sábado, 1 de abril de 2017

Chamam-lhe Ribeirica.



Por ali se saboreavam as iguarias da terra. Lembro-me, particularmente, dos ovos verdes da avó Angelina e dos peixinhos da ribeira do avô António (recheados de carinho) a saírem das cestas de vime. Pressinto que, agora, nos fazemos ao caminho e voltamos às nesgas de praia do rio Maçãs para revivermos o cálido sabor das antigas tardes de romarias e encontros de família.

E tu andas por ali, recolhido, morto de saudades, nos sítios onde o rio se faz criança e brinca, mostra o leito e salta as pedras redondas e macias.
Chamam-lhe Ribeirica, deram-lhe nome de mulher. Mais acima, o Colado.
E no teu olhar, perturbado, ainda mergulho. Nos teus silêncios, profundos, ainda transpareço. E salto contigo.
Só quem te ama entende: não pode ser um rio qualquer aquele que te viu crescer.


No quintal há, agora, uma pedra (raiana) que o rio amou, junto ao freixo de geração espontânea. Quando a Primavera a abraça, é ali que saboreio o café matinal, como se fosse o lugar mais alto do mundo. E então, na intimidade do silêncio, nasce um murmúrio de ribeirica a saltitar. Chego a sentir os pés molhados.


Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 20 de março de 2017

Poesia de baloiço

COMEMORAÇÕES DO DIA MUNDIAL DA ÁRVORE
E DIA MUNDIAL DA POESIA




A melodia da passarada é sempre nova.
Já havia uma brancura a brilhar junto à árvore,
parecia espreitar as brincadeiras.
Era o primeiro malmequer!
Vi-o e amei-o ao saltar
e não me saiu do pensamento.

Desenhei-o num papel e escrevi-lhe segredos.
Pintei-o às escondidas, entre as corridas
que não queria perder. Levei-o para casa.
Minha avó espreitou, gostou e perguntou:
é para mim, meu amor? E assim, esta flor,
tão singela e bravia, tinha as cores do dia
e por dentro a beleza do sol e do amor.

De repente tive outra ideia:
e se eu pintasse outro malmequer para o meu avô?
E para os meus amigos?’ Ah! meus queridos,
naquela folha branca e limpa parecia
rebentar a verdadeira Primavera. Festiva.
O sol acertou-lhe em cheio e o tom do meio
mostra agora o riso dos meninos no recreio.

E eu a correr como se voasse e criança fosse.
Sou avó. Já fui menina, professora,
mas apetece-me saltar e dançar como antes.
E ser primavera em cada gargalhada.
E flor de amendoeira branca e rosada
que a pomba trouxe no bico para entrar na roda.

Este esplendor que a natureza tece. Ah! como me apetece!
E sinto-me coroada de pétalas, cabelos soltos e perfumados.
Que o vento é apenas brisa, melodia e encantamento.
Todos os sentidos são ritmo no corpo de uma criança.
Que seria de tanta beleza sem os sons da natureza?
Onde guardaremos o silêncio? E a alegria? E a dança?

Vamos plantar árvores, aquelas que enfeitam o Natal
e se enchem de bolas vermelhas no rigor do Inverno,
e nogueiras para termos nozes ao serão, à lareira.
E durante todo o ano serão abrigo e encanto da pardalada.

E os patos lá no lago a deslizarem sem mácula,
como se o mundo lhes pertencesse. E pertence.
Será que espreitam as águas profundas,
a calmaria e o mundo de cada ser que as habita?
Diria que a felicidade é esta primavera a acontecer,
hoje e aqui, se a soubermos sentir.

E eu não sou eu
se não for onda roubada ao mar alto a desfalecer
e a beijar cada nesga de praia à beira-rio plantada.
E se não for voo de ave que o rio quer beber.

A poesia é vida, é tudo e nada, é o olhar que alcanças,
o sonho em que baloiças e os laços em que te soltas.
E ao entardecer pinta de novo, que a primavera continua
em todo o lado. Levanta o olhar e faz de conta,
sente a festa no céu, morna e avermelhada,
como se o dia fosse arder em beijos de despedida.
E a lua, feiticeira, começa a desenhar-se
e fica à tua beira como se te embalasse.



Teresa Almeida Subtil
20.03.2017

Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro

domingo, 12 de março de 2017

Flor d´alva

11.03.2017 Município de Miranda Douro

                                
Deixem-nos em paz! disseste-me um dia.
Hoje não quero ver-te.
Fiquei sem retorno,
vestida de noite dentro do dia.
Perdida na dor que nos destroçava,
deixei-me morrer ali mesmo,
naquela passada.

Visto-me hoje de flor d´alva,
saída assim, despida, do corpo de minha mãe,
despida ela também, de confusões e artifícios,
vestida apenas de amor profundo.
Mulher foi meu destino e a poesia tempero,
meu mundo, sempre de partida.

É tempo de camélias no pino do Inverno,
de ar frio, arrepio de força e cor.
poema, vigor na luta
até que não faça sentido
falar de igualdade de género.

