terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"Pathétique"

 
Talvez como quem justifica a dor da ausência

mandaste-me Tchaikovsky como embaixador.
 
 
Interpretei os silêncios  da sinfonia (era a 6º )

 como quem se prepara e espera do amor

uma avalanche de emoções. Depois sentia-as fluir,

por antecipação, deslizando na amargura,

na saudade, na ânsia. O rosto molhado e o olhar entranhado

na apoteose de toadas finais. Porém, quando a melodia hesita

 e treme nas íntimas fímbrias do meu peito,

 quero adivinhar novos acordes - sinfonias de euforia.
 
 
E foi assim, nesta manhã estremunhada e opaca,

que Tchaikovsky ocultou as estrelas que nos adormeceram

e a orquestra tocou - demoradamente - só para nós!
 
Teresa Almeida
Rio Douro - Miranda do Douro

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

País decerto


Senti-te seda na minha pele, especiaria
poema pujante que de dor se arrastava
e de impossíveis se alimentava.
Trazias a cegueira e a visão na pena de Camões
a lágrima de Amália
o violento e derradeiro amor de Pedro e Inês,
ou deste a vez à poesia que te tocava de forma exacerbada?
 
Disseste a alegria do olhar e vestiste o verbo de melancolia
trouxeste a alma portuguesa naquela madrugada
do fado, a tristeza a corroer-te.
Deixa-me dizer-te que vieste comigo na brisa marítima
que meus cabelos acariciava
e na onda invulgar que meu peito sossegava.
 
Hoje
deposito na profundidade deste mar
a vontade de um poema feito ternura e grandeza
marcado de sensibilidade
deposito e grito, esconjuro e sonho um país decerto
que desperto, não morre de saudade.
 
Teresa Almeida






segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Pantera Negra



predestinado, vieste lá de longe
na atitude atlética, doce e feroz
de nós fizeste admiradores e poetas
contigo pelo mundo aos pontapés
 
colados ao teu efeito magnético
o ópio do povo voando nos teus pés
e num lance de pantera, sempre novo
maior do que um grande clube tu és
 
do Porto minha alma contida e clubística
rende-te sentida e serena homenagem
és alto, és maior, és poema, és paixão
 
foste loucura, simplicidade, alienação
foste a voz que no mundo explodiu
e ficarás lenda viva - saudade em nós
 
Teresa Almeida

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O perfume do verso


Ser poeta não é só escrever versos

é saber criar um clima de liberdade

é cevar em ti o desejo de renascer

e no deserto das ideias maltratadas

 dar-te a chave do céu e do prazer


ser poeta é saber beijar as palavras

e despir-te dentro delas sem alarde

saber que  o poema não voa nem arde

se a lira não afinar ao teu toque

e um único perfume o verso não tiver

Teresa Almeida


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Paixão Açoriana


Acabei de podar as hortências do jardim
 as do lado nascente, onde se dão bem
e sorriem a quem passa em cobiçado olhar
 
no pequeno espaço elas são um afeto desmedido
uma paixão açoriana que me enfeita o verão
cantam o Outono e ruborizadas tremem
até ao enorme arrepio das primeiras geadas.
 
cai a tarde enquanto vejo uma película de natal
e há hortênsias secas  nas jarras transparentes.
Tens uma vida invulgar, para mim, surpreendente
já estiveste no Faial? Viste a magia dos muros floridos?
 
Como podes garantir que não voltarás aqui ou ali?
Coisas de astrólogo, já se vê. Eu não garanto nada!
Quero voltar à ponta do sossego e à ponta da madrugada.
 
Teresa Almeida
 

domingo, 8 de dezembro de 2013

Sem medo


sei que há trambolhões desesperados

mas eleva-te acima, suspende-me
os meus pés estão pesados e a escrita
anda perdida no nosso descontentamento
caiu contigo da árvore que de fartura
atraiçoou o teu passo num galho mais frágil
 
sinto-te mais em mim mesmo afastado
ainda quero ter o teu voo ágil e a rima
e a palavra que tinha o sabor intenso e breve
do abraço justo, impaciente, delineado
no meu corpo desperto, em desassossego
 
quero ver-te no meio do bulício, sem medo
partilhando os sabores da amizade
quero voltar a sentir-te solto e leve
o pé em jeito de apanhar o primeiro acorde
e a vida em laivos de felicidade 
 
Teresa Almeida

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Queda outonal



enlaço-me num emaranhado de folhas outonais

as mais belas

cachos de uvas reluzem ressequidas entre elas

a parreira que plantaste enroscou-se na grade do tempo

ferral de rosa -  as minhas uvas preferidas

não chegámos a colhê-las

sabes como gosto de as debicar como se fosse um pardal

mas deixo o cacho sempre elegante

as rosas, a jusante, regressam em fogo outonal

 

não esqueço o sofrimento à solta no hospital

nem os beijos que te levei e os que te darei

não esqueço o teu rosto comprimido

nem a queda do alto figueira do quintal

nem o pavor no meu peito sem abrigo

não esqueço este Setembro que se verte

na doçura dos figos que quiseste oferecer

sobe-se por amor e desce-se no espanto da dor

a vida é bela e traiçoeira, meu amor.

22-09.2013

A LA FALA CUL MIRANDÉS