sexta-feira, 5 de junho de 2015
quinta-feira, 12 de março de 2015
As nossa mãos
O primeiro arrepio de pele, num toque subtil,
desajeitado e despropositado parecia,
mas tão cálido e másculo eu o percebia!
Sem ousadia de te ler o olhar, nas tuas mãos
viajava. Sucumbiram as minhas na vontade de as tocar.
Depois perdi a conta aos belos poemas que juntas escreveram.
E foram tantas as pétalas e as cores que nelas se tocaram!
Foram asas em debandada, loucura de alturas precipitada.
Foram torrentes de ternura, berço, colo de rebentos.
E, até no meio dos vendavais, recordo o jeito
como semeavas primaveras no meu peito.
desajeitado e despropositado parecia,
mas tão cálido e másculo eu o percebia!
Sem ousadia de te ler o olhar, nas tuas mãos
viajava. Sucumbiram as minhas na vontade de as tocar.
Depois perdi a conta aos belos poemas que juntas escreveram.
E foram tantas as pétalas e as cores que nelas se tocaram!
Foram asas em debandada, loucura de alturas precipitada.
Foram torrentes de ternura, berço, colo de rebentos.
E, até no meio dos vendavais, recordo o jeito
como semeavas primaveras no meu peito.
Teresa Almeida Subtil
terça-feira, 3 de março de 2015
Serenidade
Serenidade (an mirandês)
Partiste cumo un assopro,
cumo un airico tan brabo quanto sutible
de pura poesie. ...
Ancuontro-te, inda, streilha fulgurante,
ancentibo, sementeira a germinar
na naturalidade de ls caminos que trilheste.
Ancuontro, inda, na palabra derramada,
nas páiginas que deixeste, l brilho, la singularidade de l mirar,
la fiesta de la bida nua berdadeira risada - la tue.
Ancuontro-te, percipalmente, na serenidade de la lhuç q'abre camino
i mos amostra las pequeinhas coisas, las que rialmente amportan.
Ancuontro, ne l splendor de l die que, an mi, se recuolhe,
tantas rezones para dezir:
Partiste cumo un assopro,
cumo un airico tan brabo quanto sutible
de pura poesie. ...
Ancuontro-te, inda, streilha fulgurante,
ancentibo, sementeira a germinar
na naturalidade de ls caminos que trilheste.
Ancuontro, inda, na palabra derramada,
nas páiginas que deixeste, l brilho, la singularidade de l mirar,
la fiesta de la bida nua berdadeira risada - la tue.
Ancuontro-te, percipalmente, na serenidade de la lhuç q'abre camino
i mos amostra las pequeinhas coisas, las que rialmente amportan.
Ancuontro, ne l splendor de l die que, an mi, se recuolhe,
tantas rezones para dezir:
bien haias, Amadeu Ferreira.
Serenidade
Partiste como um sopro, como uma brisa,
como um perfume tão agreste quanto subtil
de pura poesia.
Encontro-te, ainda, estrela fulgurante,
incentivo, sementeira a germinar
na naturalidade dos caminhos que trilhaste.
Encontro, ainda, na palavra derramada,
nas páginas que deixaste, o brilho, a singularidade do olhar,
a festa da vida numa genuína gargalhada - a tua.
Encontro-te, principalmente, na serenidade da luz que abre caminho
e nos ensina as pequenas coisas, as que realmente importam.
Encontro, no esplendor do dia que, em mim, se recolhe
tantas razões para dizer:
Bem hajas, Amadeu Ferreira.
Teresa Almeida Subtil
(Amadeu Ferreira era Presidente da Associação de Língua e Cultura Mirandesas.)
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Nem raça nem credo.
A primeira vez que de ti me abeirei
todas as sedes me tomaram. Sem raça nem credo.
Cruzei-te num primeiro abraço, mar sonhado, desejado
e
finalmente sentido. Quando a coragem permitiu
o primeiro
mergulho, até a areia me bordou o corpo,
ponto por ponto. As cores brincavam e eram tantas
que despertavam e refletiam a luz que queria minha.
Nos meus olhos de céu e mar cruzavam-se correntes
loucas,
e eu já sem roupa fiquei à tona e deixei-me prender
nas mais belas cores. Fiz-me laço, palmarés de
glorioso arco iris.
Sei, sei que te dei versos sem palavras e, num
silêncio prometedor,
até as czardas se ouviram. As czardas que bailaria
com paixão.
As czardas que, para ti, escreveria com emoção.
Nos meus versos o mar endureceu, as lágrimas fizeram
nuvens
e foram quentes
as cores que me vestiram.
Confesso: fui apanhada e fiquei onda a pulsar em mar alto.
No meu horizonte as palavras também se despiram de
chavetas
e ficaram tão abertas até se fazerem espírito,
fado falado, morna resgatada, sal de miscigenação.
