quinta-feira, 9 de novembro de 2017

L sonido de la senara / Melodia da seara


Nota de redação: A Seara Nova publica, nesta edição, um poema escrito em língua mirandesa, traduzido para português pela autora. Num contexto de cada vez mais intensa massificação cultural, pretende-se assinalar o mérito do estudo e da prática da língua e cultura mirandesas, como instrumento de resistência a esteriótipos culturais e factor de emancipação e desenvolvimento do interior do país.


 L sonido de la senara


De l berano la selombra, la boubice, la seduçon.
Tiempo moço i manos paridas de palabras ambergonhadas.
Manos q'ampálpan las cinzas i l bentre de la casa.
I la binha zértica a reclamar ls mostos i l rebolhiço.

Bazies, las tulhas son arcas de decoraçon.
L carino geme ne l sobrado i mius passos
Son campanas que dróban ne ls abraços sien tornar.
Perros i ls gatos (i las abes de la nuite) son bistas
I l´airico, ambencible, cubre la soudade que bózia.

De l rescaldo guardo l'oulor, l carino
I la colheita. L sonido de la senara. I la rebuolta.
I ne l'afago de la poesie partelhada cumo sustento
çcubro agora l carreiron de caminos outros.
Las eiras seran siempre adonde (i cumo) quejires.

Melodia da seara

Do estio a sombra, o desvario, a sedução.
Tempo moço e mãos paridas de palavras a recato.
Mãos que apalpam as cinzas e o ventre da casa.
E a vinha desértica a reclamar os mostos e o reboliço.

Vazias, as tulhas são arcas de decoração.
O carinho geme no sobrado e meus passos
São sinos que dobram nos abraços sem regresso.
Cães e os gatos (e as aves noturnas) são paisagem.
E a brisa, indomável, fecunda a saudade que grita.

Do rescaldo guardo o cheiro, o afago
E a colheita. A melodia da seara. E a revolta.
E no afago da poesia partilhada como alimento.
Desvendo agora o trilho de caminhos outros.
A eira será sempre onde (e como) quiseres.

Maria Teresa Almeida

3 comentários:

  1. Meu Deus, Maria Tereza,
    Tua incisão é precisa!
    Vai ao cerne da divisa
    Entre a festa e a tristeza.

    A vinha em fogueira acesa
    Foi queimada e a alma pisa
    Sobre a cinza que concisa
    Mostra extensão da pobreza.

    Do rescaldo, nem o cheiro
    Pois existe, e o derradeiro
    Legado é a desilusão.

    Resta apenas poesia
    Para encher a alma vazia
    Dando alento ao coração.

    Parabéns pelo teu poema! Lindo! lindo! lindo... Parabéns! Grande abraço, amiga! Laerte.

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  2. Quanto talento, minha amiga.
    A leitura em mirandês é deliciosa (os meus antepassados devem ter falado assim...).
    Parabéns pela publicação em tão notável revista.
    Bom fim de semana, amiga Teresa.
    Beijo.

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  3. Teresa,

    é muito gratificante para mim, ler um poema teu, em língua mirandesa, publicado na revista Seara Nova, porquanto:

    . é um belo poema, de que muito gosto
    . o mirandês não me foi meu berço, mas andou muito perto
    . trata-se de um sinal de reconhecimento e de estímulo por parte da (quase secular) revista Seara Nova a todos quantos se dedicam ao estudo e divulgação da língua e cultura mirandesas, em si mesmos "instrumentos de resistência a estereótipos culturais e factor de emancipação e desenvolvimento do interior do País".

    tendo em vista esses objectivos não faltará certamente oportunidade para novas colaborações, que pessoalmente vivamente desejo que se concretizem em beve.

    beijo, muito grato

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O comboio nunca partiu