segunda-feira, 25 de abril de 2016

Abril 2016

Este não é um Abril qualquer,
é memória, dor presente, saudade de futuro,
pássaro a nascer, poesia sempre.
Semeado de liberdade, Abril é ainda uma criança
a sorrir e a esconder-se, descalço e despido, perdido por aí.
Este não é um Abril qualquer,
traz uma mochila como pendão e arrepio de humanidade,
é Abril profundo, fome de mudança e de verdade.
E no olhar poesia, sempre. Mesmo comprimida
em campos de sofrimento, a poesia é sentimento,
pulsar de vida, vontade de sentir e cantar o amor
em cada passo e em cada batida de inquietação.
Abril 2016 (em mirandês)
Este nun ye un Abril qualquiera,
ye mimória, delor persente, soudade de feturo
pássaro a nacer, poesie siempre.
Sembrado de lhibardade, Abril ye ainda un nino
a sunrir i a scunder-se, çcalço i çpido, por ende.
Este nun ye un Abril qualquiera,
trai ua mochila cumo pendon i arrepelo d´houmanidade,
ye Abril perfundo, fame de mudança i de berdade.
I ne l mirar la poesie, siempre. Anque atafanhada
an campos de sofrimiento, la poesie ye sentimiento,
pulsar de bida, gana de sentir i cantar l amor
an cada passo i an cada batida d´anquietaçon.
Teresa Almeida Subtil

Gosto

segunda-feira, 21 de março de 2016

Mar de bruma

Mar de bruma Se há um mar de bruma em que me sinto envolvida se em secreta harmonia me prendo e suspendo, se a pergunta repetida tem nuances de hora e de partida, se na vida não sei se vou ou se venho, se sou rio a estremecer de encanto e neblina que enlouquece, se sou pura imaginação, se sou palavra, flor matutina com vocação de estrela, se sou alegria e pranto, deslumbramento sem razão, se não encontro a porta de saída, deixo a pergunta mil vezes repetida, deixo a palavra, frágil, toldada e perdida, deixo o beijo e o coração. Mar de nubrina (die de la poesie) S' hai un mar de nubrina an que me sinto arrolhada, s' an secreta harmonie me prendo i suspendo, se la pregunta repetida ten arressaios de chegada i de partida, se na bida nun sei se bou ou se bengo, se sou riu a tembrar d'ancanto i nubrina q' amboubece, se sou pura eimaginaçon, se sou palabra, flor purmeiriça cun bocaçon de streilha, se sou alegrie i pranto, se sou çlumbramiento sin rezon, se nun ancuontro la puorta de salida, deixo la pregunta mil bezes repetida, deixo la palabra, andeble, toldada i perdida, deixo l beiso i l coraçon.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 19 de março de 2016

A meu pai

Quando l riu ten este sereno i esta melodie,
fago de l siléncio un solo arrimo i galgo las arribes
sentindo l sol na piel de cada fruito q'amadurece.
Miro la tue mano a ouferecer-mos aqueilha laranja
d'ambelhigo, de piel fina - acabada d’ apanhar –,
cumo se fura un persente de ls cielos.

Si, ye berdade: manos de pai son manos de Dius.

Teresa Almeida Subtil

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher



Fico a olhar flores, cartas, poemas
e abrir momentos de que o coração se fez guardião.
Fico a saborear a alegria que o poeta canta.
Com gratidão.

Fico a sentir silêncios que ecoam
nos caminhos da dor, do ódio, da raiva,
do olhar alucinado que assalta, à socapa.

E é neste arrepio que a voz grita, desvairada.
Para a defender há um dia feito mulher.
E é pena!

Que não faltem flores, cartas, poemas
e, mais que tudo, momentos de dar e receber.

Teresa Almeida Subtil


terça-feira, 1 de março de 2016

Ua frol para Amadeu Ferreira

Sós aquel que siempre s´ancuontra al mirar
l lhugar adonde las palabras tenen l sonido
de la tierra i de las gientes. L lhugar adonde las palabras
tenen sentido de bida chena a ressumar nua sonrisa,
nua frol a çpuntar nun camino qualquiera de l praino.
Sós aquel que siempre miramos ne l puial
adonde la lhéngua mirandesa relhampeija,
adonde la pessona cuntina a caminar,
cun sereno, norteando ls passos n’ alegrie de bibir.
Sós l poço adonde bamos a buer l que mais amporta,
sós aquel de quien dezimos: que buono haber-te coincido!
Sós aquel que siempre stá anque tengas partido.

Uma flor para Amadeu Ferreira

És aquele que sempre se encontra ao olhar
o lugar onde as palavras têm o som
da terra e das gentes, o lugar onde as palavras
têm sentido de vida plena a assomar-se num sorriso,
numa flor a despontar em qualquer caminho do planalto.
És aquele que sempre vemos no poial
onde a língua mirandesa relampeja,
onde a pessoa continua a caminhar,
serenamente, norteando os passos na alegria de viver.
És o poço onde vamos beber o que mais importa,
és aquele de quem dizemos: que bom ter-te conhecido!
És aquele que sempre está, mesmo que tenhas partido.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Despida

Chamaram-me à rua do Carmo
para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
está nu o meu verso, sem arpejo,
a rima anda solta nos poemas que leio,
nos peitoris das janelas que namoram o Tejo,
mesmo que o não vejam.

Cegos os meus versos dão-se aos dedos
para que apertem os desejos e as penas,
deambulem pelas ruas desoladas,
roubem as cordas às guitarras e toquem,
toquem uma melodia que encha as frinchas da noite,
que ressuscitem a trilha e a harmonia,
que encontrem a poesia perdida algures,
despida.

Teresa Almeida Subtil




terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mesmo sabendo que o voo do verso
era inalcançável, vestia-me com a audácia
 de quem desistiu de pontuar as frases.
Sabia que as despias na frescura das águas
que – febris - se precipitavam.
E era sempre uma cumplicidade faminta

a debulhar-se em trechos de íntima ternura.

Teresa Almeida Subtil

"Podia ter sido"