segunda-feira, 21 de março de 2016

Mar de bruma

Mar de bruma Se há um mar de bruma em que me sinto envolvida se em secreta harmonia me prendo e suspendo, se a pergunta repetida tem nuances de hora e de partida, se na vida não sei se vou ou se venho, se sou rio a estremecer de encanto e neblina que enlouquece, se sou pura imaginação, se sou palavra, flor matutina com vocação de estrela, se sou alegria e pranto, deslumbramento sem razão, se não encontro a porta de saída, deixo a pergunta mil vezes repetida, deixo a palavra, frágil, toldada e perdida, deixo o beijo e o coração. Mar de nubrina (die de la poesie) S' hai un mar de nubrina an que me sinto arrolhada, s' an secreta harmonie me prendo i suspendo, se la pregunta repetida ten arressaios de chegada i de partida, se na bida nun sei se bou ou se bengo, se sou riu a tembrar d'ancanto i nubrina q' amboubece, se sou pura eimaginaçon, se sou palabra, flor purmeiriça cun bocaçon de streilha, se sou alegrie i pranto, se sou çlumbramiento sin rezon, se nun ancuontro la puorta de salida, deixo la pregunta mil bezes repetida, deixo la palabra, andeble, toldada i perdida, deixo l beiso i l coraçon.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 19 de março de 2016

A meu pai

Quando l riu ten este sereno i esta melodie,
fago de l siléncio un solo arrimo i galgo las arribes
sentindo l sol na piel de cada fruito q'amadurece.
Miro la tue mano a ouferecer-mos aqueilha laranja
d'ambelhigo, de piel fina - acabada d’ apanhar –,
cumo se fura un persente de ls cielos.

Si, ye berdade: manos de pai son manos de Dius.

Teresa Almeida Subtil

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher



Fico a olhar flores, cartas, poemas
e abrir momentos de que o coração se fez guardião.
Fico a saborear a alegria que o poeta canta.
Com gratidão.

Fico a sentir silêncios que ecoam
nos caminhos da dor, do ódio, da raiva,
do olhar alucinado que assalta, à socapa.

E é neste arrepio que a voz grita, desvairada.
Para a defender há um dia feito mulher.
E é pena!

Que não faltem flores, cartas, poemas
e, mais que tudo, momentos de dar e receber.

Teresa Almeida Subtil


terça-feira, 1 de março de 2016

Ua frol para Amadeu Ferreira

Sós aquel que siempre s´ancuontra al mirar
l lhugar adonde las palabras tenen l sonido
de la tierra i de las gientes. L lhugar adonde las palabras
tenen sentido de bida chena a ressumar nua sonrisa,
nua frol a çpuntar nun camino qualquiera de l praino.
Sós aquel que siempre miramos ne l puial
adonde la lhéngua mirandesa relhampeija,
adonde la pessona cuntina a caminar,
cun sereno, norteando ls passos n’ alegrie de bibir.
Sós l poço adonde bamos a buer l que mais amporta,
sós aquel de quien dezimos: que buono haber-te coincido!
Sós aquel que siempre stá anque tengas partido.

Uma flor para Amadeu Ferreira

És aquele que sempre se encontra ao olhar
o lugar onde as palavras têm o som
da terra e das gentes, o lugar onde as palavras
têm sentido de vida plena a assomar-se num sorriso,
numa flor a despontar em qualquer caminho do planalto.
És aquele que sempre vemos no poial
onde a língua mirandesa relampeja,
onde a pessoa continua a caminhar,
serenamente, norteando os passos na alegria de viver.
És o poço onde vamos beber o que mais importa,
és aquele de quem dizemos: que bom ter-te conhecido!
És aquele que sempre está, mesmo que tenhas partido.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Despida

Chamaram-me à rua do Carmo
para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
está nu o meu verso, sem arpejo,
a rima anda solta nos poemas que leio,
nos peitoris das janelas que namoram o Tejo,
mesmo que o não vejam.

Cegos os meus versos dão-se aos dedos
para que apertem os desejos e as penas,
deambulem pelas ruas desoladas,
roubem as cordas às guitarras e toquem,
toquem uma melodia que encha as frinchas da noite,
que ressuscitem a trilha e a harmonia,
que encontrem a poesia perdida algures,
despida.

