quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Despida

Chamaram-me à rua do Carmo
para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
está nu o meu verso, sem arpejo,
a rima anda solta nos poemas que leio,
nos peitoris das janelas que namoram o Tejo,
mesmo que o não vejam.

Cegos os meus versos dão-se aos dedos
para que apertem os desejos e as penas,
deambulem pelas ruas desoladas,
roubem as cordas às guitarras e toquem,
toquem uma melodia que encha as frinchas da noite,
que ressuscitem a trilha e a harmonia,
que encontrem a poesia perdida algures,
despida.

Teresa Almeida Subtil




terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mesmo sabendo que o voo do verso
era inalcançável, vestia-me com a audácia
 de quem desistiu de pontuar as frases.
Sabia que as despias na frescura das águas
que – febris - se precipitavam.
E era sempre uma cumplicidade faminta

a debulhar-se em trechos de íntima ternura.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 24 de outubro de 2015

Amanhecer no Gerês



Ao despertar qualquer varanda é palco de contemplação, um convite à evasão dos sentidos: é o apelo da natureza, é a emoção que nos pendura sobre o verde talhado a várias altitudes, é a neblina matinal que nos toca num arrepio de madrugada.
Não conseguimos ver o rio porque as árvores se lhe entregam e entrelaçam como se fora um romance de encantamentos. Não conseguimos vê-lo, mas ouvimos o seu palpitar impetuoso, o seu cantarolar entre os seixos que vai arredondando em massagens de corrente e vai fazendo caminho na direção de um destino infinito que lhe pertence. Talvez seja esta noção de movimento perene que nos prende ao momento, sabendo que a vida se vai fazendo de pequenos passos e, se não soubermos aproveitá-los, ficaremos com as mãos cheias de coisa nenhuma.
Pressinto um toque romântico que me eriça a pele ao reescrever a poesia do olhar, agora maduro, mas que - aqui - já foi tão verde como as folhas que teimam em manter a tonalidade primaveril ou como os veados que dominam graciosamente a paisagem e desfrutam de total liberdade. Passaram por mim tantas estações, alguns apeadeiros dissonantes, mas é gratificante redescobrir este bosque imaculado. E ao correr da pena deixo cair algumas gotas de orvalho matinal, este pulsar em que me sinto e confundo, como se fosse um pássaro que se enche de audácia e esvoaça para o sítio onde se sente feliz.
As palavras são, assim, esse poleiro de assombros e evasões. É verdade que tropeçamos em estados de alma que nos dizem que somos muito mais que nós mesmos, que não cabemos no sítio onde estamos e, por isso, voamos - nas palavras.

Embrenhados na serra, descobrimos fontes dispersas, pausas revigorantes. Há quem nunca esqueça as sedes da Guiné e vá abraçá-las e desfrutar do seio líquido da terra (a guerra gritará sempre na alma de quem a viveu).
Atrevo-me a dizer que experimentamos uma subtil intimidade com a natureza no rumorejar que nos acompanha, eco de fios de água a serpentear por ali. Parecem tão puros como os sentimentos. Depois, nos meandros da objetiva, surgem azuis intensos, verdadeira alquimia de vida e de amor.
Na serra do Gerês há partes selvagens e intocáveis. Ali a natureza é ela mesma em toda a sua biodiversidade. Sabemos que o parque nacional Peneda Gerês é considerado pela UNESCO como Recurso Mundial da Biosfera.
De facto, é grande a variedade e a riqueza vegetal devido às variações de altitude e às influências oceânica e continental. A cabra, o cavalo e a vaca surgem soltos como companheiros de jornada.
E, de repente, o Outono abre portas, tão lentamente, como se os deuses sussurrassem baixinho um poema escrito em requebros de beleza, um poema que é terra, que é alma, que é vida.
No Gerês experimentamos, também, um sentido duro de existir, ao vacilarmos nas curvas onde o fragaredo se mostra na iminência de ruir. As penhas parecem empurradas, em desequilíbrio permanente, como um país a doer. E dizem que os demónios vociferam em cascatas alucinantes. Debruço-me nos miradouros e deixo-me enfeitiçar. Olho e ouço cantares altivos de montanha e esculturas cinzeladas de espanto.
Por aqui se respira e se entende a presença e a alma poética de Torga:
“Serra!
Há qualquer coisa que em mim se acalma,
Qualquer coisa profunda e dolorida
Traída, Feita de Terra e alma.
 Uma paz de falcão na sua altura
 A medir fronteiras!
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras.”

