terça-feira, 17 de janeiro de 2017
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Al tou lhume
Nun era l reissenhor de Florbela,
mas toda la nuite cantou,
melodie nun sustenida
que l biolino tocou.
Soában uocas las palabras,
geladas i sien cherume,
talbeç só l sonido tenga altura
de me poner al tou lhume
an terrena partitura.
Teresa Subtil
A teu lado
Não
era o rouxinol de Florbela,
mas
toda a noite cantou,
melodia
não traduzida,
que o
violino tocou.
Soavam
ocas as palavras,
frias
e sem significado,
talvez
só o som tenha altura
de me
colocar a teu lado
em
terrena partitura.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Se eu pudesse!

Ah! se eu
pudesse abandonar o castelo
construir
defesas a meu jeito, saltar as ameias
do teu
peito, libertar medos e anseios,
chorar
entre a multidão tudo o que tenho direito,
descer a
rua, erguida, de lampião na mão!
Se eu
pudesse soltar pardais na escuridão,
deixar sem
guarida a ambição desmedida,
fazer a
fogueira na praça, cumprir o ritual
do
solstício de Inverno, esconjurar o mal
e mandar
para o inferno todo o ato desumano!
Se eu pudesse
fazer da noite de fim de ano
um cântico
de renovação que iluminasse
a madrugada
gelada e se no grito que erguesse
arrancasse
de raiz o que a razão não adormece!
Ah! se eu
pudesse!
sábado, 31 de dezembro de 2016
Um braçado de rosas
Para ti, Ana Maria, um braçado de rosas.
Toquei-lhe ao de leve, numa carícia de fim de tarde, como se a lua se desenhasse na janela, mesmo atrás da brancura das ondas que a embelezavam. Nem sei se me pressentiu, ela que era pluma e alegria esfuziante, jeito brincalhão e modo esvoaçante de caminhar. Lembrou-me outra que me prendeu o olhar na caixa do supermercado com um adeus de “A insustentável leveza do ser”. Toda enrugada, mas de uma elegância a toda a prova (oitenta e tais). À saída, reparei que conduzia um carro espetacular, sozinha. Tocou-me esse momento!
Ana Maria levava sempre um pau, mas parecia que era para fazer desenhos pelo ar que respirava. Às vezes levava um beijo de gratidão só pela forma como me surpreendia. Bailava na expressão. “Todos os dias bato à porta da sua mãe para ver se está bem”, dizia-me. Já na aldeia, a vizinha Céu, batia e entrava. Isto de querer bem passa muito pelas atitudes. Ana Maria parecia sentir sempre o meu adeus de despedida. Era irresistível da minha parte, assim como a troca dos sorrisos. Às vezes ajudava-me com a língua mirandesa. Maravilhosas partilhas! Era amiga.
Há dias já não chegava à garrafa de água que tinha tão perto! E foi-se despedindo, tão breve como uma rosa no Inverno. Chegou ao fim de 2016.
No Lar da Senhora do Monte sentia-se bem, como se a fonte de vida estivesse ali ao pé, onde o Fernando cultiva as mais belas rosas das redondezas. Um utente que se fez jardineiro talvez por vocação ou destino poético. Conheci-o sempre solícito, prestável. Às vezes roubo-lho uma rosa e mistura-a com as minhas para oferecer aos amigos virtuais. Na verdade, bastava uma para mudar a face da casa, mas há quem muito lhe queira.
Para ti, querida Ana Maria, escrevo e sinto nas palavras o perfume das rosas do Lar da Senhora do Monte.
Ana Maria levava sempre um pau, mas parecia que era para fazer desenhos pelo ar que respirava. Às vezes levava um beijo de gratidão só pela forma como me surpreendia. Bailava na expressão. “Todos os dias bato à porta da sua mãe para ver se está bem”, dizia-me. Já na aldeia, a vizinha Céu, batia e entrava. Isto de querer bem passa muito pelas atitudes. Ana Maria parecia sentir sempre o meu adeus de despedida. Era irresistível da minha parte, assim como a troca dos sorrisos. Às vezes ajudava-me com a língua mirandesa. Maravilhosas partilhas! Era amiga.
Há dias já não chegava à garrafa de água que tinha tão perto! E foi-se despedindo, tão breve como uma rosa no Inverno. Chegou ao fim de 2016.
No Lar da Senhora do Monte sentia-se bem, como se a fonte de vida estivesse ali ao pé, onde o Fernando cultiva as mais belas rosas das redondezas. Um utente que se fez jardineiro talvez por vocação ou destino poético. Conheci-o sempre solícito, prestável. Às vezes roubo-lho uma rosa e mistura-a com as minhas para oferecer aos amigos virtuais. Na verdade, bastava uma para mudar a face da casa, mas há quem muito lhe queira.
