domingo, 4 de março de 2018

Beijos pendurados

Soube que me escreveras pelos beijos cristalinos
pendurados do correio. A caixa permanecia fechada.
O portão não abria. Na espera cristalizou-se o tempo.
E as lágrimas caíam. Os poetas deliraram e corriam
a comer as sílabas que, do céu, tombavam.

Atapetado o jardim que, um dia, de verde se vestira,
sossegava na alvura macia da noite.
E a paz do silêncio era cortada por abraços gelados.
Céu e terra.

De tanto desejar marquei meu passo
na tua exuberância imaculada.
E fiz a festa. E saboreei-te neve fria.
E cometi plágio de vibração e fantasia.

Teresa Almeida Subtil
28.02.2018




Para Olinda Melo

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Barca dos sentidos/La Barca de ls sentidos

A barca dos sentidos

É quando a canção ganha ritmo
que o chão treme e o olhar foge,
o pensar é ave sem ninho
e os sonhos asas quebradiças
árvores a entardecer ao de leve.

O rio, esse, é ímpeto, poesia,
aperto, margem,
profundidade da sede
e impetuosidade do sentir.

 Eu não sei agarrar a nota perfeita
 nem o trilho, nem o lugar
nem sequer a barca onde
as sombras crescem esbatidas
e as cores dos versos sobem
nas rugas que a saudade escreve
e no medo que o dia se entregue
aos sonhos que ardem devagarinho
sem a dor da melodia que se extingue,
sem o fragor do poema por acabar.

Sou tema que o rio desbrava,
palavra insegura,
arisca canção de embarcar.



La barca de ls sentidos (mirandés)

Ye quando la moda ganha baláncio
que l suolo tembra i l mirar se scapa,
l pensar ye abe sien nial
i ls suonhos alas andebles
arbles a antardecer a pouco i pouco.

L riu, esse, ye apego, einergie,
aperto, borda, fundura de la sede
ye la poesie de l sentir.

You nun sei agarrar la nota porfeita
nien l lhugar
nien sequiera la barca adonde
las selombras médran zlidas
i las quelores de ls bersos chúben
nas angúrrias que la soudade scribe
i ne l miedo que l die s’antregue
als suonhos q'árden debagarico
sien l delor de la melodie que se apaga,
sien la fuorça de l poema por acabar.

Sou tema que l riu zbraba,
palabra sien arrimo,
spúria cantiga d'ambarcar.

Teresa Almeida Subtil
(in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O buraco da moura










O lugar era corpo inteiro. Alvoroço dos sentidos.
E a canícula do dia era ali que se despia.
Ao fundo a cicatriz e a sede. Santa a fonte,
incrustada no fragaredo. Eu apenas espreitava
a gruta profunda e escura. Amava a melodia
daquele fio de água. E a ternura tresmalhada.

E quando a tarde amolecia perdidamente
e os acepipes atiçavam a vontade, era ali
que se degustavam os melhores frutos do mundo.
Douro naturalmente. Nem os deuses resistiam.

E o verso é agora regresso, fralda de memória.
Desafio incontido. Vinho desarrolhado.
Mistério decantado. Linho estendido. Brancura imaculada.
Paz e espada. É fim de jornada, seda e frescura.

Pele macia, aveludada. Perfume e flor do dia.

Teresa Almeida Subtil

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Proximidade / Achego


Proximidade

A música da palavra já era minha,                                                
o romance escrevia-se no vento
e o tempo entre nós tinha paladar
bebido a tragos de sofreguidão,
pensamento que o verão despia,
rio inteiro de entrega e poesia.

Ah! E aquela passada apaixonada
melodia, anúncio, proximidade.
Não direi que foi a noite mais bela
mas aquela em que senti estrelas
massajando meu corpo dourado,
corpo desperto num desejo louco.

Mais intenso, só aquele beijo,
aquela noite, aquele lugar,
arrepio do primeiro toque
incêndio do primeiro olhar,
e um desejo infernal de ficar.