Parto com fome de voltar, para saborear a magia do amanhecer no Gerês, este desejo insubmisso de acordar em lençóis de neblina, em beijos humedecidos, nesta sensualidade a derramar-se à flor da pele. Parto com uma agradável sensação de leveza, sentindo em pleno o ser físico e espiritual que somos, em qualquer momento e em qualquer lugar.

Teresa Almeida Subtil


(Texto publicado na BIRD MAGAZINE, em 21/10/2015)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Feira do Livro GCM - 2014


Feira de l lhibro

Cheguei al jardin cula nuite a cair i l cielo  a amenaçar mudar a qualquiera momiento, tal cumo la bida: debrebe i resbalina.
Ls lhibros passórun a pertencer àquele lhugar, ls caminos perdírun la dureza i ls passos tornórun-se lhebes, mais lhebes que nunca. Ye siempre esta sensaçon d'ouséncia, de bolo, de star i nun estar. Ye l prazer de me perdir ne l berso solto i a ganhar bida própia - na boç, na spresson, na melodie i na antrega de cada un. Alguien que, por sfregantes, saliu de si i festeijou la palabra amigo. 
L lhibro biaija de mano an mano, i nele l alegrie, la rábia, l amor i l spanto de quien l screbiu. Stou cierta de que, de cada beç q'un lhibro s´abre, s´ ancuontra algo de nuobo i que bamos percebendo la forma cumo l'outor se bai çpindo, debagarico.
 La chuba nun chegou a cair, mas you senti-la nas lhágrimas que derramei por drento, ne l poema que la nuite screbiu i ne l cheiro de cada pétala que guardei ne l peito.

Naquel abraço, scrito i dedicado, seguiu l afeto i la berdade dun sfregante que baliu la pena.


Cheguei ao jardim com a noite a cair e o céu a ameaçar mudar a qualquer momento, tal como a vida: fugidia e imprevisível.
Os livros passaram a pertencer àquele espaço, os caminhos perderam a dureza e os passos tornaram-se leves, mais leves que nunca. É sempre esta sensação de ausência, de voo, de estar e não estar. É o prazer a deambular no verso solto e a ganhar vida própria - na voz, na expressão, na melodia e na entrega de cada um. Alguém que, por momentos, saiu de si e festejou a palavra amigo.  
O livro viaja de mão em mão, e nele a alegria, a raiva, o amor e a perplexidade de quem o escreveu. Estou certa de que, de cada vez que um livro se abre, se encontra algo de novo e que vamos percebendo a forma como o autor se vai despindo, devagarinho.
 A chuva não chegou a cair, mas eu senti-a nas lágrimas que derramei por dentro, no poema que a noite escreveu e no perfume de cada de pétala que guardei no peito.

Naquele abraço, escrito e dedicado, seguiu o afeto e a verdade de um momento que valeu a pena.


Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 29 de julho de 2015


Para quem quiser ser blogueiro, pelo menos um dia.
Para quien quejir ser blogueiro pul menos un die.

Todos serão bem-vindos.
Todos seron bien- benidos.


Blogueiros de l Praino 2015

Astanho será die  22 de Agosto
Na Speciosa

Ide i lhebai amigos, tamien!

A la pormanhana:

Chegada pulas 9 horas an pie de l´Eigreija

Besita guiada a l´aldé i poemas botados al aire, an mirandés, lhionés i asturiano

Pulas 10.30 horas, na Eigreija:

         Dinis Meirinhos- Pequeinho recital de guitarra
                                   Músicas:
                                    Fantasia Húngara i la Catedral

          Dinis Meirinhos ye nieto de la tierra i l pobo será cumbidado a assistir al recital

A las 11 horas, un taquito na casa de la mardoma speciosana i besitas: al sítio dadonde l Citote saliu, al Forno i a la Cruç i Fuonte de l Cereijal. 
Besita a l´Eigreija de l Naso









Pulas 13.30 horas, almuorço ambaixo de ls carbalhos, para se repetir l que fui ne l pormeiro Ancontro de Blogueiros, an 2008.

