quarta-feira, 21 de março de 2018

Corpo de amendoeira / Cuorpo d'almendreira



 Meus braços expandem estrelas
E teus lábios breves e intensos
São violinos vermelhos
Suspensos.


Brancos são os versos do meu peito
Rasgando o espaço.

E num lapso de tempo
Pétalas entontecidas bailam na ladeira.
Rejuvenescida.

O amor é volateio. Poesia em mim
Ave e corpo de amendoeira
Chilreio de ti.

Cuorpo d'almendreira (mirandés)


 Ls mius braços sbolácian streilhas
 I ls tous suables lhábios
 Son biolinos burmeilhos
 Sustenidos.


 Brancos son ls bersos de l miu peito
 Resgando l spácio.


 I nun cachico de tiempo
 Pétalas amboubecidas beilan na cuosta.
 Remoçada.



L'amor ye sbolácio. Poesie an mi
 Abe i cuorpo d'almendreira
 cantigas de ti.

Teresa Almeida Subtil 


domingo, 18 de março de 2018

E tudo isto o ser humano consente ...


De repente … a imagem atravessa-me a mente 
E a culpa nunca nos pertence.
São mesas requintadas 
e fartura sem limites.
São paramentos dourados e crianças tristes.
Desertos de sede e de fome.
Desespero. Crianças-esqueletos deambulando
Sem nome.
Só areia e pedras. E sofrimento.
O caos da inteligência. A desumanidade.

A imagem atravessa-me a mente.
Onde estão as palavras selvagens
As bandeiras da liberdade?
A vontade de desarmamento?
E os exterminadores de inocentes?
Palavras não chegam, nem correntes, nem orações.
Está visto.

A imagem atravessa-me a mente.
Onde estão os poderosos e os milhões?
O povo não percebe. 
O povo não sabe. 
Exige-se ação, paz e pão.
E não saímos disto.

Teresa Almeida Subtil


quinta-feira, 8 de março de 2018

O fogo pertence-nos




Está frio. Acendes a lareira e as brasas
Emanam tal magia que o Inverno
É apenas melodia. Sente-se-lhe o rugido.
E neste rigor sobe o calor nos teus braços.
O fogo pertence-nos.

A lareira é o centro. E a mulher
Dá o toque e a graça. É a que se rasga
E traz a vida em si. É ventre. É casa.
A que se move porque a música existe.
Rio de luz que a percorre e sente. É plena.
É pétala e saia de linho. E arca de afetos.

É o xaile negro. A escarpa. E a neve que se derrete
E perde os limites. E em impossíveis acredita.
A que agarra a felicidade
No instante em que o passo resvala.
A que te rouba o coração e o deixa livre.
É a lareira acesa e o instante que nos cega.


L fuogo pertence-mos (mirandés)

Fai friu. Acendes l lhume i las brasas
Reçúman tal magie que l Ambierno
Ye solo melodie. Sinte-se-le l rugido.
I nesta friaige chube la calor ne ls tous braços.

L fuogo pertence-mos.

L lhume ye l centro. I la mulhier
Dá l toque i la grácia. Ye la que se resga
I trai la bida an si. Ye bientre. Ye casa.
La que se mexe porque la música eisiste.
Riu de lhuç que la percuorre i sinte.
Ye pétala i saia de lhino. I arca de carinos.

Ye l xal negro. La scarpa. I la niebe que se çfai.
I perde ls lhemites. I an ampossibles acradita.
La q'agarra la felcidade
Ne l sfergante an que l passo resbala.
La que te rouba l coraçon i l deixa lhibre.

Ye l lhume aceso i l sfergante que mos cega.

Teresa Almeida Subtil

domingo, 4 de março de 2018

Beijos pendurados

Soube que me escreveras pelos beijos cristalinos
pendurados do correio. A caixa permanecia fechada.
O portão não abria. Na espera cristalizou-se o tempo.
E as lágrimas caíam. Os poetas deliraram e corriam
a comer as sílabas que, do céu, tombavam.

Atapetado o jardim que, um dia, de verde se vestira,
sossegava na alvura macia da noite.
E a paz do silêncio era cortada por abraços gelados.
Céu e terra.

