segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Paixão Açoriana


Acabei de podar as hortências do jardim
 as do lado nascente, onde se dão bem
e sorriem a quem passa em cobiçado olhar
 
no pequeno espaço elas são um afeto desmedido
uma paixão açoriana que me enfeita o verão
cantam o Outono e ruborizadas tremem
até ao enorme arrepio das primeiras geadas.
 
cai a tarde enquanto vejo uma película de natal
e há hortênsias secas  nas jarras transparentes.
Tens uma vida invulgar, para mim, surpreendente
já estiveste no Faial? Viste a magia dos muros floridos?
 
Como podes garantir que não voltarás aqui ou ali?
Coisas de astrólogo, já se vê. Eu não garanto nada!
Quero voltar à ponta do sossego e à ponta da madrugada.
 
Teresa Almeida
 

domingo, 8 de dezembro de 2013

Sem medo


sei que há trambolhões desesperados

mas eleva-te acima, suspende-me
os meus pés estão pesados e a escrita
anda perdida no nosso descontentamento
caiu contigo da árvore que de fartura
atraiçoou o teu passo num galho mais frágil
 
sinto-te mais em mim mesmo afastado
ainda quero ter o teu voo ágil e a rima
e a palavra que tinha o sabor intenso e breve
do abraço justo, impaciente, delineado
no meu corpo desperto, em desassossego
 
quero ver-te no meio do bulício, sem medo
partilhando os sabores da amizade
quero voltar a sentir-te solto e leve
o pé em jeito de apanhar o primeiro acorde
e a vida em laivos de felicidade 
 
Teresa Almeida

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Queda outonal



enlaço-me num emaranhado de folhas outonais

as mais belas

cachos de uvas reluzem ressequidas entre elas

a parreira que plantaste enroscou-se na grade do tempo

ferral de rosa -  as minhas uvas preferidas

não chegámos a colhê-las

sabes como gosto de as debicar como se fosse um pardal

mas deixo o cacho sempre elegante

as rosas, a jusante, regressam em fogo outonal

 

não esqueço o sofrimento à solta no hospital

nem os beijos que te levei e os que te darei

não esqueço o teu rosto comprimido

nem a queda do alto figueira do quintal

nem o pavor no meu peito sem abrigo

não esqueço este Setembro que se verte

na doçura dos figos que quiseste oferecer

sobe-se por amor e desce-se no espanto da dor

a vida é bela e traiçoeira, meu amor.

22-09.2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Porto poético



Deixa-me apalpar a magia da cidade           
as cores maviosas em que a respiras
azuis, vermelhos e amarelos acesos
deixa-me apalpar o namoro do teu olhar
os teus passos amorosos, descalços
e os abraços nas pedras da calçada
a história calcorreada

em cada anoitecer as cores adormecem amadas
há melodias íntimas que cada um conhece
uma prece que se canta e saboreia em cada esquina
há sobreposição de sentidos melódicos
nas pinceladas que esbracejam de afeto
deixa-me apalpar a cidade em cada recanto ou beco
em ti descubro-a tal qual a conheci
deixa-me adivinhar as estrelas que romperam as janelas

deixa-me inebriar na pintura que não quero entender
nem sequer comentar, quero apenas sentir e desejar
o teu poema pictoricamente épico
deixa-me penetrar a eloquência do teu versejar
são torres, são rios, são pontes, são navios
este  é o país que aqui se canta e diz
é o Porto poético!

Teresa Almeida

(Pintura de Santiago Belacqua) 
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

se me dizes: vem


fico perdida nos ventos e na magia dos sentidos
saio da história e deixo o livro em suspenso
da página levanto o olhar e perco o timbre habitual
desenho o mar imenso nas asas do verso matinal

se me dizes: vem
penetro a melodia desta manhã pardacenta
embarco na poesia desta incauto momento
acredito numa ponte entre todas as margens
e em navios aportando auroras de novas viagens

Teresa Almeida


domingo, 6 de outubro de 2013


Fascínio
 
 
Não sei se o fascínio vem do brilho dos solitários

com coloridas folhas de parreira

se da beleza translúcida da jarra verde

comprada para o casamento da avó

se da travessa esmeralda, enfeitada

com uvas de rei da vinha da faceira.

 

Ou será apenas e só um poema

que vive na sala um enredo outonal

filtrado à hora mágica do sol pôr

ou a saudade esgueirada dum olhar amigo

o valor da pena esvoaçante de ave

pintada num elegante vaso antigo?
 

Teresa Almeida

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Amor i delor



 Purmeiro fui l silenço i l coraçon cheno d´ancredelidade i cada beç l spanto se m´acercaba más.

Apuis las palabras salírun cumo l carambelo que zimpou pula nuite an que te fui a ber. Ua de las piores de la tue bida. Ua daqueilhas apuis que l fuogo treiçoneiro te lhebou un de ls tous crabos, un de ls botones que salírun de drento de ti cun amor i delor. Parece que l delor faç parte de... la bida i anda mui acerquita de l´amor para que naide seia purfeito. Fúran tantas las antemidades que ambas a dues arranquemos de l peito cheno de ls nuossos afetos, porque l´amor bota-se afuora a cachones i ye cumo un sistema de basos quemunicantes. I ls filhos andában al meio de to tas cumbersas, anquanto las tues manos halbelidosas botaban quelores al miu pelo, anque la fuorça de l tiempo anteime an le botar centeilhas de lhuna.

Fui a la hora de la lhuna que te fui a ber i até eilha, de tristeza, se scundiu i la truona apagou las lhuzes artefeciales Quaije nun te bi, mas ne l nuosso abraço senti l´ antemidade i l carambelo de l delor. Nien sequiera ancuntrei las palabras ciertas para te dezir.

Teresa Almeida

Primeiro foi o silêncio e o coração cheio de incredulidade e cada vez mais o espanto me invadia.
Depois as palavras saíram como o granizo que caiu pela noite em que te fui ver. Uma das piores da tua vida. Uma daquelas depois que o fogo traiçoeiro te levou um dos teus cravos, um dos botões que saíram de dentro de ti com amor e dor. Parece que a dor faz parte da vida e anda tão próxima do amor para que nada seja perfeito. Foram tantas as intimidades que ambas arrancámos do peito cheio dos nossos afetos porque o amor transborda e é como um sistema de vasos comunicantes. E os filhos andavam no meio de todas as conversas, enquanto as tuas mãos habilidosas jogavam tons no meu cabelo para contrariar a força do tempo que entra nele em raios de lua.
Foi à hora da lua que te fui ver e até ela, de tristeza, se escondeu. E a trovoada também apagou as luzes artificiais. Quase não te vi, mas no nosso abraço senti a intimidade e o gelo da dor - nem sequer encontrei as palavras certas para te dizer

Tempo Pascal