quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Se eu pudesse!

Foto de Fernanda Chumbo.


Ah! se eu pudesse abandonar o castelo
construir defesas a meu jeito, saltar as ameias
do teu peito, libertar medos e anseios,
chorar entre a multidão tudo o que tenho direito,
descer a rua, erguida, de lampião na mão!

Se eu pudesse soltar pardais na escuridão,
deixar sem guarida a ambição desmedida,
fazer a fogueira na praça, cumprir o ritual
do solstício de Inverno, esconjurar o mal
e mandar para o inferno todo o ato desumano!

Se eu pudesse fazer da noite de fim de ano
um cântico de renovação que iluminasse
a madrugada gelada e se no grito que erguesse
arrancasse de raiz o que a razão não adormece!

Ah! se eu pudesse!

sábado, 31 de dezembro de 2016

Um braçado de rosas

Para ti, Ana Maria, um braçado de rosas.
Toquei-lhe ao de leve, numa carícia de fim de tarde, como se a lua se desenhasse na janela, mesmo atrás da brancura das ondas que a embelezavam. Nem sei se me pressentiu, ela que era pluma e alegria esfuziante, jeito brincalhão e modo esvoaçante de caminhar. Lembrou-me outra que me prendeu o olhar na caixa do supermercado com um adeus de “A insustentável leveza do ser”. Toda enrugada, mas de uma elegância a toda a prova (oitenta e tais). À saída, reparei que conduzia um carro espetacular, sozinha. Tocou-me esse momento!
Ana Maria levava sempre um pau, mas parecia que era para fazer desenhos pelo ar que respirava. Às vezes levava um beijo de gratidão só pela forma como me surpreendia. Bailava na expressão. “Todos os dias bato à porta da sua mãe para ver se está bem”, dizia-me. Já na aldeia, a vizinha Céu, batia e entrava. Isto de querer bem passa muito pelas atitudes. Ana Maria parecia sentir sempre o meu adeus de despedida. Era irresistível da minha parte, assim como a troca dos sorrisos. Às vezes ajudava-me com a língua mirandesa. Maravilhosas partilhas! Era amiga.
Há dias já não chegava à garrafa de água que tinha tão perto! E foi-se despedindo, tão breve como uma rosa no Inverno. Chegou ao fim de 2016.
No Lar da Senhora do Monte sentia-se bem, como se a fonte de vida estivesse ali ao pé, onde o Fernando cultiva as mais belas rosas das redondezas. Um utente que se fez jardineiro talvez por vocação ou destino poético. Conheci-o sempre solícito, prestável. Às vezes roubo-lho uma rosa e mistura-a com as minhas para oferecer aos amigos virtuais. Na verdade, bastava uma para mudar a face da casa, mas há quem muito lhe queira.
 Para ti, querida Ana Maria, escrevo e sinto nas palavras o perfume das rosas do Lar da Senhora do Monte.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Asas Brancas


Por herança umas asas brancas,
asas que um poeta me deu.

Recordo que acreditava no voo,
mesmo não sabendo do poeta nem da herança.
Recordo-me de voar as primeiras escadas
que não sabia descer. Morava alto.
Qualquer dificuldade me traz ainda este voo
sem sobressalto. “Era tudo tão verdade!”
Confundia o sonho com a realidade,
mas sabia que tinha asas  e podia
voar as escarpas de um reino que não cabia em mim.

Em Aleppo, pássaros, tão verdes como eu fui,
acreditavam e sonhavam que a terra
era abrigo e poderia ser um poema de amor.
Mas afinal os passos são fontes de lágrimas
derramadas, sem caminho.
e só pedem ao mundo a devida proteção,
um pouco de carinho..

Quando falamos em bocas sem pão,
revolta-se o estômago, vomitam-se vitupérios
contra os que lhes roubam o próprio chão.
Até a alegria perdeu a razão,
o azul, mesmo no céu, tem rasgões vermelhos
e o chão, meu Deus, só tem pés a correr
sem saberem para onde vão.

A visão e o comando estão armados,
o diálogo é uma bala qualquer
e as luzes da cidade são lágrimas
a cair de árvores atrecidas.

Que o Inverno traga asas brancas
e a paz seja um lírio a rebentar
num sonho destroçado.
Que as palavras de revolta
sejam dilúvio a sarar feridas
e os gritos do planeta ecoem no firmamento.
Que o Natal seja nascimento e verdade
no coração da humanidade.

