segunda-feira, 21 de maio de 2018



O murmúrio dos líquenes

É quando os passos seguem a memória
Que o olhar se exalta num mar tranquilo
E o trilho se faz florindo.
E cada toque de mão
É pétala abrindo ao arfar do coração.
Cativo.

E em caminho esquivo e tempo espúrio
É firme a rocha que se abre ao solfejo.
O lugar é peito que se expande e arde.
E é de desejo que os líquenes se agarram
E os lábios se abrem.

Liberta-se maio, murmúrio antigo
Aqui retemperado e festivo.



Teresa Almeida Subtil
(Casa de Chá da Boa Nova)



sexta-feira, 11 de maio de 2018

Palavras Selvagens





Palavras Servagens

Somos cor e pele, fragas expostas
Aos raios de sol e de lua.
E pelas geadas reluzimos mocidade.
Ainda que rugosas.

Tocamos caminhos desafiantes
E o sentido não tem perigo
Se tivermos asas no pensamento
E do vento a cumplicidade.

Sorve-se o instante, joga-se o olhar
E as contas são de vida e fantasia.
E de neve os passadiços.
Escorregadios anos.

As palavras partem selvagens
A planar esculturas, sentinelas do tempo.
Aragem do verso que se prende
E ousadia de ave que o rio bebe.

Teresa Almeida subtil

terça-feira, 1 de maio de 2018

Ró ... Ró ...



 Deixo a porta escancarada. E as rosas abertas.
Traço letras na pressa e no arrepio da ternura.
Aguardo a tua chegada.

Tens apenas dias de vida e eu asas nos pés.
Bailo sempre que a melodia me entra na pele
E se repercute em sentimento. Espicaçado.
Baile d´alma. Melodia e verso. Recomeço.

És de ouro, meu menino, como tudo o que o amor toca.
E quando da tua boca saírem os primeiros acordes,
eu estarei com o coração no picão onde alto sonhei.
Somos da terra, somos nós. E o cordão que vida te deu
À terra desceu. Maio floriu em nós. António, meu amor.

Bailo. Bailo e canto. Aguardo a tua chegada.
E mesmo que cantar não saiba,
És melodia e verso, meu menino.
Sou berço, abraço de avó.
Ró … ró…


Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 25 de abril de 2018


Liberdade

Diz-se Abril como canto, como verso
Como vento que perpassa
Ou cravo de inspiração
Que se abre na praça.

E esta flor de laranjeira e a romã do paraíso
Olhar inteiro que comungo
Contigo. 

Diz-se Abril redenção
E mundo. Travo de mágoa, pauta incerta
Caudal que arrebata e estremece.

Diz-se Abril liberdade
Erva do caminho que se levanta
E floresce.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 21 de abril de 2018

Vem, meu amor!




Viajar é ler da forma mais palpável,
com a intensidade dos sentimentos
 a arrepiar a pele,
com os sabores, os cheiros
e as cores na sua verdadeira ilusão.
Eu viajo-te em cada dia,
meu rio de perdição.
Sinto o percurso das tuas mãos.
Só elas conhecem o caminho
onde o calor é mais intenso.
Só elas sabem o sabor dos frutos maduros
e a hora certa de os colher.
Qualquer dia, qualquer hora, vem!
Quando as estrelas brilharem
para os lados do poente,
vem, meu amor!
Quando a enchente transformar
as margens em violinos
e a minha voz for apenas um acorde 
quando a nossa hora se fizer,
Vem, meu amor!
Vem, meu amor!

Teresa Almeida Subtil



sábado, 7 de abril de 2018

Meu planalto


Foto de Fórum Carviçais.

O planalto é um olhar quase reto,
cruzado no apeadeiro da estação.
É um comboio lento,
ausente no trilho, veloz na imaginação.
Vagões de incertezas..
Cardos no caminho.

O planalto é um trotear de cavalos no meu peito.
Verdes prados. Brisa sussurrante...
É este jeito de asa a esvoaçar
olhar inflamado, arribas de audácia
e picões de medo.

É o som suave do teu passo
a descer o degrau do tempo,
comboio lento
onde geme o sinal de partida.

Teresa Almeida Subtil
(Foto de Sandro Duarte)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Não é coisa pouca / Nun ye cousa pouca



Sei que sabes porque escrevo,
quando em mim acorda a manhã
e espreito o mundo a nascer de novo,

Conheci o desnorte à saída do ninho
e um rio a correr-me dos olhos,
um rio de ânsias e inquietudes
um rio por onde me escapulia
e morria de saudades.
De aconchego e de segredo,
levava os livros na pasta.

Endureci e bendigo a coragem, o corte,
o desapego, o arranque das plumas.
Percebi que é na dor e na precipitação
que o credo ganha força,
e que em caminho minado, dá-se a volta,
como em tango desesperado.

Viver não é coisa pouca.

Quando no peito o calor deflagra,
abrem-se melodias, caminhos de prazer,
compassos de dança,
que as palavras se atrevem a dizer.

Pode ser revolta ou descontrole, mas escrever
é sempre a hora, o desanuviamento, o salto,
o encontro.

Sei que sabes que escrever
é uma urgência, um ato de amor.



Nun ye cousa pouca

Sei que sabes porque scribo,
quando an mi acorda la manhana
i spreito l mundo a nacer de nuobo,

Coinci l znorte a la salida de l nial

i un riu a correr-me de ls uolhos,
un riu d´ánsias i termientas,
un riu por adonde me scapulhie
i morrie de soudades.
D'arrolho i de segredo,
lhebaba ls lhibros na pasta

Andureci i bendigo la coraige, l corte,
l zapego, l'arranque de las prumas.
Percebi que ye ne l delor i na precepitaçon
Que el acraditar ganha fuorça,
i q'an camino minado, dá-se la buolta,
cumo an tango zesperado.

Bibir nun ye cousa pouca

Quando ne l peito la calor abrolha,
Hai caminos q´ábren melodies,
caminos de prazer, cumpassos de dança,
que las palabras s´astrében a dezir.

Puode ser rebuolta ou çcuntrole, mas screbir
ye siempre l'hora, l zanubiamento, l salto,
l'ancuontro.

Sei que sabes que screbir
ye ua ourgéncia, un ato d'amor

Teresa Almeida Subtil

Mãe, estou aqui!