terça-feira, 3 de março de 2015

Serenidade

Serenidade (an mirandês)

Partiste cumo un assopro,
cumo un airico tan brabo quanto sutible
de pura poesie. ...
Ancuontro-te, inda, streilha fulgurante,
ancentibo, sementeira a germinar
na naturalidade de ls caminos que trilheste.
Ancuontro, inda, na palabra derramada,
nas páiginas que deixeste, l brilho, la singularidade de l mirar,
la fiesta de la bida nua berdadeira risada - la tue.
Ancuontro-te, percipalmente, na serenidade de la lhuç q'abre camino
i mos amostra las pequeinhas coisas, las que rialmente amportan.
Ancuontro, ne l splendor de l die que, an mi, se recuolhe,
tantas rezones para dezir:


 bien haias, Amadeu Ferreira.



 Serenidade

Partiste como um sopro, como uma brisa,
como um perfume tão agreste quanto subtil
de pura poesia.
Encontro-te, ainda, estrela fulgurante,
incentivo, sementeira a germinar
na naturalidade dos caminhos que trilhaste.
Encontro, ainda, na palavra derramada,
nas páginas que deixaste, o brilho, a singularidade do olhar,
a festa da vida numa genuína gargalhada - a tua.
Encontro-te, principalmente, na serenidade da luz que abre caminho
e nos ensina as pequenas coisas, as que realmente importam.
Encontro, no esplendor do dia que, em mim, se recolhe
tantas razões para dizer:


 Bem hajas, Amadeu Ferreira.

Teresa Almeida Subtil


(Amadeu Ferreira era Presidente da Associação de Língua e Cultura Mirandesas.) 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Nem raça nem credo.


A primeira vez que de ti me abeirei

todas as sedes me tomaram. Sem raça nem credo.

Cruzei-te num primeiro abraço, mar sonhado, desejado e

finalmente sentido. Quando a coragem permitiu

 o primeiro mergulho, até a areia me bordou o corpo,

ponto por ponto. As cores brincavam e eram tantas

que despertavam e refletiam a luz que queria minha.

 

Nos meus olhos de céu e mar cruzavam-se correntes loucas,

e eu já sem roupa fiquei à tona e deixei-me prender

nas mais belas cores. Fiz-me laço, palmarés de glorioso arco iris.

Sei, sei que te dei versos sem palavras e, num silêncio prometedor,

até as czardas se ouviram. As czardas que bailaria com paixão.

As czardas que, para ti, escreveria com emoção.

 

Nos meus versos o mar endureceu, as lágrimas fizeram nuvens

e  foram quentes as cores que me vestiram.

Confesso: fui apanhada e fiquei onda a pulsar em mar alto.

No meu horizonte as palavras também se despiram de chavetas

e ficaram tão abertas até se fazerem espírito,

fado falado, morna resgatada, sal de miscigenação.


Teresa Almeida Subtil
 

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O voo da cotovia


Se vires uma cotovia perdida no espaço,

desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora,

onde possa amar a claridade do tempo inicial,

o tempo dos amplexos do sol nas escarpas,

o espanto do mundo pendurado no penhasco

e do canto esgalhado nas arribas do apertado vale.

 

Já não se reconhece nas asas em que acreditava,

mas sabe que bebia a melodia imaculada das cascatas enfurecidas,  

dos orvalhos da noite, do grito surdo das folhas perdidas.

Sabe que percebia o resfolgo da terra quente e molhada.

 

Fez-se caminho de rio, eco de margens a pulsar paixão,

perigo, queda, lonjura, graça esfumada, queda rasa de alma.

 

Morou sempre longe, rente ao penhasco, para lá da imaginação.

A cotovia que tinha colhido na areia movediça o esplendor,

fechou o ciclo. Fez-se regresso, primórdio. Sabia que voava.

 

Esvoaçar  é o seu destino.  Sempre longe da claridade do ninho,

continua a rasgar asas, perseguindo  horizontes impossíveis.

 

 Se vires uma cotovia perdida no espaço,

desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora.


Teresa Almeida Subtil
 
 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Abraço arrochado


Registar as minhas emoções é prolongar o que me dá prazer ou arrancar de mim todas as agruras. É como ir ao psiquiatra e deixar a conversa fluir sem freios.

