Pela noite velha queima-se o ano, em cerimónia ritual. Uma
tradição solsticial que não queremos deixar morrer. Esta foi uma noite que
quisemos viver - não direi em plenitude - mas aproveitando os últimos acordes
antes de rasgar a página e seguir em frente. Bem sei que o tempo é selvagem e
voraz e teima em escrever o calendário em nós. Apesar de tentarmos domesticá-lo
com festejos, somos marcados, ano após ano, qual código de barras.
Nesta última noite de 2014 - bem geladinha, como é próprio
da época, só uma grande coragem arrancou alguns ao
aconchego do lar.
Nos olhares uma intrínseca mistura de sentimentos.
Faltam as máscaras! diziam alguns. É verdade, sentimos que
faltaram as máscaras para que as pessoas se pudessem evadir e queimar, sem medo, as
agruras e as revoltas. Desde tempos imemoriais , sabemos da necessidade de
soltar personagens treatreiras, talvez as mais genuínas.
A ideia é queimar só os maus momentos porque os bons não os deixaremos morrer; não
queremos extinguir-lhes a chama.
Teresa Almeida
Subtil