  
Achego

La música de la palabra yá era mie,
L remanse screbie-se ne l aire
i l tiempo antre nós tenie gusto,
buído cun gana zmedida,
pensar que l berano znudaba
riu anteiro d'antrega i poesie.

Ah! I aqueilha chancada apaixonada
melodie, anúncio, achego.
Nun dezirei que fui la nuite mais guapa,
mas aqueilha an que senti streilhas
dondiando l miu cuorpo dourado,
cuorpo spertado nun deseio boubo.

Mais fuorte, só aquel beiso,
aqueilha nuite, aquel lhugar,
arrepelo de l purmeiro topar
ancéndio de l purmeiro mirar,





i ua gana anfernal de quedar.

Teresa Almeida Subtil

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Poesia de cave




Eu até me atrevia a dizer o poema. O tal que se entrelaçava nas cores da noite e refulgia intenso como a chama que ardia no meu copo. E da chuva miudinha inventada em resquícios de partitura.
O tal que tinha a espessura do chocolate negro que saboreava.
Eu até me atrevia. A poesia que saía da luz do canto era evaporada, intensa. Elixir e agrura do dia a dia. Mas passava as galáxias. Malha fina, escrita com as vísceras e a alma que não sabemos onde fica, mas que vibrava nos olhos da escuridão. Poesia de cave. Escrita com o corpo inteiro. Passos andados. Poetas consagrados. E as guitarras, por ali, eram afinadas no verso mais arrepiado.
Eu até me atrevia, mas o farragacho que trazia perdeu alturas. A bateria foi esmorecendo …
E na mochila que havia? Medicamentos que o otorrino me receitara. Nem a alminha dum poema. Coisa rara!
De cor? Essa ardeu na fogueira. Já não a procuro. Está tão entranhada que não é fácil desarrolhá-la. Como o casaco quentinho e solto de traça antiga que a Isa adora de paixão. Ainda tem a assinatura do coração. Faltava o “Rive Gauche” que provocou tantos arrebatamentos. A essência ainda se pressentia na palavra.
Cantei, a medo. Baixinho. Fiz parte do coro. E senti a vibração da poesia que não disse, mas que poderia crescer, por ali …
Aromática 
Erva cidreira


Teresa Almeida Subtil
em "Pinguim Café"
22.01.2018

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A meus netos

Como um livro que ao vento se desfolha E folha a folha se oferece e surpreende. Como riso que levita e outras vezes Lágrimas verte e brasa acende.
Já não se ouve o arrulho no pombal Nem as corridas escada abaixo, escada acima. Mas sinto a toada que me cresceu O rio, o monte, o sonho e eu E do salgueiro a impetuosidade.
Palpita de novo a alma do alpendre Desafios maternos, infinitos verbos. Nua, a grade resistiu E à intimidade do tempo confiou Novas sementeiras.
E meu livro é minha escolha Meu rio, minha folha, meu desejo Que dedilho na inquieta pele da palavra.
Em meu regaço renasce o espanto dos pardais O encanto do universo e da poesia azul Quadro que festejo beijo a beijo.
Teresa Almeida Subtil

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Somos bando ( para Alice Queiroz)



Chamaram-te os teus olhos e e o teu sorriso.
Viste-me perdida.

Entrei no bar como poetisa atrevida, em concurso.
Noite dentro. Sozinha.
E tu, andorinha arribada. Eras graça, ninho aberto
E e no teu bico as flores eram versos
Que não te atrevias a partilhar. Recheados de candura.

O teu bando foi crescendo, com naturalidade
E alegria E o abraço de um retalho de céu.
Perdoavas-me as ausências “vens de longe, Teresa!”

Éramos do bando, dos afetos e dos jardins perfumados.
E da poesia que as andorinhas escreviam nos beirais, fio a fio.
E o meu voo ao teu ficou abraçado.

Partiste, mas a andorinha pequenina, de asas brancas, esvoaça na sala
Ainda.
Asas que me ofereceste. Sorriso celeste. Poesia inacabada.

Teresa Almeida Subtil

Mãe, estou aqui!