Eu até me atrevia a dizer o poema. O tal que se entrelaçava nas cores da noite e refulgia intenso como a chama que ardia no meu copo. E da chuva miudinha inventada em resquícios de partitura.
O tal que tinha a espessura do chocolate negro que saboreava.
Eu até me atrevia. A poesia que saía da luz do canto era evaporada, intensa. Elixir e agrura do dia a dia. Mas passava as galáxias. Malha fina, escrita com as vísceras e a alma que não sabemos onde fica, mas que vibrava nos olhos da escuridão. Poesia de cave. Escrita com o corpo inteiro. Passos andados. Poetas consagrados. E as guitarras, por ali, eram afinadas no verso mais arrepiado.
Eu até me atrevia, mas o farragacho que trazia perdeu alturas. A bateria foi esmorecendo …
E na mochila que havia? Medicamentos que o otorrino me receitara. Nem a alminha dum poema. Coisa rara!
De cor? Essa ardeu na fogueira. Já não a procuro. Está tão entranhada que não é fácil desarrolhá-la. Como o casaco quentinho e solto de traça antiga que a Isa adora de paixão. Ainda tem a assinatura do coração. Faltava o “Rive Gauche” que provocou tantos arrebatamentos. A essência ainda se pressentia na palavra.
Cantei, a medo. Baixinho. Fiz parte do coro. E senti a vibração da poesia que não disse, mas que poderia crescer, por ali …
Como um livro que ao vento se desfolha
E folha a folha se oferece e surpreende.
Como riso que levita e outras vezes
Lágrimas verte e brasa acende.
Já não se ouve o arrulho no pombal
Nem as corridas escada abaixo, escada acima.
Mas sinto a toada que me cresceu
O rio, o monte, o sonho e eu
E do salgueiro a impetuosidade.
Palpita de novo a alma do alpendre
Desafios maternos, infinitos verbos.
Nua, a grade resistiu
E à intimidade do tempo confiou
Novas sementeiras.
E meu livro é minha escolha
Meu rio, minha folha, meu desejo
Que dedilho na inquieta pele da palavra.
Em meu regaço renasce o espanto dos pardais
O encanto do universo e da poesia azul
Quadro que festejo beijo a beijo.