De tanto desejar marquei meu passo
na tua exuberância imaculada.
E fiz a festa. E saboreei-te neve fria.
E cometi plágio de vibração e fantasia.

Teresa Almeida Subtil
28.02.2018




Para Olinda Melo

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Barca dos sentidos/La Barca de ls sentidos

A barca dos sentidos

É quando a canção ganha ritmo
que o chão treme e o olhar foge,
o pensar é ave sem ninho
e os sonhos asas quebradiças
árvores a entardecer ao de leve.

O rio, esse, é ímpeto, poesia,
aperto, margem,
profundidade da sede
e impetuosidade do sentir.

 Eu não sei agarrar a nota perfeita
 nem o trilho, nem o lugar
nem sequer a barca onde
as sombras crescem esbatidas
e as cores dos versos sobem
nas rugas que a saudade escreve
e no medo que o dia se entregue
aos sonhos que ardem devagarinho
sem a dor da melodia que se extingue,
sem o fragor do poema por acabar.

Sou tema que o rio desbrava,
palavra insegura,
arisca canção de embarcar.



La barca de ls sentidos (mirandés)

Ye quando la moda ganha baláncio
que l suolo tembra i l mirar se scapa,
l pensar ye abe sien nial
i ls suonhos alas andebles
arbles a antardecer a pouco i pouco.

L riu, esse, ye apego, einergie,
aperto, borda, fundura de la sede
ye la poesie de l sentir.

You nun sei agarrar la nota porfeita
nien l lhugar
nien sequiera la barca adonde
las selombras médran zlidas
i las quelores de ls bersos chúben
nas angúrrias que la soudade scribe
i ne l miedo que l die s’antregue
als suonhos q'árden debagarico
sien l delor de la melodie que se apaga,
sien la fuorça de l poema por acabar.

Sou tema que l riu zbraba,
palabra sien arrimo,
spúria cantiga d'ambarcar.

Teresa Almeida Subtil
(in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O buraco da moura










O lugar era corpo inteiro. Alvoroço dos sentidos.
E a canícula do dia era ali que se despia.
Ao fundo a cicatriz e a sede. Santa a fonte,
incrustada no fragaredo. Eu apenas espreitava
a gruta profunda e escura. Amava a melodia
daquele fio de água. E a ternura tresmalhada.

E quando a tarde amolecia perdidamente
e os acepipes atiçavam a vontade, era ali
que se degustavam os melhores frutos do mundo.
Douro naturalmente. Nem os deuses resistiam.

E o verso é agora regresso, fralda de memória.
Desafio incontido. Vinho desarrolhado.
Mistério decantado. Linho estendido. Brancura imaculada.
Paz e espada. É fim de jornada, seda e frescura.

Pele macia, aveludada. Perfume e flor do dia.

Teresa Almeida Subtil

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Proximidade / Achego


Proximidade

A música da palavra já era minha,                                                
o romance escrevia-se no vento
e o tempo entre nós tinha paladar
bebido a tragos de sofreguidão,
pensamento que o verão despia,
rio inteiro de entrega e poesia.

Ah! E aquela passada apaixonada
melodia, anúncio, proximidade.
Não direi que foi a noite mais bela
mas aquela em que senti estrelas
massajando meu corpo dourado,
corpo desperto num desejo louco.

Mais intenso, só aquele beijo,
aquela noite, aquele lugar,
arrepio do primeiro toque
incêndio do primeiro olhar,
e um desejo infernal de ficar.

  
Achego

La música de la palabra yá era mie,
L remanse screbie-se ne l aire
i l tiempo antre nós tenie gusto,
buído cun gana zmedida,
pensar que l berano znudaba
riu anteiro d'antrega i poesie.

Ah! I aqueilha chancada apaixonada
melodie, anúncio, achego.
Nun dezirei que fui la nuite mais guapa,
mas aqueilha an que senti streilhas
dondiando l miu cuorpo dourado,
cuorpo spertado nun deseio boubo.

Mais fuorte, só aquel beiso,
aqueilha nuite, aquel lhugar,
arrepelo de l purmeiro topar
ancéndio de l purmeiro mirar,





i ua gana anfernal de quedar.

Teresa Almeida Subtil

Adágio