segunda-feira, 28 de maio de 2018

Despudor / Sien bergonha


Despudor

Toco-te, delicada, quase com ternura.
Olho a elegância arroxeada  
e os matizes agradam-me.
Toco uma e outra vez … avanço e …
continuo a cobiçar-te …
É à toa que te folheio, e irrompo desastrada.
O último verso é mesmo o primeiro.
E percorro o poema sorvendo cada detalhe
que te é pele, que te é cheiro, despudor,
oblíqua miragem.
E se me quiser afogar de claridade,
preciso de me tornar íntima aragem
e ser do prado o teu olhar.

Sien bergonha

Topo-te, suable, quaije cun ternura.
Miro la simprecidade a dar al roixo
i l rostro agrada-me.
Topo ua i outra beç … arremeto i …
cuntino a cobiçar-te …
Ye a búltio que te leio, i bolo alborotada. 
L redadeiro berso ye mesmo l purmeiro.
I cuorro l poema buendo cada cachico
que te ye piel, que te ye oulor, sien bergonha,
retrocida  eimaige.
I se me quejir afogar de claridade,
perciso de me tornar íntema araige
i ser de l balhe l tou mirar.

Teresa Almeida Subtil

Lido no Congresso meu poema da Antologia de Autores Transmontanos
Durienses e da Beira Transmontana.

segunda-feira, 21 de maio de 2018



O murmúrio dos líquenes

É quando os passos seguem a memória
Que o olhar se exalta num mar tranquilo
E o trilho se faz florindo.
E cada toque de mão
É pétala abrindo ao arfar do coração.
Cativo.

E em caminho esquivo e tempo espúrio
É firme a rocha que se abre ao solfejo.
O lugar é peito que se expande e arde.
E é de desejo que os líquenes se agarram
E os lábios se abrem.

Liberta-se maio, murmúrio antigo
Aqui retemperado e festivo.



Teresa Almeida Subtil
(Casa de Chá da Boa Nova)



sexta-feira, 11 de maio de 2018

Palavras Selvagens





Palavras Servagens

Somos cor e pele, fragas expostas
Aos raios de sol e de lua.
E pelas geadas reluzimos mocidade.
Ainda que rugosas.

Tocamos caminhos desafiantes
E o sentido não tem perigo
Se tivermos asas no pensamento
E do vento a cumplicidade.

Sorve-se o instante, joga-se o olhar
E as contas são de vida e fantasia.
E de neve os passadiços.
Escorregadios anos.

As palavras partem selvagens
A planar esculturas, sentinelas do tempo.
Aragem do verso que se prende
E ousadia de ave que o rio bebe.

Teresa Almeida subtil

terça-feira, 1 de maio de 2018

Ró ... Ró ...



 Deixo a porta escancarada. E as rosas abertas.
Traço letras na pressa e no arrepio da ternura.
Aguardo a tua chegada.

Tens apenas dias de vida e eu asas nos pés.
Bailo sempre que a melodia me entra na pele
E se repercute em sentimento. Espicaçado.
Baile d´alma. Melodia e verso. Recomeço.

És de ouro, meu menino, como tudo o que o amor toca.
E quando da tua boca saírem os primeiros acordes,
eu estarei com o coração no picão onde alto sonhei.
Somos da terra, somos nós. E o cordão que vida te deu
À terra desceu. Maio floriu em nós. António, meu amor.

Bailo. Bailo e canto. Aguardo a tua chegada.
E mesmo que cantar não saiba,
És melodia e verso, meu menino.
Sou berço, abraço de avó.
Ró … ró…


Teresa Almeida Subtil

quarta-feira, 25 de abril de 2018


Liberdade

Diz-se Abril como canto, como verso
Como vento que perpassa
Ou cravo de inspiração
Que se abre na praça.

E esta flor de laranjeira e a romã do paraíso
Olhar inteiro que comungo
Contigo. 

Diz-se Abril redenção
E mundo. Travo de mágoa, pauta incerta
Caudal que arrebata e estremece.

Diz-se Abril liberdade
Erva do caminho que se levanta
E floresce.

Teresa Almeida Subtil

sábado, 21 de abril de 2018

Vem, meu amor!




Viajar é ler da forma mais palpável,
com a intensidade dos sentimentos
 a arrepiar a pele,
com os sabores, os cheiros
e as cores na sua verdadeira ilusão.
Eu viajo-te em cada dia,
meu rio de perdição.
Sinto o percurso das tuas mãos.
Só elas conhecem o caminho
onde o calor é mais intenso.
Só elas sabem o sabor dos frutos maduros
e a hora certa de os colher.
Qualquer dia, qualquer hora, vem!
Quando as estrelas brilharem
para os lados do poente,
vem, meu amor!
Quando a enchente transformar
as margens em violinos
e a minha voz for apenas um acorde 
quando a nossa hora se fizer,
Vem, meu amor!
Vem, meu amor!

Teresa Almeida Subtil



sábado, 7 de abril de 2018

Meu planalto


Foto de Fórum Carviçais.

O planalto é um olhar quase reto,
cruzado no apeadeiro da estação.
É um comboio lento,
ausente no trilho, veloz na imaginação.
Vagões de incertezas..
Cardos no caminho.

O planalto é um trotear de cavalos no meu peito.
Verdes prados. Brisa sussurrante...
É este jeito de asa a esvoaçar
olhar inflamado, arribas de audácia
e picões de medo.

É o som suave do teu passo
a descer o degrau do tempo,
comboio lento
onde geme o sinal de partida.

Teresa Almeida Subtil
(Foto de Sandro Duarte)

Mãe, estou aqui!