A rajada pode destruir
ou fazer eclodir a força de natureza-mulher,
a que se deslumbra e não se deixa vencer
a que semeia alertas para que o vento
não derrube árvores feridas.
E cada pétala abrirá e murchará a seu tempo
e cada saraivada será alento para nova caminhada.

Visto-me hoje de flor d´alva.
E de fogo. E de amor. Sempre.
Em ti, mulher, raia a alvorada.

Teresa Almeida Subtil

Ao violino Luis Velho


sábado, 4 de março de 2017

Minha fantasia


De flor matutina a rosa bravia,
de feixe à cabeça em qualquer esquina.
Terna fantasia. És ainda raio, recorte de lua,
perfume jasmim, trança de menina.
És verso do pomar com sabor a lima.
Janela indiscreta, incêndio do olhar.
E minha pele é tua sina.
E do horizonte a única linha é abraço inteiro,
canto marinheiro no fio do dia.
A palavra é tua e de quem te ama.
E se encanto houvera em hora tardia,
da terra sairia poesia em chama.
Teresa Subtil

Miu delareio

De frol d´alba a rosa brabie,
de feixe a la cabeça an qualquiera squinica.
Ameroso delareio. Sós inda centeilha, cachico de lhuna,
prefume jasmin, trança de nina.
Sós berso de l maçanal cun gusto a lhima.
Jinela andiscreta, lhume de l mirar
La mie piel ye la tue sina.
I de l'hourizonte ua só lhinha ye abraço anteiro,
 canto marineiro ne l filo de l die.
La palabra ye tue i de quien te ama.
I se ancanto houbira an hora tardie,
de la tierra salirie, poesie an chama.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Manhã ribeirinha 

Quero o vento que te passeia. Só meu.
E o aroma que nos enlaça. O espaço e o tempo.
E a pele do dia amaciada na clareira que a chuva abriu.

Quero-te assim. Desassossego na manhã ribeirinha,
pensamento e ardor do sussurro que se avizinha.
E o beijo meu íntimo labirinto.

Pianinho quero o som que desfolha os sentidos
e a árvore cativa
que sombreia o detalhe e a intensidade.

E a manhã é apenas esta nota, este breve sentimento,
que acende a melodia e o borbulhar da sede.

Teresa Almeida Subtil



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

L mais guapo cantar


Pinta-me hoije culs uolhos que tenies,
çliza l sol nas bordas de l miu cuorpo,
dá-me l gusto de la tua boca na mie,
guarda la quelor na poçanquita de l miu rostro
i canta-me baixico l mais guapo cantar.

Pinta-me hoije de poesie zlida,
fai-me hourizonte, lhinha perdida,
i na binha que plantemos al pie de l mar
derrama tou prazer, ben cumo benies,
ne l tiempo de soletrar la palabra florida,
fuolha branca i lhisa, chelubrina de l maçanal.

Pinta-me hoije i fai-me diusa,
solo cielo, solo airico. Amor miu.
Ben pintar quelores que l'ourora deixou
an l'ourbalheira de ls tous beisos ne ls mius.

Pinta-me hoije cumo Ban Gogh pintou 
l'azul que nun smoreciu.



O mais belo cantar

Pinta-me hoje com os olhos que tinhas,
desliza o sol nos contornos do meu corpo,
dá-me o gosto da tua boca na minha,
acentua o tom na cova do meu rosto
e sussurra-me o mais belo cantar.

Pinta-me hoje de poesia delida,
faz-me horizonte, linha perdida,
e na vinha que plantámos ao pé do mar,
esbanja teu gozo, vem como vinhas,
no tempo de soletrar a palavra florida,
folha branca e lisa, cotovia do pomar

Pinta-me hoje e faz-me deusa,
apenas céu, apenas brisa. Amor meu.
Vem pintar nuances que a aurora deixou
no orvalho dos teus beijos nos meus.

Pinta-me hoje como Van Gogh pintou
o azul que não esmoreceu.

Teresa Almeida Subtil


domingo, 5 de fevereiro de 2017

https://www.youtube.com/results?search_query=chuva+de+jorge+fernando



Passas de saudade

Cheguei derrotada, passa em pão enrugada,
vim, fora de horas, mas de propósito para te dizer
que a chuva me bate no peito clássica e bravia
melodia tardia que a saudade permite acontecer.

É sempre aguda e fria a fresta que o livro
abre de memória e a nossa história é de cumplicidade.
A ausência é trovão que vem de longe e se derrete.
No pão a passa acrescenta o calor da amizade
e a manteiga que sabor! Essa nunca vem tarde.

A chuva lava-me o rosto, e o café que aroma!
deixo a torneira correr, chávena cheia, e o mel é a tua palavra
sussurrada na minha, gosto e carícia que apetece.

As passas são baladas de amigo na minha boca,
a mente enleia o tempo e o vento sopra molhado.
Vou pelo monte como a Jane Eyre da minha adolescência,
sem óculos, cabelos esvoaçantes a chispar clarões.
com ela perdi o medo e a trovoada é som que me passeia.

Teresa Almeida Subtil


"Podia ter sido"