Hoje foi um dos dias de registo, hoje fui dar-te um abraço, daqueles teus - arrochados -, abraço de amigo que se quer sempre perto. Não podia deixar de ir. Fui até Sendim, a tua terra, e encontrei-te metido numa capa que nunca te tinha visto. Parecia que deveria vir dos afetos que se aconchegam nas palavras. Encontrei-te rodeado de amigos porque tens um coração do tamanho do mundo, onde cabe sempre mais um. Eu sou um daqueles que tem o privilégio de conhecer e sentir essa capa de amizade. Bem hajas!
Encontrámo-nos no lugar dos sons da terra, um espaço que te é muito querido. Ao passar pelos bancos, às portas das casas, lembro-me que sempre lá viste os amigos que já partiram como eu na minha rua ( até os vejo ao postigo!). Parece que ficámos contagiados e mais amigos entre nós, só por estarmos irmanados contigo, com as letras, com o calor da sabedoria e dos afetos.
Desta vez eram "Ditos Dezideiros" que recolheste para engrandeceres as duas línguas de Portugal. Ninguém pense que este país terá o mesmo vigor e conteúdo cultural se não lutar pelas duas, se não se mostrar ao mundo na autenticidade da sua história.

Sabemos que o trabalho e a curiosidade sempre deu vida e luz ao teu olhar, Amadeu Ferreira!
"Não pares de escrever", dizes-me sempre que nos falamos. Fico um pouco embaraçada, mas aguças-me esta vontade, este prazer que me move.

"Isto é algo sério", teimas em repetir. Na verdade quando leio um livro teu, é isso mesmo que sinto, é o valor daquilo que realmente importa, um legado dum amigo, dum escritor contemporâneo da nossa terra. É uma experiência tão forte que falta força às palavras.

"Teresa, queres pertencer ao grupo? - perguntaste-me um dia, só por te aperceberes do meu apreço pela língua mirandesa - o teu graal!
Entrar para os Blogueiros Mirandeses é um prémio que guardo com carinho, no lugar dos meus tesouros. Encanta-me calcorrear caminhos, conhecer a história dos lugares, falar e ouvir a língua da origem de Portugal, a língua do planalto, a língua de "La BOUBA DE LA TENERIE", a língua de "NORTEANDO".

Ainda hoje te fui ver e guardo o teu sorriso, a força do teu olhar e as palavras que sabes que me fazem bem. Tens tanto para dar e até parece que dares-te aos outros é o alimento da tua alma.

Ainda hoje me disseste "tens escrito, Teresa?" Não pares! Os teus upas sempre me aqueceram as palavras.

À saída, Alfredo Cameirão, outro sabido da língua mirandesa despediu-se assim: escreve, Teresa!

Bem, sendo assim: aqui vai!

ABRAÇO ARROCHADO

Registrar las mies eimoçones ye prolongar l que me dá prazer ó arrincar de mi todas las agruras. Ye cumo ir al psiquiatra i deixar la cumbersa scorrer sin trabones.

Hoije fui un de ls dies de registro. Hoije fui-te a dar un abraço, daqueilhes tous - arrochados -, abraço d'amigo que se quier siempre acerquita. Nun podie deixar d'ir. Fui até Sendin, la tue tierra, i ancontrei-te metido nua capa que nunca te tenie bisto. Parecie que deberie benir de ls afetos que s´ arróchan an las tues palabras. Ancontrei-te arrodeado d'amigos porque tenes un coraçon de l tamanho de l mundo, adonde cabe siempre mais un. You sou un daqueilhes que ten l prebileijo de coincer i sentir essa capa d'amisade. Bien haias!

Ancuntrámos-mos ne l lhugar de ls sonidos de la tierra, un spácio que te gusta muito. Al passar puls bancos, a las puortas de las casas, lhembro-me que siempre alhá biste ls amigos que yá partírun cumo you an la mie rue ( até ls beio al postigo!). Parece que, nesta tarde, ficámos cuntagiados i mais amigos antre nós, solo por starmos armanados cuntigo, culas lhetras, cula calor de la sabedorie i de ls afetos.

Desta beç éran "Ditos Dezideiros" que recolhiste para angrandecires las dues lhénguas de Pertual. Naide pense qu'este paíç terá l mesmo bigor i cuntenido cultural se nun lhuitar pulas dues, se nun s´ amostrar al mundo na berdade de la sue stória.

