Por herança umas asas brancas,
asas que um poeta me deu.
Recordo que acreditava no voo,
mesmo não sabendo do poeta nem da herança.
Recordo-me de voar as primeiras escadas
que não sabia descer. Morava alto.
Qualquer dificuldade me traz ainda este voo
sem sobressalto. “Era tudo tão verdade!”
Confundia o sonho com a realidade,
mas sabia que tinha asas e podia
voar as escarpas de um reino que não cabia em mim.
Em Aleppo, pássaros, tão verdes como eu fui,
acreditavam e sonhavam que a terra
era abrigo e poderia ser um poema de amor.
Mas afinal os passos são fontes de lágrimas
derramadas, sem caminho.
e só pedem ao mundo a devida proteção,
um pouco de carinho..
Quando falamos em bocas sem pão,
revolta-se o estômago, vomitam-se vitupérios
contra os que lhes roubam o próprio chão.
Até a alegria perdeu a razão,
o azul, mesmo no céu, tem rasgões vermelhos
e o chão, meu Deus, só tem pés a correr
sem saberem para onde vão.
A visão e o comando estão armados,
o diálogo é uma bala qualquer
e as luzes da cidade são lágrimas
a cair de árvores atrecidas.
Que o Inverno traga asas brancas
e a paz seja um lírio a rebentar
num sonho destroçado.
Que as palavras de revolta
sejam dilúvio a sarar feridas
e os gritos do planeta ecoem no firmamento.
Que o Natal seja nascimento e verdade
no coração da humanidade.
Teresa Subtil
(Recordando Almeida Garrett)