Para ti, querida Ana Maria, escrevo e sinto nas palavras o perfume das rosas do Lar da Senhora do Monte.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Asas Brancas
Por herança umas asas brancas,
asas que um poeta me deu.
Recordo que acreditava no voo,
mesmo não sabendo do poeta nem da herança.
Recordo-me de voar as primeiras escadas
que não sabia descer. Morava alto.
Qualquer dificuldade me traz ainda este voo
sem sobressalto. “Era tudo tão verdade!”
Confundia o sonho com a realidade,
mas sabia que tinha asas e podia
voar as escarpas de um reino que não cabia em mim.
Em Aleppo, pássaros, tão verdes como eu fui,
acreditavam e sonhavam que a terra
era abrigo e poderia ser um poema de amor.
Mas afinal os passos são fontes de lágrimas
derramadas, sem caminho.
e só pedem ao mundo a devida proteção,
um pouco de carinho..
Quando falamos em bocas sem pão,
revolta-se o estômago, vomitam-se vitupérios
contra os que lhes roubam o próprio chão.
Até a alegria perdeu a razão,
o azul, mesmo no céu, tem rasgões vermelhos
e o chão, meu Deus, só tem pés a correr
sem saberem para onde vão.
A visão e o comando estão armados,
o diálogo é uma bala qualquer
e as luzes da cidade são lágrimas
a cair de árvores atrecidas.
Que o Inverno traga asas brancas
e a paz seja um lírio a rebentar
num sonho destroçado.
Que as palavras de revolta
sejam dilúvio a sarar feridas
e os gritos do planeta ecoem no firmamento.
Que o Natal seja nascimento e verdade
no coração da humanidade.
Teresa Subtil
(Recordando Almeida Garrett)
sábado, 10 de dezembro de 2016
Quando te li
Quando
te li
já
tinhas passado por muitos poemas
E nem
sabia se o que lia me pertencia
Mas a
ilusão preenche vazios e perdas
E há
azuis intensos nos versos que te fiz
Quando
te li
Trazias
lábios de surpresa e mãos de pressa.
Traços
leves e penas de ave inquieta.
Olhar
de seda e mar de cetim
Foi
por ti que no verso me deitei
E
senti o toque primeiro, a melodia
O
universo nas asas da poesia
Teresa Subtil
sábado, 3 de dezembro de 2016
Deixemos fluir
http://birdmagazine.blogspot.pt/2016/12/deixemos-fluir.html?spref=fb
DEIXEMOS FLUIR
![]() |
| TERESA ALMEIDA SUBTIL |
Ontem, dia da Independência, olho, mais atentamente, a espada de El Cid, pendurada, carinhosamente, junto à porta de entrada. Um amigo trouxe-a um dia. Veio de longe, de propósito, e nem sequer se demorou. O tempo comia-lhe os passos, mas quis deixar um pouco de alma. É a espada do herói a que é afeito, de Burgos, a sua terra. Esta ideia de pertença a todo o mundo faz todo o sentido, através dos valores, da cultura e de algo primordial: a amizade. Chega a ser surreal uma espada ser símbolo de amizade. Mas tu ficaste na lâmina, no punho e na arte de quem ama a luta para fazer a paz – junto à porta de entrada ou de saída (talvez apenas de passagem- como a vida). Vieste e ficaste numa história de largos sorrisos, de cumplicidades e de lutas por um mundo melhor. Um gesto que traz à memória o tempo em que Miranda do Douro e Aranda de Duero viviam o auge da geminação e construíam pontes de cultura e desenvolvimento. Quantas vezes saltámos um rio que nos une, um salto num espaço que sempre foi nosso, apesar das fronteiras, apesar das hegemonias, apesar dos assaltos, apesar dos heróis nascidos nos altares. Também a língua nos foi berço e, se atentarmos que o mirandês é hoje entendido por 800 milhões de almas, como defendem alguns estudos iniciados por Amadeu Ferreira, percebemos a riqueza desta abrangência cultural.
Não te vejo, mas estás porque sabes estar. Ser amigo é dar a espada de despedaçar medos, sejam de que ordem forem. E se a fera vier pela calada da noite saberemos dobrar-lhe a sagacidade do olhar, porque a selva é em qualquer momento e em qualquer lugar (poderá ser esta uma das mensagens que quiseste deixar). Sempre perscrutei um potencial mundo num objeto singular, como um livro que nos viaja . E se viemos dos confins da desordem, como conheceremos os caminhos infinitos que nos habitam? Cada vez sabemos menos, é verdade, mas uma espada pode ser um pequeno nada que, à entrada da porta, nos aporta a imensidão do que não sabemos, mas do que sentimos. E o medo sai, assim, pela porta e pela palavra. Deixemos fluir! dizia Jorge Nuno, outro amigo que, por aqui (Bird Magazine), vai semeando pérolas.
Publicada por Ricardo Pinto à(s) sexta-feira, dezembro 02, 2016
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