L armuorço será de chicha assada ne l lhume, a botar fumo eilhi mesmo.

L précio ye 15 ouros
Alhá achemos quien mos faga l almuorço, eilhi mesmo, a las carbalheiras, sien chubida de précio. Nun fumos capazes de l sacar por menos de 15 ouros, por muito que fusse resgatiado an bários sítios.
L que amporta ye que quedemos cuntentos, nós i la cozineira.
Ye serbido pul Malharrés cumo l anho passado.
L rancho:
- Melon cun persunto, selada d´oureilha, selada de garbanços cun atun, tabafeia de Malhadas, assada.
- Chicha de bitela assada alhá, (posta) cun selada i batatas cun tareia
- Bolha doce i selada de fruta
Ls mardomos hán-de lhebar uas lhambiçqueirices para quedarmos cun la boca doce pal café que cad´un pagará na Casa de l Naso.

A la Tarde

La tarde ye na Speciosa que la mardoma speciosana nun fai por menos.

Na ACRS:

Pulas 15 horas, dues palhestras de ua meia hora cada ua, pequeinhas, para que nun mos cansemos i nun mos deia l suonho:

                                  Associaçon Faceira- Pendones de la Nuossa Tierra,
                                                                   cun Ricardo Chao
                                  Associaçon de la Lhéngua i C.M- Carril Mourisco i cruzes deiqui,
                                                                    cun Alcides Meirinhos

Pulas 17 horas, ua merenda cun cousas de la nuossa tierra




Las anscriçones deberan ser feitas até die 20 de Agosto

Para bos assentar:


Eiqui an quementairo
adelaide.monteiro@gmail.com
elf_vlf@hotmail.com ( Tiégui Albes)
918217183- Delaide Monteiro
914748784- Tresa Almeida
     
Lhebai amigos, tamien!!!!
Fazei la nomiada por adonde andebirdes. Isto puode ser ua sementica que ancomeçada a abrolhar an nuobos falantes.


(Querendo podeis buer un cafezico no Naso, antes de ir a caras a la Speciosa, Eiricas abaixo, que alhá só hai apuis d´almuorço. Senó, só apuis cun l taquito na casa de la mardoma).
Bá!, mas puode ser que Nuossa Senhora de la Cunceiçon faga un milagrico pa ls retardatários de café i que amanhe ua fuonte que mane, de l lhado de trás de l´eigreija, a ua selombra de parreira. I digo-bos que si ye buono, que a mi yá me tocou un milagre dessas!
Mas nunca fiando!... Nuossa Senhora puode nun star birada para milagres!!!!!



sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sentir-me poema




Sentir-me poema

ye tener ne l cuorpo este riu, este subressalto, 
este bolo raso de stio
este sentimiento multiplicado, 
esta mágoa rasgada na piel.


Sentir-me poema ye ser esta lhágrima 
que nun me redime, 
esta fragráncia que me apresiona, 
esta chuba que me toma ne ls braços 
i me arrolha l'anquietaçon.

Sentir-me poema ye perder-me 

sin sequiera m' amportar la rezon.



Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Despida






Chamaram-me à rua do Carmo
Para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
Está nu o meu verso, sem arpejo.
A rima anda solta nos poemas que leio
Nos peitoris das janelas que namoram o Tejo
Mesmo que o não vejam.
Cegos os meus versos dão-se aos dedos
Para que apertem os desejos e as penas
E deambulem pelas ruas desoladas
E roubem as cordas às guitarras e toquem
Toquem uma melodia que encha as frinchas da noite
Que ressuscitem a trilha e a harmonia
Que encontrem a poesia perdida algures
Despida.


Teresa Almeida

"Podia ter sido"