segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

L mais guapo cantar


Pinta-me hoije culs uolhos que tenies,
çliza l sol nas bordas de l miu cuorpo,
dá-me l gusto de la tua boca na mie,
guarda la quelor na poçanquita de l miu rostro
i canta-me baixico l mais guapo cantar.

Pinta-me hoije de poesie zlida,
fai-me hourizonte, lhinha perdida,
i na binha que plantemos al pie de l mar
derrama tou prazer, ben cumo benies,
ne l tiempo de soletrar la palabra florida,
fuolha branca i lhisa, chelubrina de l maçanal.

Pinta-me hoije i fai-me diusa,
solo cielo, solo airico. Amor miu.
Ben pintar quelores que l'ourora deixou
an l'ourbalheira de ls tous beisos ne ls mius.

Pinta-me hoije cumo Ban Gogh pintou 
l'azul que nun smoreciu.



O mais belo cantar

Pinta-me hoje com os olhos que tinhas,
desliza o sol nos contornos do meu corpo,
dá-me o gosto da tua boca na minha,
acentua o tom na cova do meu rosto
e sussurra-me o mais belo cantar.

Pinta-me hoje de poesia delida,
faz-me horizonte, linha perdida,
e na vinha que plantámos ao pé do mar,
esbanja teu gozo, vem como vinhas,
no tempo de soletrar a palavra florida,
folha branca e lisa, cotovia do pomar

Pinta-me hoje e faz-me deusa,
apenas céu, apenas brisa. Amor meu.
Vem pintar nuances que a aurora deixou
no orvalho dos teus beijos nos meus.

Pinta-me hoje como Van Gogh pintou
o azul que não esmoreceu.

Teresa Almeida Subtil


domingo, 5 de fevereiro de 2017

https://www.youtube.com/results?search_query=chuva+de+jorge+fernando



Passas de saudade

Cheguei derrotada, passa em pão enrugada,
vim, fora de horas, mas de propósito para te dizer
que a chuva me bate no peito clássica e bravia
melodia tardia que a saudade permite acontecer.

É sempre aguda e fria a fresta que o livro
abre de memória e a nossa história é de cumplicidade.
A ausência é trovão que vem de longe e se derrete.
No pão a passa acrescenta o calor da amizade
e a manteiga que sabor! Essa nunca vem tarde.

A chuva lava-me o rosto, e o café que aroma!
deixo a torneira correr, chávena cheia, e o mel é a tua palavra
sussurrada na minha, gosto e carícia que apetece.

As passas são baladas de amigo na minha boca,
a mente enleia o tempo e o vento sopra molhado.
Vou pelo monte como a Jane Eyre da minha adolescência,
sem óculos, cabelos esvoaçantes a chispar clarões.
com ela perdi o medo e a trovoada é som que me passeia.

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

De passagem

Se o caminho é traço
à altura da emoção,
ressurge, inesperadamente,
e qualquer passo
pode ser emergente humildade do olhar.
Só aí é que lhe medimos a intensidade
e percebemos a incisão grave num desenho
por acabar. E a humidade
é sentimento que assalta a viagem
e vai escrevendo percursos de imaginação.
Estamos de passagem
e nem sempre temos coragem
nem arte para pintar a festa
onde baila o coração.

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O riso da tarde



Amo livre o pensamento 
em cada ciclo de ave,
em cada asa perdida,
em cada voo que não cabe
num trilho que me é escasso,
enquanto infinito brilha.

É por estes encantos que o rio serpenteia
e deixa perene o rasto e a partida.

E eu beijo a pedra que assim me fala
e a pele que renasce nas mãos do tempo.

Beijo a palavra que assim te diz,
beijo a geada, o sol, o vento

e o riso da tarde que hoje me quis.    

La risa de la tarde

Amo lhibre l pensar 
an cada tiempo d'abe,
an cada ala perdida,
an cada bolo que nun cabe
nun camino que me ye scasso,
anquanto anfenito relhuç.

Ye por estes ancantos que l riu quelubreia
i deixa frime l rastro i la partida

I you beiso la piedra q'assi me fala
i la piel que renace nas manos de l tiempo.

Beiso la palabra q'assi te diç,
beiso la gelada, l sol i l aire

i la risa de la tarde q'hoije me quijo.     
   

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Al tou lhume

Nun era l reissenhor de Florbela,
mas toda la nuite cantou,
melodie nun sustenida
que l biolino tocou.
Soában uocas las palabras,
geladas i sien cherume, 
talbeç só l sonido tenga altura
de me poner al tou lhume
an terrena partitura.


Teresa Subtil

A teu lado
Não era o rouxinol de Florbela,
mas toda a noite cantou,
melodia não traduzida,
que o violino tocou.
Soavam ocas as palavras,
frias e sem significado,
talvez só o som tenha altura
de me colocar a teu lado
em terrena partitura.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Se eu pudesse!

Foto de Fernanda Chumbo.


Ah! se eu pudesse abandonar o castelo
construir defesas a meu jeito, saltar as ameias
do teu peito, libertar medos e anseios,
chorar entre a multidão tudo o que tenho direito,
descer a rua, erguida, de lampião na mão!

Se eu pudesse soltar pardais na escuridão,
deixar sem guarida a ambição desmedida,
fazer a fogueira na praça, cumprir o ritual
do solstício de Inverno, esconjurar o mal
e mandar para o inferno todo o ato desumano!

Se eu pudesse fazer da noite de fim de ano
um cântico de renovação que iluminasse
a madrugada gelada e se no grito que erguesse
arrancasse de raiz o que a razão não adormece!

Ah! se eu pudesse!

"Podia ter sido"