quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Porto poético



Deixa-me apalpar a magia da cidade           
as cores maviosas em que a respiras
azuis, vermelhos e amarelos acesos
deixa-me apalpar o namoro do teu olhar
os teus passos amorosos, descalços
e os abraços nas pedras da calçada
a história calcorreada

em cada anoitecer as cores adormecem amadas
há melodias íntimas que cada um conhece
uma prece que se canta e saboreia em cada esquina
há sobreposição de sentidos melódicos
nas pinceladas que esbracejam de afeto
deixa-me apalpar a cidade em cada recanto ou beco
em ti descubro-a tal qual a conheci
deixa-me adivinhar as estrelas que romperam as janelas

deixa-me inebriar na pintura que não quero entender
nem sequer comentar, quero apenas sentir e desejar
o teu poema pictoricamente épico
deixa-me penetrar a eloquência do teu versejar
são torres, são rios, são pontes, são navios
este  é o país que aqui se canta e diz
é o Porto poético!

Teresa Almeida

(Pintura de Santiago Belacqua) 
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

se me dizes: vem


fico perdida nos ventos e na magia dos sentidos
saio da história e deixo o livro em suspenso
da página levanto o olhar e perco o timbre habitual
desenho o mar imenso nas asas do verso matinal

se me dizes: vem
penetro a melodia desta manhã pardacenta
embarco na poesia desta incauto momento
acredito numa ponte entre todas as margens
e em navios aportando auroras de novas viagens

Teresa Almeida


domingo, 6 de outubro de 2013


Fascínio
 
 
Não sei se o fascínio vem do brilho dos solitários

com coloridas folhas de parreira

se da beleza translúcida da jarra verde

comprada para o casamento da avó

se da travessa esmeralda, enfeitada

com uvas de rei da vinha da faceira.

 

Ou será apenas e só um poema

que vive na sala um enredo outonal

filtrado à hora mágica do sol pôr

ou a saudade esgueirada dum olhar amigo

o valor da pena esvoaçante de ave

pintada num elegante vaso antigo?
 

Teresa Almeida

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Amor i delor



 Purmeiro fui l silenço i l coraçon cheno d´ancredelidade i cada beç l spanto se m´acercaba más.

Apuis las palabras salírun cumo l carambelo que zimpou pula nuite an que te fui a ber. Ua de las piores de la tue bida. Ua daqueilhas apuis que l fuogo treiçoneiro te lhebou un de ls tous crabos, un de ls botones que salírun de drento de ti cun amor i delor. Parece que l delor faç parte de... la bida i anda mui acerquita de l´amor para que naide seia purfeito. Fúran tantas las antemidades que ambas a dues arranquemos de l peito cheno de ls nuossos afetos, porque l´amor bota-se afuora a cachones i ye cumo un sistema de basos quemunicantes. I ls filhos andában al meio de to tas cumbersas, anquanto las tues manos halbelidosas botaban quelores al miu pelo, anque la fuorça de l tiempo anteime an le botar centeilhas de lhuna.

Fui a la hora de la lhuna que te fui a ber i até eilha, de tristeza, se scundiu i la truona apagou las lhuzes artefeciales Quaije nun te bi, mas ne l nuosso abraço senti l´ antemidade i l carambelo de l delor. Nien sequiera ancuntrei las palabras ciertas para te dezir.

Teresa Almeida

Primeiro foi o silêncio e o coração cheio de incredulidade e cada vez mais o espanto me invadia.
Depois as palavras saíram como o granizo que caiu pela noite em que te fui ver. Uma das piores da tua vida. Uma daquelas depois que o fogo traiçoeiro te levou um dos teus cravos, um dos botões que saíram de dentro de ti com amor e dor. Parece que a dor faz parte da vida e anda tão próxima do amor para que nada seja perfeito. Foram tantas as intimidades que ambas arrancámos do peito cheio dos nossos afetos porque o amor transborda e é como um sistema de vasos comunicantes. E os filhos andavam no meio de todas as conversas, enquanto as tuas mãos habilidosas jogavam tons no meu cabelo para contrariar a força do tempo que entra nele em raios de lua.
Foi à hora da lua que te fui ver e até ela, de tristeza, se escondeu. E a trovoada também apagou as luzes artificiais. Quase não te vi, mas no nosso abraço senti a intimidade e o gelo da dor - nem sequer encontrei as palavras certas para te dizer

