terça-feira, 1 de maio de 2018

Ró ... Ró ...



 Deixo a porta escancarada. E as rosas abertas.
Traço letras na pressa e no arrepio da ternura.
Aguardo a tua chegada.

Tens apenas dias de vida e eu asas nos pés.
Bailo sempre que a melodia me entra na pele
E se repercute em sentimento. Espicaçado.
Baile d´alma. Melodia e verso. Recomeço.

És de ouro, meu menino, como tudo o que o amor toca.
E quando da tua boca saírem os primeiros acordes,
eu estarei com o coração no picão onde alto sonhei.
Somos da terra, somos nós. E o cordão que vida te deu
À terra desceu. Maio floriu em nós. António, meu amor.

Bailo. Bailo e canto. Aguardo a tua chegada.
E mesmo que cantar não saiba,
És melodia e verso, meu menino.
Sou berço, abraço de avó.
Ró … ró…


Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 25 de abril de 2018


Liberdade

Diz-se Abril como canto, como verso
Como vento que perpassa
Ou cravo de inspiração
Que se abre na praça.

E esta flor de laranjeira e a romã do paraíso
Olhar inteiro que comungo
Contigo. 

Diz-se Abril redenção
E mundo. Travo de mágoa, pauta incerta
Caudal que arrebata e estremece.

Diz-se Abril liberdade
Erva do caminho que se levanta
E floresce.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 21 de abril de 2018

Vem, meu amor!




Viajar é ler da forma mais palpável,
com a intensidade dos sentimentos
 a arrepiar a pele,
com os sabores, os cheiros
e as cores na sua verdadeira ilusão.
Eu viajo-te em cada dia,
meu rio de perdição.
Sinto o percurso das tuas mãos.
Só elas conhecem o caminho
onde o calor é mais intenso.
Só elas sabem o sabor dos frutos maduros
e a hora certa de os colher.
Qualquer dia, qualquer hora, vem!
Quando as estrelas brilharem
para os lados do poente,
vem, meu amor!
Quando a enchente transformar
as margens em violinos
e a minha voz for apenas um acorde 
quando a nossa hora se fizer,
Vem, meu amor!
Vem, meu amor!

Teresa Almeida Subtil



sábado, 7 de abril de 2018

Meu planalto


Foto de Fórum Carviçais.

O planalto é um olhar quase reto,
cruzado no apeadeiro da estação.
É um comboio lento,
ausente no trilho, veloz na imaginação.
Vagões de incertezas..
Cardos no caminho.

O planalto é um trotear de cavalos no meu peito.
Verdes prados. Brisa sussurrante...
É este jeito de asa a esvoaçar
olhar inflamado, arribas de audácia
e picões de medo.

É o som suave do teu passo
a descer o degrau do tempo,
comboio lento
onde geme o sinal de partida.

Teresa Almeida Subtil
(Foto de Sandro Duarte)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Não é coisa pouca / Nun ye cousa pouca



Sei que sabes porque escrevo,
quando em mim acorda a manhã
e espreito o mundo a nascer de novo,

Conheci o desnorte à saída do ninho
e um rio a correr-me dos olhos,
um rio de ânsias e inquietudes
um rio por onde me escapulia
e morria de saudades.
De aconchego e de segredo,
levava os livros na pasta.

Endureci e bendigo a coragem, o corte,
o desapego, o arranque das plumas.
Percebi que é na dor e na precipitação
que o credo ganha força,
e que em caminho minado, dá-se a volta,
como em tango desesperado.

Viver não é coisa pouca.

Quando no peito o calor deflagra,
abrem-se melodias, caminhos de prazer,
compassos de dança,
que as palavras se atrevem a dizer.

Pode ser revolta ou descontrole, mas escrever
é sempre a hora, o desanuviamento, o salto,
o encontro.

Sei que sabes que escrever
é uma urgência, um ato de amor.



Nun ye cousa pouca

Sei que sabes porque scribo,
quando an mi acorda la manhana
i spreito l mundo a nacer de nuobo,

Coinci l znorte a la salida de l nial

i un riu a correr-me de ls uolhos,
un riu d´ánsias i termientas,
un riu por adonde me scapulhie
i morrie de soudades.
D'arrolho i de segredo,
lhebaba ls lhibros na pasta

Andureci i bendigo la coraige, l corte,
l zapego, l'arranque de las prumas.
Percebi que ye ne l delor i na precepitaçon
Que el acraditar ganha fuorça,
i q'an camino minado, dá-se la buolta,
cumo an tango zesperado.

Bibir nun ye cousa pouca

Quando ne l peito la calor abrolha,
Hai caminos q´ábren melodies,
caminos de prazer, cumpassos de dança,
que las palabras s´astrében a dezir.

Puode ser rebuolta ou çcuntrole, mas screbir
ye siempre l'hora, l zanubiamento, l salto,
l'ancuontro.

Sei que sabes que screbir
ye ua ourgéncia, un ato d'amor

Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 21 de março de 2018

Corpo de amendoeira / Cuorpo d'almendreira



 Meus braços expandem estrelas
E teus lábios breves e intensos
São violinos vermelhos
Suspensos.


Brancos são os versos do meu peito
Rasgando o espaço.

E num lapso de tempo
Pétalas entontecidas bailam na ladeira.
Rejuvenescida.

O amor é volateio. Poesia em mim
Ave e corpo de amendoeira
Chilreio de ti.

Cuorpo d'almendreira (mirandés)


 Ls mius braços sbolácian streilhas
 I ls tous suables lhábios
 Son biolinos burmeilhos
 Sustenidos.


 Brancos son ls bersos de l miu peito
 Resgando l spácio.


 I nun cachico de tiempo
 Pétalas amboubecidas beilan na cuosta.
 Remoçada.



L'amor ye sbolácio. Poesie an mi
 Abe i cuorpo d'almendreira
 cantigas de ti.

Teresa Almeida Subtil 


domingo, 18 de março de 2018

E tudo isto o ser humano consente ...


De repente … a imagem atravessa-me a mente 
E a culpa nunca nos pertence.
São mesas requintadas 
e fartura sem limites.
São paramentos dourados e crianças tristes.
Desertos de sede e de fome.
Desespero. Crianças-esqueletos deambulando
Sem nome.
Só areia e pedras. E sofrimento.
O caos da inteligência. A desumanidade.

A imagem atravessa-me a mente.
Onde estão as palavras selvagens
As bandeiras da liberdade?
A vontade de desarmamento?
E os exterminadores de inocentes?
Palavras não chegam, nem correntes, nem orações.
Está visto.

A imagem atravessa-me a mente.
Onde estão os poderosos e os milhões?
O povo não percebe. 
O povo não sabe. 
Exige-se ação, paz e pão.
E não saímos disto.

Teresa Almeida Subtil


Mãe, estou aqui!