quinta-feira, 1 de março de 2012

ABRIGO DOS POETAS


Aberto à musicalidade das palavras
Velharias com sons de noite e brilho de estrelas
Partituras finas inspiradas em luares
Versos sussurrados na suavidade de sedas
No salão, o velho piano de teclas gastas 

Casarão abandonado ao sonho
Abrigo de poetas sem telhas nem fechaduras
Janelas escancaradas num vão de infinitos
Perfumes de maresia soltos na colina
Gaivotas estremecidas em abafados gritos

Saudades  pousam nas gelosias magoadas
E no  cheiro a madressilva preso às paredes
O tempo dança uma intemporal valsa
Numa repercussão de mar e céu
Esventrado num piano de cauda

Teresa Almeida


domingo, 12 de fevereiro de 2012

É cedo

e a alvura do sonho
ainda mal se enxerga…

O vale estreito abre-se como boca faminta
entre a mágoa e o deleite
sequiosa de infinito horizonte.

Acorda verde a poesia
em vereda de manhã orvalhada
qual nuvem que o sonho acaricia.

São molhados os beijos 
em picos negros pendurados.

Esbarra-se a esperança
na angústia de um céu espartilhado.

Teresa Almeida

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PINCELADAS POÉTICAS - OUSADIA



Cumpre-se hoje o quadragésimo sétimo dia da abertura da tua primeira exposição de pintura – “PINCELADAS POÉTICAS”- e, simultaneamente, da apresentação pública da tua, também primeira, obra poética: “OUSADIA”.
Por este espaço da Casa da Cultura Mirandesa passaram amigos teus, gente habitualmente frequentadora deste tipo de eventos ou, então, simplesmente curiosos.
Da observação e leitura dos trabalhos expostos, estou persuadido de terem levado consigo algo mais para acrescentarem ao acervo do seu pecúlio cultural.
Nos traços, nas formas, nas cores, nas expressões, nas tonalidades da tua obra pictórica, tiveram o ensejo de apreciar a genuinidade e a força do teu talento.
Nos textos poéticos com que nos brindaste, estavam, não apenas  a evocação das tuas memórias, aquelas que calam fundo, no mais fundo das pessoas, como que a desafiarem o tempo, mas também a tua sensibilidade, os teus afectos, os teus anelos, o teu estado de alma.
Poesia e pintura são, em ti, um casamento feliz, o húmus que dá sustento e vida a um jeito teu muito peculiar de ser e de estar em coexistência com a tua envolvência, e que se fundem como que num caldo recheado de emoções.
A exposição pública dos teus trabalhos chegou, hoje, ao fim.
É com sentida emoção e orgulho que ao “cair do pano”, lavro este termo de encerramento e presto honra ao teu mérito e à tua dimensão criadora.
Também no meu modo e jeito de ser, quero dizer-te, sem a eloquência que às circunstâncias seria devida, que me sinto gratificado por ter partilhado contigo, talvez com discrição a mais e participação a menos, tudo aquilo que, neste trajecto de vida, em comum realizámos.
Trajecto de vida iniciado num tempo que começa a ficar-nos distante, que nos criou já estas rugas, que são história dum viver irrepetível.
Dum viver comummente compartido e que nos faz, a ambos, viver na memória um do outro.
Com amor, admiração e estima.
Miranda do Douro, 31 de Janeiro de 2012
O teu marido,
Fernando Subtil

PINCELADAS POÉTICAS de Teresa Almeida

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O OUTONO CANTA NAS ARRIBAS



Gosto de voar mundo, mas é aqui
que o Outono veste a minha alma de carmim.
É aqui que o rio e as aves
 escrevem a divinal harmonia
que a natureza desfolha dia a dia.

Gosto do Outono que canta nas arribas
e leva ao rubro até os arbustos mais rasteiros.
Num olhar de ave  fico a planar extasiada
sobre um vale que, como a vida
ora se espraia, ora se esconde e serpenteia.

Na sensualidade perfumada do vento
gosto da dança de ave feiticeira
sobre um leito esverdeado de emoções.
Gosto dum rio que se espelha de encantos
e dos versos que escalam íngremes  ladeiras.

Teresa Almeida 02-02-2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

UMA LÁGRIMA NO OLHAR

Ceifaram dos teus versos o riso
e o alvoroço de searas maduras ondulantes.
No teu poema corre uma lágrima e no sorriso um esgar de tristeza.
O teu olhar não se engana. Dói  num amor, quase sem saída.
Caminhos incertos, sentimentos confusos, perdida,
como quem viaja na sombra
 à procura de um apetecível cheirinho a café
perfumado com a nata do afeto.
Mas não esperas na paragem. Porque não ceifaram o mar de poesia
que derramas em lágrimas no teu planalto,
como gaivota que voa ferida e cruza o céu a agarrar a vida.

Teresa Almeida

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A NEVE PARA LÁ DA CORTINA

Para lá da cortina, para lá da vidraça
outras cortinas quase escondem a paisagem
e caem leve, docemente

Apesar da amargura que deixa adivinhar
não posso deixar de me deslumbrar
com a beleza dos fiapos de neve
que descortino para lá da vidraça

Sei que quando ela se levantar
arrastando 91 anos de beleza e graça
vai gostar de ver a neve para lá da cortina
e na lareira o fogo a crepitar

E o sorriso que adoro ver
num rosto de minha mãe
no meu eu vou ter

Ágil, bonita e leve levantava-se de manhã
a aquecer o leite, a fazer o lume e as torradas
porque as netas tinham que ir bem alimentadas
E sempre a resmungar lá iam despachando o pequeno almoço
Levantar-me primeiro que ela, foi o maior sinal
o sinal de que a vida a venceu

Quem acordava o meu sorriso era ela, a minha mãe

E agora olho através da vidraça
e parece que a neve foi um sonho derretido
 no ninho do passarinho
abandonado no outono da figueira
Gostei tanto de o ver de flocos brancos enfeitado
junto ao quarto, para lá da vidraça
ELe que em tempo alto também madrugava
e em canto afinado abria ao raiar da manhã
a alegria que contagiava

Dou por mim a pensar nas mudanças da vida

Ela chegou agora mesmo
o sorriso e o riso abertos, oferecidos
tinha visto a neve e, com a chama de tempos idos, disse:
Ah! Estes rachos, tão fortes, não foste tu que os trouxeste!

 Teresa Almeida 16.01.2011


Oitavo dia