Teresa Almeida Subtil




terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mesmo sabendo que o voo do verso
era inalcançável, vestia-me com a audácia
 de quem desistiu de pontuar as frases.
Sabia que as despias na frescura das águas
que – febris - se precipitavam.
E era sempre uma cumplicidade faminta

a debulhar-se em trechos de íntima ternura.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 24 de outubro de 2015

Amanhecer no Gerês



Ao despertar qualquer varanda é palco de contemplação, um convite à evasão dos sentidos: é o apelo da natureza, é a emoção que nos pendura sobre o verde talhado a várias altitudes, é a neblina matinal que nos toca num arrepio de madrugada.
Não conseguimos ver o rio porque as árvores se lhe entregam e entrelaçam como se fora um romance de encantamentos. Não conseguimos vê-lo, mas ouvimos o seu palpitar impetuoso, o seu cantarolar entre os seixos que vai arredondando em massagens de corrente e vai fazendo caminho na direção de um destino infinito que lhe pertence. Talvez seja esta noção de movimento perene que nos prende ao momento, sabendo que a vida se vai fazendo de pequenos passos e, se não soubermos aproveitá-los, ficaremos com as mãos cheias de coisa nenhuma.
Pressinto um toque romântico que me eriça a pele ao reescrever a poesia do olhar, agora maduro, mas que - aqui - já foi tão verde como as folhas que teimam em manter a tonalidade primaveril ou como os veados que dominam graciosamente a paisagem e desfrutam de total liberdade. Passaram por mim tantas estações, alguns apeadeiros dissonantes, mas é gratificante redescobrir este bosque imaculado. E ao correr da pena deixo cair algumas gotas de orvalho matinal, este pulsar em que me sinto e confundo, como se fosse um pássaro que se enche de audácia e esvoaça para o sítio onde se sente feliz.
As palavras são, assim, esse poleiro de assombros e evasões. É verdade que tropeçamos em estados de alma que nos dizem que somos muito mais que nós mesmos, que não cabemos no sítio onde estamos e, por isso, voamos - nas palavras.

Embrenhados na serra, descobrimos fontes dispersas, pausas revigorantes. Há quem nunca esqueça as sedes da Guiné e vá abraçá-las e desfrutar do seio líquido da terra (a guerra gritará sempre na alma de quem a viveu).
Atrevo-me a dizer que experimentamos uma subtil intimidade com a natureza no rumorejar que nos acompanha, eco de fios de água a serpentear por ali. Parecem tão puros como os sentimentos. Depois, nos meandros da objetiva, surgem azuis intensos, verdadeira alquimia de vida e de amor.
Na serra do Gerês há partes selvagens e intocáveis. Ali a natureza é ela mesma em toda a sua biodiversidade. Sabemos que o parque nacional Peneda Gerês é considerado pela UNESCO como Recurso Mundial da Biosfera.
De facto, é grande a variedade e a riqueza vegetal devido às variações de altitude e às influências oceânica e continental. A cabra, o cavalo e a vaca surgem soltos como companheiros de jornada.
E, de repente, o Outono abre portas, tão lentamente, como se os deuses sussurrassem baixinho um poema escrito em requebros de beleza, um poema que é terra, que é alma, que é vida.
No Gerês experimentamos, também, um sentido duro de existir, ao vacilarmos nas curvas onde o fragaredo se mostra na iminência de ruir. As penhas parecem empurradas, em desequilíbrio permanente, como um país a doer. E dizem que os demónios vociferam em cascatas alucinantes. Debruço-me nos miradouros e deixo-me enfeitiçar. Olho e ouço cantares altivos de montanha e esculturas cinzeladas de espanto.
Por aqui se respira e se entende a presença e a alma poética de Torga:
“Serra!
Há qualquer coisa que em mim se acalma,
Qualquer coisa profunda e dolorida
Traída, Feita de Terra e alma.
 Uma paz de falcão na sua altura
 A medir fronteiras!
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras.”

Parto com fome de voltar, para saborear a magia do amanhecer no Gerês, este desejo insubmisso de acordar em lençóis de neblina, em beijos humedecidos, nesta sensualidade a derramar-se à flor da pele. Parto com uma agradável sensação de leveza, sentindo em pleno o ser físico e espiritual que somos, em qualquer momento e em qualquer lugar.

Teresa Almeida Subtil


(Texto publicado na BIRD MAGAZINE, em 21/10/2015)

"Podia ter sido"