terça-feira, 18 de junho de 2013

Deixa-me ficar


 Senti fremente o teu apelo
leve rodopio em meu ser
furtiva promessa divina

eu quero deste jeito sagrado
eu quero o teu querer

Deixa-me subir embriagada
ao meteórico instante
ao alto da palavra

Deixa-me lá ficar
suspensa no teu toque preferido
em sintonia melódica
contigo

Teresa Almeida


 

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Tudo é voz e caminho


 

                                                 Foto de Manuel Pires
 

É para lá dos montes que se ergue um comando destemido 

a exorcizar o medo 

um traço rápido e ajustado de pedra afiada

ninguém tem a última palavra.

Na incerteza buscam-se os astros 

na rudeza do percurso, na avalanche da desgraça

tudo é voz e caminho.

É na convulsão que entra o movimento.

Renascidos no espanto e na esperança 

irrompe a energia, a evolução 

apoteose de vida. 

Firmeza na ação, elegância no gesto.
 
 
Teresa Almeida
(in "Antologia da moderna poética Portuguesa)

 

 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

À flor da pele



Sentir-te a pele é a sensação mais intensa
não sei de palavras que toquem este fogo
um toque ao de leve em jeito de conversa
e um arrepio a percorrer o corpo todo

talvez o olhar se quisesse já cruzado
num diálogo quase incerto, impossível
sonho breve num desejo acordado
poema louco, verso intenso e irreprimível

sem disfarces num abraço abandonado
seguiram os lábios o apelo mudo e cego
e as mãos uma viagem desconhecida

O peito levantou-se firme e eriçado
amando a noite e o desassossego
e esta febre entre estrelas renascida

Teresa Almeida

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Da minha janela



Abro a melodia da manhã que me floresce à janela
pensamentos escusos anulam-se nos cortinados da noite
deixo-me seduzir em promessas de cerejas carnudas e suculentas
com sabor a beijos teus

lá ao fundo, no remanso do rio, ecoam românticos fluidos musicais
Vivaldi toca eternidades de prazer em fogosidades primaveris
escapam-se algumas notas de rodapé

nem quero acreditar
em geadas tardias e em ventos desbragados
a bailar na cambraia fina da minha cerejeira
de um só golpe poderão desafinar a sinfonia
do festival dos sentidos

abraços pendurados e notas soltas de uma sonata de verão
começam a assomar-se na minha janela

Teresa Almeida

terça-feira, 23 de abril de 2013

Terra Mítica



 Hoje, passeei-te na fantasia das cores de Abril
brinquei o olhar no rio despido de traições
espelhado na candura de renovadas promessas
...
porque te recusas a adormecer na nossa desilusão
porque nos queres dizer que é de dentro
que o renovo traz a energia, porque te apaixonas em cada dia
e não desistes de te vestires de Primavera em folhos e folhos de alegria
e em bordados de alvíssaras que pontuam caminhos de obstrução

desejei-te magnífica ao alvorecer de um tempo acordado
abracei a ousadia de um arco íris mergulhado em devoção
porque a batida de Abril cumpre-se em ti
uma linguagem telúrica a repercutir -se em nós
e eu sigo pelos caminhos do planalto e venero-te emocionada.


Tierra Mítica

 

Hoije passeei-te an la fantesie de las quelores de Abril
joguei l mirar ne l riu znudo de traiçones
spelhado na candura de renobadas pormessas

 porque nun te quieres drumir na nuossa zeiluson

porque mos quieres dezir que ye de drento

 que l renuobo trai l'einergie, porque t'amboubas a cada die
 i nun zistes de te bestires de Primabera an remissacos d'alegrie
 i an bordados de perpinhas que zéinhan caminos atalacados

 

 deseei-te guapíssema al amanhecer dun tiempo spertado
 abracei l'ousadie de la cinta de la bielha margulhada an deboçon

 porque la batida de Abril cumpre-se an ti

 ua lhenguaige telúrica a retumbar an nós
 i you sigo puls caminos de l Praino i benero-te eimocionada


Teresa Almeida

quinta-feira, 18 de abril de 2013

VÉNUS MUTILADA


Só podes ser o delírio de um poeta
que em noite de inspiração
deusa te sonhou
e nas asas verdes da tentação
duramente esculpiu


Fez -se ao largo num instante iluminado       
e surpreendido em teias de sedução
por artes divinas cativado
harmoniosamente te cinzelou

 
Um sonho moldado em pedra Donai
um olhar fechado, átomo virtual
Em toques de bisel te mediu o encanto
sentindo o pranto estático e real

 
Perseguiu-te inteira, na plenitude vital
em sopros de carinho te aclarou
centelhas meteoríticas de esperança
na tua pele abriu

 
Só podes ser um sonho fidedigno do artista
que em ti a poesia primordial
duramente esculpiu

 
Mas no sonho está insatisfeito o tempo
e a poesia, qual Vénus mutilada
explode eternamente sofrida
inacabada

Teresa Almeida
(Escultura de António Afonso)

 

A LA FALA CUL MIRANDÉS