segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

De passagem

Se o caminho é traço
à altura da emoção,
ressurge, inesperadamente,
e qualquer passo
pode ser emergente humildade do olhar.
Só aí é que lhe medimos a intensidade
e percebemos a incisão grave num desenho
por acabar. E a humidade
é sentimento que assalta a viagem
e vai escrevendo percursos de imaginação.
Estamos de passagem
e nem sempre temos coragem
nem arte para pintar a festa
onde baila o coração.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O riso da tarde



Amo livre o pensamento 
em cada ciclo de ave,
em cada asa perdida,
em cada voo que não cabe
num trilho que me é escasso,
enquanto infinito brilha.

É por estes encantos que o rio serpenteia
e deixa perene o rasto e a partida.

E eu beijo a pedra que assim me fala
e a pele que renasce nas mãos do tempo.

Beijo a palavra que assim te diz,
beijo a geada, o sol, o vento

e o riso da tarde que hoje me quis.    

La risa de la tarde

Amo lhibre l pensar 
an cada tiempo d'abe,
an cada ala perdida,
an cada bolo que nun cabe
nun camino que me ye scasso,
anquanto anfenito relhuç.

Ye por estes ancantos que l riu quelubreia
i deixa frime l rastro i la partida

I you beiso la piedra q'assi me fala
i la piel que renace nas manos de l tiempo.

Beiso la palabra q'assi te diç,
beiso la gelada, l sol i l aire

i la risa de la tarde q'hoije me quijo.     
   

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Al tou lhume

Nun era l reissenhor de Florbela,
mas toda la nuite cantou,
melodie nun sustenida
que l biolino tocou.
Soában uocas las palabras,
geladas i sien cherume, 
talbeç só l sonido tenga altura
de me poner al tou lhume
an terrena partitura.


Teresa Subtil

A teu lado
Não era o rouxinol de Florbela,
mas toda a noite cantou,
melodia não traduzida,
que o violino tocou.
Soavam ocas as palavras,
frias e sem significado,
talvez só o som tenha altura
de me colocar a teu lado
em terrena partitura.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Se eu pudesse!

Foto de Fernanda Chumbo.


Ah! se eu pudesse abandonar o castelo
construir defesas a meu jeito, saltar as ameias
do teu peito, libertar medos e anseios,
chorar entre a multidão tudo o que tenho direito,
descer a rua, erguida, de lampião na mão!

Se eu pudesse soltar pardais na escuridão,
deixar sem guarida a ambição desmedida,
fazer a fogueira na praça, cumprir o ritual
do solstício de Inverno, esconjurar o mal
e mandar para o inferno todo o ato desumano!

Se eu pudesse fazer da noite de fim de ano
um cântico de renovação que iluminasse
a madrugada gelada e se no grito que erguesse
arrancasse de raiz o que a razão não adormece!

Ah! se eu pudesse!

sábado, 31 de dezembro de 2016

Um braçado de rosas

Para ti, Ana Maria, um braçado de rosas.
Toquei-lhe ao de leve, numa carícia de fim de tarde, como se a lua se desenhasse na janela, mesmo atrás da brancura das ondas que a embelezavam. Nem sei se me pressentiu, ela que era pluma e alegria esfuziante, jeito brincalhão e modo esvoaçante de caminhar. Lembrou-me outra que me prendeu o olhar na caixa do supermercado com um adeus de “A insustentável leveza do ser”. Toda enrugada, mas de uma elegância a toda a prova (oitenta e tais). À saída, reparei que conduzia um carro espetacular, sozinha. Tocou-me esse momento!
Ana Maria levava sempre um pau, mas parecia que era para fazer desenhos pelo ar que respirava. Às vezes levava um beijo de gratidão só pela forma como me surpreendia. Bailava na expressão. “Todos os dias bato à porta da sua mãe para ver se está bem”, dizia-me. Já na aldeia, a vizinha Céu, batia e entrava. Isto de querer bem passa muito pelas atitudes. Ana Maria parecia sentir sempre o meu adeus de despedida. Era irresistível da minha parte, assim como a troca dos sorrisos. Às vezes ajudava-me com a língua mirandesa. Maravilhosas partilhas! Era amiga.
Há dias já não chegava à garrafa de água que tinha tão perto! E foi-se despedindo, tão breve como uma rosa no Inverno. Chegou ao fim de 2016.
No Lar da Senhora do Monte sentia-se bem, como se a fonte de vida estivesse ali ao pé, onde o Fernando cultiva as mais belas rosas das redondezas. Um utente que se fez jardineiro talvez por vocação ou destino poético. Conheci-o sempre solícito, prestável. Às vezes roubo-lho uma rosa e mistura-a com as minhas para oferecer aos amigos virtuais. Na verdade, bastava uma para mudar a face da casa, mas há quem muito lhe queira.
 Para ti, querida Ana Maria, escrevo e sinto nas palavras o perfume das rosas do Lar da Senhora do Monte.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Asas Brancas


Por herança umas asas brancas,
asas que um poeta me deu.

Recordo que acreditava no voo,
mesmo não sabendo do poeta nem da herança.
Recordo-me de voar as primeiras escadas
que não sabia descer. Morava alto.
Qualquer dificuldade me traz ainda este voo
sem sobressalto. “Era tudo tão verdade!”
Confundia o sonho com a realidade,
mas sabia que tinha asas  e podia
voar as escarpas de um reino que não cabia em mim.

Em Aleppo, pássaros, tão verdes como eu fui,
acreditavam e sonhavam que a terra
era abrigo e poderia ser um poema de amor.
Mas afinal os passos são fontes de lágrimas
derramadas, sem caminho.
e só pedem ao mundo a devida proteção,
um pouco de carinho..

Quando falamos em bocas sem pão,
revolta-se o estômago, vomitam-se vitupérios
contra os que lhes roubam o próprio chão.
Até a alegria perdeu a razão,
o azul, mesmo no céu, tem rasgões vermelhos
e o chão, meu Deus, só tem pés a correr
sem saberem para onde vão.

A visão e o comando estão armados,
o diálogo é uma bala qualquer
e as luzes da cidade são lágrimas
a cair de árvores atrecidas.

Que o Inverno traga asas brancas
e a paz seja um lírio a rebentar
num sonho destroçado.
Que as palavras de revolta
sejam dilúvio a sarar feridas
e os gritos do planeta ecoem no firmamento.
Que o Natal seja nascimento e verdade
no coração da humanidade.

Teresa Subtil​
(Recordando Almeida Garrett)

"Podia ter sido"