terça-feira, 3 de junho de 2014

Madressilva

Sou íntimo peregrino de emoções selvagens
enredo de madressilva, sedução bravia e verdadeira.

 Rodeiam-me sonhos que tropeçam nos caminhos,
 olhares sozinhos que vertem rios de esperanças
 e rebuscam mares, marés jovens, vida plena.

Sentidas gargalhadas, sangue a
pulsar, encostas de arribas.
Gritos de aves a céu aberto, futuro incerto
a desenhar-se na pele chamuscada de árvores nuas.
Nesta peregrinação existo e nada
se esvai que mereça ser dito.

De além do rio evoluem cenários
multicores, abraços que se atrevem

e há um filme ensaiado algures, no infinito,
intocável!

Se me vires com uma invejável madressilva
no decote

saberás que é todo o meu dote, meu
grito, meu verso de perfume silvestre.


Teresa Almeida

terça-feira, 13 de maio de 2014

De que falas?



 Dum entrelace que quase queima
e acende fogueiras no regaço?
Sei que nos teus lábios nasce o sol de Agosto...
e a pele tece rubra palavra.
É nos picos que Dezembro se despe
e de êxtase o jardim rejuvenesce.
É nas veias que acontece o sobressalto
e o meu corpo perdido em mar alto
é barco à vela, sôfrego de estrelas.

Teresa Almeida

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Viajo na garupa


Há um voo de mil aves em festivo acasalamento
atitude desafiante, pensamento escorregadio.
O norte é o desassombro e a liberdade.
No corpo um dinamismo avassalador,
 como se o trotear fosse a canção.

Cabelo solto na dimensão do vento,
açoite propulsor de ilusão.
Quando o ritmo aperta, a palavra, sem idade,
desata -se espavorida ,
parte em frente, luzidia, e o trotear dá-lhe o ritmo
de melodia consentida.

Viajo na garupa, pegadas nuas
marcam caminho de areias inconstantes.
Fora do sonho, a sombra em sentido contrário,
continua rastejante; como se num outro eu
ela vivesse e sem mim viajasse.

Teresa Almeida

sexta-feira, 28 de março de 2014

Teatro e vida


Essa energia que te atira ao alto,
esse riso, essa mímica, irresistível atração,
sobressalto, questionamento, aflição,
esse chão e esse palco que te amolece.

Há alegria que pisas e um céu que te arrebata,
olhar que fulmina de ódio e se derrete
contradição que te anima, grito, revolta,
vontade de dar a volta e dizer não
ao sim sem força.

Ah, esse fingimento de seres,
essa glória, esse fulgor,
essa prisão.

Esse voo maior é teatro e vida
momento fugaz, dor que aperta,
poeta rebelde, dura paixão, querer,
peça gasta, que nunca te afasta
do menino assustado,

a tremer na vontade de crescer.

Teresa Almeida

segunda-feira, 17 de março de 2014

Desperto


Desperto fazendo-me nua na palavra,
escrita no fulgor de rara melodia,
acariciada num trecho musical único, invulgar,
tão intenso que te pressinto a reger-me os sentidos.

Os acordes espraiam-se no meu corpo e os dedos
deslizam na energia que se faz palpável.
Ah! e aquele tom que soltaste mais além
imbuído de uma ponta de ciúme - adorável!

Sim, sei que essa trilha não é minha
e não percebo porque me colei, como se o tema
tivesse nascido para mim, pleno de intensidade.
Até me vejo poetisa, sim, no poder de te ver e te ter
na voz, na emoção e na singeleza do verso original.

Teresa Almeida 

sábado, 8 de março de 2014

La Mulhier i la poesie

 (Hoje, em Miranda do Douro)

Mulhier
porquei stamos hoije eiqui?
ye l nuosso die si,
 l die de la mulhier de l praino
de la mulhier mirandesa
bien andrento de l alma pertuesa.
I nun son todos  ls dies dezde que
tenemos  un filho na barriga?
Si, porque la mulhier ye mai,
 mas ye filha tamien;
 i agarra  l mundo ne ls braços
 i lo ambala por ende i le dá guarida,
cun  carino debino de quien la bida  ten.
Ye ua frol que se zarrolha i amadurece
na alegrie i na tristeza,
de mano dada quando alguien percisa.
Ye buono tener l´home cun nós, al lhado
nun ye cierto?
sien el acerquita que grácia tenerie?
Que si me gusta  ber-los hoije eiqui,
nesta fiesta tan galana!

Hai sfregantes an que la zgrácia mos apanha
i l delor  mos droba la spina.
Anton, son l amor i l'amisade la melhor cumpanha,
l furmiento de la sociadade
la fuorça que mos fai andar camino
cun magie ne l'oulhar.
De que sirbe botarmos-mos ambaixo
se la nuossa hora chigará, yá  l sabemos.
Assi i todo, agarremos cada die, cuntentas, 
cumo se  derradeiro fuora,
cantemos  ne l mirar de ls filhos, de l cumpanheiro,
de ls pais, de ls amigos - bielhos  ou nuobos.
La bida anda a la ruoda  i manhana seran outros
que staran eiqui i cuido you que cantaran
nesta lhéngua amerosa
 la mulhier i la poesie.

A MULHER E A POESIA

Mulher
porque estamos hoje aqui?
É o nosso dia sim!
O dia da mulher do planalto
o dia da mulher mirandesa,
bem dentro da alma portuguesa.
E não são todos  os dias desde que
temos um filho na barriga?
Sim, porque a mulher é mãe
mas é filha também!
E agarra o mundo nos braços
 e o embala e lhe dá guarida,
com  carinho divino de quem vida tem.
É uma flor que desabrocha e amadurece
na alegria e na tristeza,
de mão  dada quando alguém precisa.
É bom ter o homem connosco, ao lado
não é certo?
Sem ele por perto que graça teria?
Sim, gosto de os ver hoje, aqui,
nesta festa tão bonita!
Há momentos em que a desgraça nos apanha
e a dor nos dobra a espinha
Então é o amor e a amizade a melhor companhia,
o fermento da sociedade
a força que nos faz continuar o caminho.
De que serve deixarmo-nos ir abaixo
se a nossa hora chegará, já o sabemos.
Agarremos, então cada dia, contentes
como se fosse o último.
Cantemos no olhar dos filhos, do companheiro,
dos pais, dos amigos - velhos ou novos.
A vida anda à roda  e, amanhã, serão outros
que estarão aqui e penso eu que cantarão
nesta língua amerosa
a mulher e a poesia.

Teresa Almeida

A LA FALA CUL MIRANDÉS