Teresa Almeida Subtil
Teresa Almeida Subtil
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
O voo da cotovia
Se vires uma cotovia perdida no espaço,
desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora,
onde possa amar a claridade do tempo inicial,
o tempo dos amplexos do sol nas escarpas,
o espanto do mundo pendurado no penhasco
e do canto esgalhado nas arribas do apertado vale.
Já não se reconhece nas asas em que acreditava,
mas sabe que bebia a melodia imaculada das cascatas
enfurecidas,
dos orvalhos da noite, do grito surdo das folhas
perdidas.
Sabe que percebia o resfolgo da terra quente e
molhada.
Fez-se caminho de rio, eco de margens a pulsar paixão,
perigo, queda, lonjura, graça esfumada, queda rasa
de alma.
Morou sempre longe, rente ao penhasco, para lá da
imaginação.
A cotovia que tinha colhido na areia movediça o
esplendor,
fechou o ciclo. Fez-se regresso, primórdio. Sabia
que voava.
Esvoaçar é o
seu destino. Sempre longe da claridade
do ninho,
continua a rasgar asas, perseguindo horizontes impossíveis.
Se vires uma
cotovia perdida no espaço,
desenha-lhe um traço, estende-lhe um fio de aurora.
Teresa Almeida Subtil
Teresa Almeida Subtil
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Abraço arrochado
Registar as minhas emoções é prolongar o que me dá prazer ou
arrancar de mim todas as agruras. É como ir ao psiquiatra e deixar a conversa
fluir sem freios.
Hoje foi um dos dias de registo, hoje fui dar-te um abraço,
daqueles teus - arrochados -, abraço de amigo que se quer sempre perto. Não
podia deixar de ir. Fui até Sendim, a tua terra, e encontrei-te metido numa
capa que nunca te tinha visto. Parecia que deveria vir dos afetos que se
aconchegam nas palavras. Encontrei-te rodeado de amigos porque tens um coração
do tamanho do mundo, onde cabe sempre mais um. Eu sou um daqueles que tem o
privilégio de conhecer e sentir essa capa de amizade. Bem hajas!
Encontrámo-nos no lugar dos sons da terra, um espaço que te é muito querido. Ao passar pelos bancos, às portas das casas, lembro-me que sempre lá viste os amigos que já partiram como eu na minha rua ( até os vejo ao postigo!). Parece que ficámos contagiados e mais amigos entre nós, só por estarmos irmanados contigo, com as letras, com o calor da sabedoria e dos afetos.
Desta vez eram "Ditos Dezideiros" que recolheste para engrandeceres as duas línguas de Portugal. Ninguém pense que este país terá o mesmo vigor e conteúdo cultural se não lutar pelas duas, se não se mostrar ao mundo na autenticidade da sua história.
Encontrámo-nos no lugar dos sons da terra, um espaço que te é muito querido. Ao passar pelos bancos, às portas das casas, lembro-me que sempre lá viste os amigos que já partiram como eu na minha rua ( até os vejo ao postigo!). Parece que ficámos contagiados e mais amigos entre nós, só por estarmos irmanados contigo, com as letras, com o calor da sabedoria e dos afetos.
Desta vez eram "Ditos Dezideiros" que recolheste para engrandeceres as duas línguas de Portugal. Ninguém pense que este país terá o mesmo vigor e conteúdo cultural se não lutar pelas duas, se não se mostrar ao mundo na autenticidade da sua história.
Sabemos que o trabalho e a curiosidade sempre deu vida e luz
ao teu olhar, Amadeu Ferreira!
"Não pares de escrever", dizes-me sempre que nos falamos. Fico um pouco embaraçada, mas aguças-me esta vontade, este prazer que me move.
"Não pares de escrever", dizes-me sempre que nos falamos. Fico um pouco embaraçada, mas aguças-me esta vontade, este prazer que me move.
"Isto é algo sério", teimas em repetir. Na verdade
quando leio um livro teu, é isso mesmo que sinto, é o valor daquilo que
realmente importa, um legado dum amigo, dum escritor contemporâneo da nossa
terra. É uma experiência tão forte que falta força às palavras.
"Teresa, queres pertencer ao grupo? - perguntaste-me um
dia, só por te aperceberes do meu apreço pela língua mirandesa - o teu graal!
Entrar para os Blogueiros Mirandeses é um prémio que guardo com carinho, no lugar dos meus tesouros. Encanta-me calcorrear caminhos, conhecer a história dos lugares, falar e ouvir a língua da origem de Portugal, a língua do planalto, a língua de "La BOUBA DE LA TENERIE", a língua de "NORTEANDO".
Entrar para os Blogueiros Mirandeses é um prémio que guardo com carinho, no lugar dos meus tesouros. Encanta-me calcorrear caminhos, conhecer a história dos lugares, falar e ouvir a língua da origem de Portugal, a língua do planalto, a língua de "La BOUBA DE LA TENERIE", a língua de "NORTEANDO".
Ainda hoje te fui ver e guardo o teu sorriso, a força do teu
olhar e as palavras que sabes que me fazem bem. Tens tanto para dar e até
parece que dares-te aos outros é o alimento da tua alma.