Sabemos que l trabalho i la curjidade siempre dou bida i lhuç al tou mirar, Amadeu Ferreira!

"Nun pares de screbir", dizes-me siempre que mos falamos. Fico un pouco ambaraçada, mas aguças-me esta buntade, este prazer que me mexe.

"Esto ye algo sério", teimas an repetir. Na berdade quando lheio un lhibro tou, ye esso mesmo que sinto; ye l balor daqueilho que rialmente amporta, un lhegado dun amigo, dun scritor cuntemporáneo de la nuossa tierra. Ye ua spriéncia tan fuorte que falta fuorça a las palabras.

"Teresa, quieres pertencer a la quadrilha? - pregunteste-me un die, solo por sentires l miu aprécio pula lhéngua mirandesa - l tou "graal"!

Antrar pa ls Blogueiros Mirandeses ye un prémio que guardo cun carino, ne l lhugar de ls mius tesouros. Ancanta-me calcorrear caminos, coincer la stória de ls lhugares, falar i oubir la lhéngua de l'ourige de Pertual, la lhéngua de l praino, la lhéngua de "La BOUBA DE LA TENERIE", la lhéngua de "NORTEANDO".

Inda hoije te fui a ber i guardo la tue sonrisa, la fuorça de l tou mirar i las palabras que sabes que me fázen bien. Tenes tanto para dar i até parece que dares-te als outros ye l'alimiento de la tue alma.

Inda hoije me deziste: tenes scrito, Tresa? Nun pares! Ls tous upas siempre me calecírun las palabras.

A la salida, Alfredo Cameiron, outro sabido de la lhéngua mirandesa, çpediu-se assi: scribe, Tresa!

Bien, sendo assi: ende bai!
 
Teresa Almeida Subtil (in Jornal Nordeste)


 

sábado, 10 de janeiro de 2015

A ARTE É MULTIFACETADA

 
Doeu-me quando me apagaste,
como se amarrotasses as páginas,
destruísses as lombadas
e conspurcasses os laçarotes;
aqueles que diziam a festa da vida
aqueles que prendiam o carinho
a arte no enrolar de uma fita,
na cor e na textura do tecido,
no brilho solto no detalhe.
 
À hora do sol-pôr o botão é ouro,
os berloques são minaretes,
os pormenores são beijos,
poemas a arder no peito.
A arte é multifacetada;
não lhe apagues a graça,
não lhe belisques o estilo,
mesmo que tenhas direito.
 
Teresa Almeida Subtil


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

HORA DA POESIA

Deixemo-nos penetrar pela beleza e intensidade poética de Amadeu Ferreira:

"guarda os pequeninos gestos, os instantes, quase sem tempo,
os lugares de que só te ficou um registo gasto na memória:
os bocadinhos de ser feliz podem durar sempre na lembrança,
ainda que não passem de uma dor..
...tem-nos sempre à mão para resistir e acalmar as fomes que te povoam..."

Link directo: http://www.radiovizela.pt/radiovizela.asx

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Enterro do ano velho.

 

Pela noite velha queima-se o ano, em cerimónia ritual. Uma tradição solsticial que não queremos deixar morrer. Esta foi uma noite que quisemos viver - não direi em plenitude - mas aproveitando os últimos acordes antes de rasgar a página e seguir em frente. Bem sei que o tempo é selvagem e voraz e teima em escrever o calendário em nós. Apesar de tentarmos domesticá-lo com festejos, somos marcados, ano após ano, qual código de barras. 
Nesta última noite de 2014 - bem geladinha, como é próprio da época, só uma grande coragem arrancou alguns ao aconchego do lar.
Nos olhares uma intrínseca mistura de sentimentos.
Faltam as máscaras! diziam alguns. É verdade, sentimos que faltaram as máscaras para que as pessoas se pudessem evadir e queimar, sem medo, as agruras e as revoltas. Desde tempos imemoriais , sabemos da necessidade de soltar personagens treatreiras, talvez as mais genuínas.
A ideia é queimar só os maus momentos porque os bons não os deixaremos morrer; não queremos extinguir-lhes a chama.

Teresa Almeida Subtil


Tempo Pascal