sábado, 7 de setembro de 2013

Deixo-me ficar

Deixo-me ficar
pendurada em doce madrugar
nascido de um romance excessivo
entre o sol e o rio - em noite de luar
debruço-me em picos de luz
esqueço a loucura a dilacerar o tempo
deixo-me ficar
bebo a paz e a magia do momento
sacrário de eterno contentamento.


Teresa Almeida

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Chichen Itzá - México


Em Chichen Itzá mergulhamos num jogo de sol e sombra, obra de sabedoria humana que parece transpor-nos a um patamar divino. Em locais com esta magnitude apetece-nos estabelecer um jogo com a vida, libertarmo-nos  dos escombros e subir ao cume da espiritualidade. 
Serpenteavam entre nós jovens iguanas que, em manobras circenses faziam piruetas, subiam as paredes e ficavam na brasa do calor da tarde a observar-nos lá de cima - do alto das pirâmides maias. Esbugalhámos os olhos de espanto e com elas partilhámos espaços de liberdade que lhes pertencem por direito próprio. As mais velhas e corpulentas parecem ter a idade das pedras e, como legítimas guardiãs de tesouros milenares,  mostravam uma surpreendente atitude de vedetas no à vontade com que se expunham aos curiosos "paparazzi". A expressão do olhar cativava-nos e aproximava-nos - como se fossem detentoras de eternidades de paz.
Em Chichen Itzá deixei o medo e o arrepio que sentia quando me cruzava com as esquivas osgas do meu quintal. Se com elas pudesse cruzar o olhar, creio que o faria - agora - com outra familiaridade.


An mirandés

An Chichen Itzá hai un jogo de sol i selombra, obra de sabedorie houmana que parece lhebar-mos a un terreiro debino. An lhocales cun esta grandura apetece-mos fazer un jogo cula bida, lhibrarmos-mos  de ls sbarrulhos i oupir al pico de la spritualidade.
Lhougo a l´antrada arregalamos ls uolhos de spanto: sperában-mos taludas eiguanas que parecien arrimar-se a la l'eidade de las piedras. Cumo legítimas guardianas de tesouros milenares, amostrában als curjidosos "paparazi" spantosos modos de streilhas. Sous uolhos chamában-mos, cumo se l sou mirar tubisse an drento eiternidades de paç.
Las mais moças rabeában antre nós, fazien hablidades, oupian las paredes i quedában na brasa de la calor de la tarde a ouserbar-mos alhá de riba - de l alto de las pirámides maias. Cun eilhas partelhamos spácios de lhibardade que le perténcen por dreito própio.
An Chichen Itzá quedou l miedo i l arrepelo que sentie quando me cruzaba culas fugidas osgas de l miu quintal. Se cun eilhas pudisse cruzar l mirar, cuido que l fazerie - agora - cun outra familharidade.

Teresa Almeida


 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Murcharam as rosas

Li-te a amargura e a saudade numa tarde quente de verão
a sensibilidade e a desilusão no verso desfeito e abandonado
Despontavam auroras num tempo perturbado de ausências
e de morangos vermelhos e carnudos atraiçoados no sabor.
Li-te nos lábios a dor da perda e o gelo das palavras
 as sentidas idas aos recantos e encantos do nordeste.
Li-te a ternura das rosas decepadas em breve e sofrido caminho
 um  caminho que  perdeste e sentiste no voo planado do abutre
na alegria berrante das mimosas que vaidosas enfeitiçam os matagais.
Li-te o desgosto mastigado ao lume de uma tarde de Agosto.

Murcharam as rosas que tanto amaste mas sinto que afagas a saudade
e buscas a essência do perfume nos espinhos de agrestes roseirais.



Teresa Almeida

A LA FALA CUL MIRANDÉS