plantada.
E se não for voo de ave que o rio quer beber.

A poesia é vida, é tudo e nada, é o olhar que alcanças,
o sonho em que baloiças e os laços em que te soltas.
E ao entardecer pinta de novo, que a primavera continua
em todo o lado. Levanta o olhar e faz de conta,
sente a festa no céu, morna e avermelhada,
como se o dia fosse arder em beijos de despedida.
E a lua, feiticeira, começa a desenhar-se
e fica à tua beira como se te embalasse.



Teresa Almeida Subtil
20.03.2017

Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro

domingo, 12 de março de 2017

Flor d´alva

11.03.2017 Município de Miranda Douro

                                
Deixem-nos em paz! disseste-me um dia.
Hoje não quero ver-te.
Fiquei sem retorno,
vestida de noite dentro do dia.
Perdida na dor que nos destroçava,
deixei-me morrer ali mesmo,
naquela passada.

Visto-me hoje de flor d´alva,
saída assim, despida, do corpo de minha mãe,
despida ela também, de confusões e artifícios,
vestida apenas de amor profundo.
Mulher foi meu destino e a poesia tempero,
meu mundo, sempre de partida.

É tempo de camélias no pino do Inverno,
de ar frio, arrepio de força e cor.
poema, vigor na luta
até que não faça sentido
falar de igualdade de género.

A rajada pode destruir
ou fazer eclodir a força de natureza-mulher,
a que se deslumbra e não se deixa vencer
a que semeia alertas para que o vento
não derrube árvores feridas.
E cada pétala abrirá e murchará a seu tempo
e cada saraivada será alento para nova caminhada.

Visto-me hoje de flor d´alva.
E de fogo. E de amor. Sempre.
Em ti, mulher, raia a alvorada.

Teresa Almeida Subtil

Ao violino Luis Velho


sábado, 4 de março de 2017

Minha fantasia


De flor matutina a rosa bravia,
de feixe à cabeça em qualquer esquina.
Terna fantasia. És ainda raio, recorte de lua,
perfume jasmim, trança de menina.
És verso do pomar com sabor a lima.
Janela indiscreta, incêndio do olhar.
E minha pele é tua sina.
E do horizonte a única linha é abraço inteiro,
canto marinheiro no fio do dia.
A palavra é tua e de quem te ama.
E se encanto houvera em hora tardia,
da terra sairia poesia em chama.
Teresa Subtil

Miu delareio

De frol d´alba a rosa brabie,
de feixe a la cabeça an qualquiera squinica.
Ameroso delareio. Sós inda centeilha, cachico de lhuna,
prefume jasmin, trança de nina.
Sós berso de l maçanal cun gusto a lhima.
Jinela andiscreta, lhume de l mirar
La mie piel ye la tue sina.
I de l'hourizonte ua só lhinha ye abraço anteiro,
 canto marineiro ne l filo de l die.
La palabra ye tue i de quien te ama.
I se ancanto houbira an hora tardie,
de la tierra salirie, poesie an chama.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Manhã ribeirinha 

Quero o vento que te passeia. Só meu.
E o aroma que nos enlaça. O espaço e o tempo.
E a pele do dia amaciada na clareira que a chuva abriu.

Quero-te assim. Desassossego na manhã ribeirinha,
pensamento e ardor do sussurro que se avizinha.
E o beijo meu íntimo labirinto.

Pianinho quero o som que desfolha os sentidos
e a árvore cativa
que sombreia o detalhe e a intensidade.

E a manhã é apenas esta nota, este breve sentimento,
que acende a melodia e o borbulhar da sede.

Teresa Almeida Subtil



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

L mais guapo cantar


Pinta-me hoije culs uolhos que tenies,
çliza l sol nas bordas de l miu cuorpo,
dá-me l gusto de la tua boca na mie,
guarda la quelor na poçanquita de l miu rostro
i canta-me baixico l mais guapo cantar.

