terça-feira, 26 de abril de 2011

Sonhos de Abril

Perguntas-me onde estava eu nesse dia :)
Perto do Quartel General, no centro do Porto
À época eu morava por ali
Dirigi-me à escola, no caminho do aeroporto
Ao longo da estrada
Metralhadoras apontavam na minha direcção
Soldados entre as plantas, rentes ao chão

E eu de política não percebia nada
Havia um mal-estar generalizado
As palavras eram punhais
Sabia que devia estar calada
Uns malfeitores
Assaltaram o barco Santa Maria
Abortou a revolta das Caldas
Eram escassos os indicadores
Ah, era pelas canções que a informação me chegava
Mesmo às escuras a revolta germinava

Salgueiro Maia, em frente a um blindado…
Emociono-me
Enfrentou o fogo, perfilado
Chama-se coragem e liberdade
Transformou cada português num cravo vermelho
Os tais cravos com que Zeca Afonso
Andava a semear os caminhos
Os cravos ainda não murcharam no peito
Vão sendo regados pelos sonhos de Abril

Teresa Almeida 25.04.11

sábado, 23 de abril de 2011

O riso da minha mãe

O riso da minha mãe

Ouço repicar aleluias
Nos sinos da minha aldeia
Ressuscitam esperanças
De adormecidas paixões
Cheira a Páscoa mãe!
 Folares dourados
Canela, laranja, aguardente
Cordeiro de pasto de arribas
Ruas e casas engalanadas
Mas o que mais brilho tem

É o teu riso mãe!


Teresa Almeida 22.04.11
 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Sedução


Se me ensinasses
A nascente das palavras
Retirava os pedregulhos
Que atrapalham as ideias
Confundem a melodia
O sentimento, o ritmo
E a alma da poesia

Se me ensinasses
A nascente das palavras
Deixava-as deslizar
Transparentes, cristalinas
E até saberia falar
Da imensa ternura
Que esbanja o teu olhar

O meu poema nasceria
Ao raiar da alvorada
Para apanhar toda a energia
Dum radioso amanhecer
E até coragem teria
Para o levar ao sarau
De gritos verticais

E, assim, entre os demais,
Mesmo descalça e mal vestida
Acredito que te seduziria

Teresa Almeida 23.03.11

terça-feira, 22 de março de 2011

O teu poema

Candedo- Freixo E. à Cinta

Andei à procura de palavras
Para estar à tua altura
Queria dar-lhes calor, melodia
A intensa alegria
Que nas tuas encontrei
A subtileza do poema
Que de cor eu sei
E me percorre ainda

Vou levar a vida inteira
Para encontrar a maneira
De te proporcionar
A mesma alegria
E juntar em cada dia
Uma palavra de mim nascida
Um toque de poesia por ti querida
Por ti provocada

O que tenho para te oferecer
Parece que não é nada
Como um vinho que em espírito se apura
Em cepa de ternura
Assim, à minha maneira
Este poema
Vale a vida inteira

Teresa Almeida 20.03. 2011


quarta-feira, 16 de março de 2011

O teu corpo é uma estrela, dizes tu

Adivinho-te
Mar calmo que se espreguiça
Em dolente ansiedade
No cansaço de tanto esperar
Vais escrevendo poemas na areia
Em noites de lua cheia

Quase desmaias
Quando me vês chegar
Gosto daquele marulhar
Do teu meigo cantar
No silêncio erótico
Do teu amanhecer
No meu corpo de mulher

Cedo te levantas eriçado
Em ondas quentes me enrolas
Gosto dos teus beijos molhados
Que afloram e exploram
Meu corpo exaltado

Gosto de no amor ressurgir
E contigo fluir
Ganharmos asas de infinito
Em uníssono grito

O teu corpo é uma estrela, dizes tu
Gosto de te sentir espraiar
Escrevendo poemas empolgados
Em meu corpo nu

Teresa Almeida 09.03.11

Galafura

Fui olhar
o poema geológico de Miguel Torga
do alto de Galafura
"Uma beleza de excessos"
que lhe aguçou o engenho
Portugal em filigrana
D´ouro desenhado
Em abraços doridos
embriagado
Socalcos de vinhedos ondulados
O rio sereno em oração
O coração palpitante
em paisagem deslumbrante
Em lagos parece serpentear
e relaxar
do alto de Galafura
É quase em segredo
que ali corre para o mar
Perturbação e espanto poético
Fumarolas de bagaço a destilar
Olhamos como oramos
O silêncio contemplativo
de quem quer sentir
da natureza o respirar
um trinado suave
que por ali passasse

Depois de Miguel Torga
todos deveriam calar-se
mas o fascínio é tão intenso
que me apetece falar
para de espanto e beleza
continuar a desfrutar

Teresa Almeida 27.02. 11

segunda-feira, 14 de março de 2011

Desfiladeiros de amor

La Yecla - Sto Domingo de Silos
Sem aviso
Entrei e fiquei na Igreja
Os monges entoavam a oração da tarde
Silos coberta de neve
Voltei
A mesma elevação, elegância e suavidade
Desejei
Comungar aquela paz paradisíaca

"Buenos dias tesoros"
Belo cumprimento de aniversário!

Em La Yecla
O dia amanheceu radioso
Serpenteei entre montanhas
Que se querem tocar
O canto gregoriano teimava em me acompanhar
Neve ou sol
Este desfiladeiro é arrepiante de beleza

Pela tarde festiva em Aranda de Duero
Cantei e dancei bailes repasseados
Ao som de outra música
Vinda do fundo dos tempos
Gaita de foles, realejo, tambores, flautas e castanholas
Os paus marcavam o ritmo
De antigas danças guerreiras
O mirandês ali vivido
Pleno de vivacidade e alegria

Música sacra, música popular
Desfiladeiros de amor
Voltámos os dois

Cheguei a tempo de abraçar os meus tesouros
Extraordinário! A minha mãe estava a pé!


Voz de Outono