sábado, 7 de setembro de 2013

Deixo-me ficar

Deixo-me ficar
pendurada em doce madrugar
nascido de um romance excessivo
entre o sol e o rio - em noite de luar
debruço-me em picos de luz
esqueço a loucura a dilacerar o tempo
deixo-me ficar
bebo a paz e a magia do momento
sacrário de eterno contentamento.


Teresa Almeida

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Chichen Itzá - México


Em Chichen Itzá mergulhamos num jogo de sol e sombra, obra de sabedoria humana que parece transpor-nos a um patamar divino. Em locais com esta magnitude apetece-nos estabelecer um jogo com a vida, libertarmo-nos  dos escombros e subir ao cume da espiritualidade. 
Serpenteavam entre nós jovens iguanas que, em manobras circenses faziam piruetas, subiam as paredes e ficavam na brasa do calor da tarde a observar-nos lá de cima - do alto das pirâmides maias. Esbugalhámos os olhos de espanto e com elas partilhámos espaços de liberdade que lhes pertencem por direito próprio. As mais velhas e corpulentas parecem ter a idade das pedras e, como legítimas guardiãs de tesouros milenares,  mostravam uma surpreendente atitude de vedetas no à vontade com que se expunham aos curiosos "paparazzi". A expressão do olhar cativava-nos e aproximava-nos - como se fossem detentoras de eternidades de paz.
Em Chichen Itzá deixei o medo e o arrepio que sentia quando me cruzava com as esquivas osgas do meu quintal. Se com elas pudesse cruzar o olhar, creio que o faria - agora - com outra familiaridade.


An mirandés

An Chichen Itzá hai un jogo de sol i selombra, obra de sabedorie houmana que parece lhebar-mos a un terreiro debino. An lhocales cun esta grandura apetece-mos fazer un jogo cula bida, lhibrarmos-mos  de ls sbarrulhos i oupir al pico de la spritualidade.
Lhougo a l´antrada arregalamos ls uolhos de spanto: sperában-mos taludas eiguanas que parecien arrimar-se a la l'eidade de las piedras. Cumo legítimas guardianas de tesouros milenares, amostrában als curjidosos "paparazi" spantosos modos de streilhas. Sous uolhos chamában-mos, cumo se l sou mirar tubisse an drento eiternidades de paç.
Las mais moças rabeában antre nós, fazien hablidades, oupian las paredes i quedában na brasa de la calor de la tarde a ouserbar-mos alhá de riba - de l alto de las pirámides maias. Cun eilhas partelhamos spácios de lhibardade que le perténcen por dreito própio.
An Chichen Itzá quedou l miedo i l arrepelo que sentie quando me cruzaba culas fugidas osgas de l miu quintal. Se cun eilhas pudisse cruzar l mirar, cuido que l fazerie - agora - cun outra familharidade.

Teresa Almeida


 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Murcharam as rosas

Li-te a amargura e a saudade numa tarde quente de verão
a sensibilidade e a desilusão no verso desfeito e abandonado
Despontavam auroras num tempo perturbado de ausências
e de morangos vermelhos e carnudos atraiçoados no sabor.
Li-te nos lábios a dor da perda e o gelo das palavras
 as sentidas idas aos recantos e encantos do nordeste.
Li-te a ternura das rosas decepadas em breve e sofrido caminho
 um  caminho que  perdeste e sentiste no voo planado do abutre
na alegria berrante das mimosas que vaidosas enfeitiçam os matagais.
Li-te o desgosto mastigado ao lume de uma tarde de Agosto.

Murcharam as rosas que tanto amaste mas sinto que afagas a saudade
e buscas a essência do perfume nos espinhos de agrestes roseirais.



Teresa Almeida

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A garrafa de jeropiga


 entrei na adega e já adivinhava               
um tesouro nela agrilhoado
a sete chaves
...
as chaves de um chamamento amigo
a manobra na fechadura
ouvia-se no cimo do povo, certamente
gostei de franquear o portal de traça antiga
com tábuas cosidas a pregos por mãos de artista

entrei no empedrado miúdo do corredor enviesado
que parecia ter crescido com os dias
lenta e amorosamente
arrolhados estavam néctares apetecidos
ancestrais saberes escondidos

em garrafas e canecas demorava o olhar
concupiscente
mas logo seguia com avidez
o teu andar de contentamento e o sabor da vida
pairava no primor de cada detalhe
no suporte de cada garrafa especial
esculpido em madeira de árvore antiga

seguia entre teias de afeto
tecidas caprichosamente
enleava-me nos fios e não me importava
desfrutava do enredo, da ocasião
sentámo-nos no chão, junto ao pipo
e o ar de verão entrava pela janela de pedra
sem vidraça nem portada

 abriste a torneira, segurei o copo
o vinho e a conversa sabiam bem
e na naturalidade daquela tarde
como a folha de hedra enleada
desfrutava dos prazeres da adega
algo invulgar noutros tempos

não sei como, mas trouxe a garrafa de jeropiga
guardada a sete chaves no pensamento
Teresa Almeida

sábado, 29 de junho de 2013

Tempo de mim

Deslizam nuvens nos lenços do meu vestido
 
folhos rubros em dia pardacento
 
é um dia gigantesco este
 
em que se desfolham folhas de vida
 
nos versos que pela noite se vão erguer
 
e renascer fervilhando em tertúlias de poesia
 
cantando um Porto cinzento sim
 
mas poético e glamoroso
 
e é nesta alegria que me encanto e desço
 
e troco cumplicidades com a vizinha
 
que afinal mal conheço
 
os rostos agarram a frieza do betão e a pressa
 
não se compadece nem espera que a vida
 
se solte desinibida, confiante em desabafos
 
esparsos e breves sentires
 
o sol começa a aquecer e a assomar-se no olhar
 
e como um cálice de vinho fino que partilhássemos juntas
 
os olhos brindam a alegria deste encontro
 
o primeiro na escada derradeira
 
e perco a pressa, deixo-me estar
 
estou aqui por pouco tempo, mas é sempre tempo
 
de sermos gente, de nos olharmos e vermos
 
que afinal abrandar o passo pode ser um passo em frente
 
e eu hoje que tenho pressa demoro mais um pouco
 
porque tenho sempre tempo para mim
 
e é quando me dou que eu me pertenço

Teresa Almeida
 
(in Antologia da Moderna Poética Portuguesa)
 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

hoje apetece-me cantar


fiquei demorando o olhar
para perceber o que se está a passar

Duce ou Dulcineia tanto faz
não rasgues os teus versos querida
não faças chorar a alma da gente
o verso é a própria vida

hoje apetece-me cantar
como o rouxinol na noite perdida
por ti vou cantar baixinho
gemer de amor e saudade
soltar rimas em liberdade

e nos versos tristes de Florbela
deixar sonhar D. Quixote

perseguir moinhos de vento
com ousadia
a galope

Teresa Almeida

terça-feira, 18 de junho de 2013

Deixa-me ficar


 Senti fremente o teu apelo
leve rodopio em meu ser
furtiva promessa divina

eu quero deste jeito sagrado
eu quero o teu querer

Deixa-me subir embriagada
ao meteórico instante
ao alto da palavra

Deixa-me lá ficar
suspensa no teu toque preferido
em sintonia melódica
contigo

Teresa Almeida


 

 

A LA FALA CUL MIRANDÉS