Teresa Subtil​
(Recordando Almeida Garrett)

sábado, 10 de dezembro de 2016

Quando te li

Quando te li
já tinhas passado por muitos poemas
E nem sabia se o que lia me pertencia
Mas a ilusão preenche vazios e perdas
E há azuis  intensos nos versos que te fiz

Quando te li
Trazias lábios de surpresa e mãos de pressa.
Traços leves e penas de ave inquieta.
Olhar de seda e mar de cetim
Foi por ti que no verso me deitei
E senti o toque primeiro, a melodia

O universo nas asas da poesia 

Teresa Subtil

sábado, 3 de dezembro de 2016

Deixemos fluir

http://birdmagazine.blogspot.pt/2016/12/deixemos-fluir.html?spref=fb

DEIXEMOS FLUIR

TERESA ALMEIDA SUBTIL
Ontem, dia da Independência, olho, mais atentamente, a espada de El Cid, pendurada, carinhosamente, junto à porta de entrada. Um amigo trouxe-a um dia. Veio de longe, de propósito, e nem sequer se demorou. O tempo comia-lhe os passos, mas quis deixar um pouco de alma. É a espada do herói a que é afeito, de Burgos, a sua terra. Esta ideia de pertença a todo o mundo faz todo o sentido, através dos valores, da cultura e de algo primordial: a amizade. Chega a ser surreal uma espada ser símbolo de amizade. Mas tu ficaste na lâmina, no punho e na arte de quem ama a luta para fazer a paz – junto à porta de entrada ou de saída (talvez apenas de passagem- como a vida). Vieste e ficaste numa história de largos sorrisos, de cumplicidades e de lutas por um mundo melhor. Um gesto que traz à memória o tempo em que Miranda do Douro e Aranda de Duero viviam o auge da geminação e construíam pontes de cultura e desenvolvimento. Quantas vezes saltámos um rio que nos une, um salto num espaço que sempre foi nosso, apesar das fronteiras, apesar das hegemonias, apesar dos assaltos, apesar dos heróis nascidos nos altares. Também a língua nos foi berço e, se atentarmos que o mirandês é hoje entendido por 800 milhões de almas, como defendem alguns estudos iniciados por Amadeu Ferreira, percebemos a riqueza desta abrangência cultural.

Não te vejo, mas estás porque sabes estar. Ser amigo é dar a espada de despedaçar medos, sejam de que ordem forem. E se a fera vier pela calada da noite saberemos dobrar-lhe a sagacidade do olhar, porque a selva é em qualquer momento e em qualquer lugar (poderá ser esta uma das mensagens que quiseste deixar). Sempre perscrutei um potencial mundo num objeto singular, como um livro que nos viaja . E se viemos dos confins da desordem, como conheceremos os caminhos infinitos que nos habitam? Cada vez sabemos menos, é verdade, mas uma espada pode ser um pequeno nada que, à entrada da porta, nos aporta a imensidão do que não sabemos, mas do que sentimos. E o medo sai, assim, pela porta e pela palavra. Deixemos fluir! dizia Jorge Nuno, outro amigo que, por aqui (Bird Magazine), vai semeando pérolas.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016



Que trago?

… e o copo estava ali…
para trás as castanhas, a brasa,
o licor a repousar na adega 
a data, a hora, a etiqueta, a amora silvestre  …
até a laranja do pomar se remeteu
ao silêncio do inverno nas arribas.

Como disseste  em verso etílico e breve :
 deixa o açúcar
e percebe como arde um cálice de aguardente!
É verdade. Basta um trago
para silenciar a estridência das castanhas
e saborear as linhas de
um poema secreto.

E o copo é o corpo e a vida a passar
e o sabor vai tão depressa
que o corpo e a alma se deixam
plasmar de plenitude.

A beleza do copo é sentimental,
a antiguidade do balcão e a garrafa do canto
têm igual valor

e há palavras que me vestiste  
que se recusam a envelhecer.

Teresa Subtil


domingo, 6 de novembro de 2016

Reflexo


Na mesma sede caminhávamos:
o passo na cadência do desejo,
o corpo nervoso balançado
nos contornos do abraço
e a noite a fazer-se alvorada do olhar.
Era fremente o desejo de ficar.
Havia missangas a abrir caminhos
e no peito botões a saltar.
Era a poesia a acontecer
e a febre de a escrever na pele,
de a dizer no beijo.
Éramos reflexo de fonte,
sede a crescer na noite.

Teresa Almeida Subtil

"Podia ter sido"