Ainda hoje me disseste "tens escrito, Teresa?" Não
pares! Os teus upas sempre me aqueceram as palavras.
À saída, Alfredo Cameirão, outro sabido da língua mirandesa
despediu-se assim: escreve, Teresa!
Bem, sendo assim: aqui vai!
ABRAÇO ARROCHADO
Registrar las mies eimoçones ye prolongar l que me dá prazer
ó arrincar de mi todas las agruras. Ye cumo ir al psiquiatra i deixar la
cumbersa scorrer sin trabones.
Hoije fui un de ls dies de registro. Hoije fui-te a dar un
abraço, daqueilhes tous - arrochados -, abraço d'amigo que se quier siempre
acerquita. Nun podie deixar d'ir. Fui até Sendin, la tue tierra, i ancontrei-te
metido nua capa que nunca te tenie bisto. Parecie que deberie benir de ls
afetos que s´ arróchan an las tues palabras. Ancontrei-te arrodeado d'amigos
porque tenes un coraçon de l tamanho de l mundo, adonde cabe siempre mais un.
You sou un daqueilhes que ten l prebileijo de coincer i sentir essa capa
d'amisade. Bien haias!
Ancuntrámos-mos ne l lhugar de ls sonidos de la tierra, un
spácio que te gusta muito. Al passar puls bancos, a las puortas de las casas,
lhembro-me que siempre alhá biste ls amigos que yá partírun cumo you an la mie
rue ( até ls beio al postigo!). Parece que, nesta tarde, ficámos cuntagiados i
mais amigos antre nós, solo por starmos armanados cuntigo, culas lhetras, cula
calor de la sabedorie i de ls afetos.
Desta beç éran "Ditos Dezideiros" que recolhiste
para angrandecires las dues lhénguas de Pertual. Naide pense qu'este paíç terá
l mesmo bigor i cuntenido cultural se nun lhuitar pulas dues, se nun s´
amostrar al mundo na berdade de la sue stória.
Sabemos que l trabalho i la curjidade siempre dou bida i lhuç
al tou mirar, Amadeu Ferreira!
"Nun pares de screbir", dizes-me siempre que mos
falamos. Fico un pouco ambaraçada, mas aguças-me esta buntade, este prazer que
me mexe.
"Esto ye algo sério", teimas an repetir. Na
berdade quando lheio un lhibro tou, ye esso mesmo que sinto; ye l balor
daqueilho que rialmente amporta, un lhegado dun amigo, dun scritor
cuntemporáneo de la nuossa tierra. Ye ua spriéncia tan fuorte que falta fuorça
a las palabras.
"Teresa, quieres pertencer a la quadrilha? -
pregunteste-me un die, solo por sentires l miu aprécio pula lhéngua mirandesa -
l tou "graal"!
Antrar pa ls Blogueiros Mirandeses ye un prémio que guardo
cun carino, ne l lhugar de ls mius tesouros. Ancanta-me calcorrear caminos,
coincer la stória de ls lhugares, falar i oubir la lhéngua de l'ourige de
Pertual, la lhéngua de l praino, la lhéngua de "La BOUBA DE LA
TENERIE", la lhéngua de "NORTEANDO".
Inda hoije te fui a ber i guardo la tue sonrisa, la fuorça
de l tou mirar i las palabras que sabes que me fázen bien. Tenes tanto para dar
i até parece que dares-te als outros ye l'alimiento de la tue alma.
Inda hoije me deziste: tenes scrito, Tresa? Nun pares! Ls
tous upas siempre me calecírun las palabras.
A la salida, Alfredo Cameiron, outro sabido de la lhéngua
mirandesa, çpediu-se assi: scribe, Tresa!
Bien, sendo assi: ende bai!
sábado, 10 de janeiro de 2015
A ARTE É MULTIFACETADA
Doeu-me quando me apagaste,
como se amarrotasses as páginas,
destruísses as lombadas
e conspurcasses os laçarotes;
aqueles que diziam a festa da vida
aqueles que prendiam o carinho
a arte no enrolar de uma fita,
na cor e na textura do tecido,
no brilho solto no detalhe.
como se amarrotasses as páginas,
destruísses as lombadas
e conspurcasses os laçarotes;
aqueles que diziam a festa da vida
aqueles que prendiam o carinho
a arte no enrolar de uma fita,
na cor e na textura do tecido,
no brilho solto no detalhe.
À hora do sol-pôr o botão é ouro,
os berloques são minaretes,
os pormenores são beijos,
poemas a arder no peito.
A arte é multifacetada;
não lhe apagues a graça,
não lhe belisques o estilo,
mesmo que tenhas direito.
os berloques são minaretes,
os pormenores são beijos,
poemas a arder no peito.
A arte é multifacetada;
não lhe apagues a graça,
não lhe belisques o estilo,
mesmo que tenhas direito.
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