Pinta-me hoije de poesie zlida,
fai-me hourizonte, lhinha perdida,
i na binha que plantemos al pie de l mar
derrama tou prazer, ben cumo benies,
ne l tiempo de soletrar la palabra florida,
fuolha branca i lhisa, chelubrina de l maçanal.

Pinta-me hoije i fai-me diusa,
solo cielo, solo airico. Amor miu.
Ben pintar quelores que l'ourora deixou
an l'ourbalheira de ls tous beisos ne ls mius.

Pinta-me hoije cumo Ban Gogh pintou 
l'azul que nun smoreciu.



O mais belo cantar

Pinta-me hoje com os olhos que tinhas,
desliza o sol nos contornos do meu corpo,
dá-me o gosto da tua boca na minha,
acentua o tom na cova do meu rosto
e sussurra-me o mais belo cantar.

Pinta-me hoje de poesia delida,
faz-me horizonte, linha perdida,
e na vinha que plantámos ao pé do mar,
esbanja teu gozo, vem como vinhas,
no tempo de soletrar a palavra florida,
folha branca e lisa, cotovia do pomar

Pinta-me hoje e faz-me deusa,
apenas céu, apenas brisa. Amor meu.
Vem pintar nuances que a aurora deixou
no orvalho dos teus beijos nos meus.

Pinta-me hoje como Van Gogh pintou
o azul que não esmoreceu.

Teresa Almeida Subtil


domingo, 5 de fevereiro de 2017

https://www.youtube.com/results?search_query=chuva+de+jorge+fernando



Passas de saudade

Cheguei derrotada, passa em pão enrugada,
vim, fora de horas, mas de propósito para te dizer
que a chuva me bate no peito clássica e bravia
melodia tardia que a saudade permite acontecer.

É sempre aguda e fria a fresta que o livro
abre de memória e a nossa história é de cumplicidade.
A ausência é trovão que vem de longe e se derrete.
No pão a passa acrescenta o calor da amizade
e a manteiga que sabor! Essa nunca vem tarde.

A chuva lava-me o rosto, e o café que aroma!
deixo a torneira correr, chávena cheia, e o mel é a tua palavra
sussurrada na minha, gosto e carícia que apetece.

As passas são baladas de amigo na minha boca,
a mente enleia o tempo e o vento sopra molhado.
Vou pelo monte como a Jane Eyre da minha adolescência,
sem óculos, cabelos esvoaçantes a chispar clarões.
com ela perdi o medo e a trovoada é som que me passeia.

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

De passagem

Se o caminho é traço
à altura da emoção,
ressurge, inesperadamente,
e qualquer passo
pode ser emergente humildade do olhar.
Só aí é que lhe medimos a intensidade
e percebemos a incisão grave num desenho
por acabar. E a humidade
é sentimento que assalta a viagem
e vai escrevendo percursos de imaginação.
Estamos de passagem
e nem sempre temos coragem
nem arte para pintar a festa
onde baila o coração.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O riso da tarde



Amo livre o pensamento 
em cada ciclo de ave,
em cada asa perdida,
em cada voo que não cabe
num trilho que me é escasso,
enquanto infinito brilha.

É por estes encantos que o rio serpenteia
e deixa perene o rasto e a partida.

E eu beijo a pedra que assim me fala
e a pele que renasce nas mãos do tempo.

Beijo a palavra que assim te diz,
beijo a geada, o sol, o vento

e o riso da tarde que hoje me quis.    

La risa de la tarde

Amo lhibre l pensar 
an cada tiempo d'abe,
an cada ala perdida,
an cada bolo que nun cabe
nun camino que me ye scasso,
anquanto anfenito relhuç.

Ye por estes ancantos que l riu quelubreia
i deixa frime l rastro i la partida

I you beiso la piedra q'assi me fala
i la piel que renace nas manos de l tiempo.

Beiso la palabra q'assi te diç,
beiso la gelada, l sol i l aire

i la risa de la tarde q'hoije me quijo.     
   

Teresa Almeida Subtil