sábado, 16 de fevereiro de 2019

Perfume de jasmim /Cheirico de jasmin

A imagem pode conter: planta, árvore, flor, céu, ar livre e natureza

Perfume de jasmim

É na poesia
erupção da alma
que vivo além fronteiras,
é no verso que danço sem freios
e abraço o brilho das estrelas,
é no perfume que se exala do jasmim,
enredado e preso a seu jeito,
que colho discretos perfumes de amor.
É às pequenas coisas que a vida me prende,
e cada recanto tem um encanto especial,
como um poema solto em mim.
É na palavra indomada, plantada por ti,
que se desprende a original fragrância,
desigual no desejo e livre no querer.
É aquele jasmim
a poesia enluarada do jardim,
que aromatiza a noite que eu queria
e me envolve em perfumes e espuma de maresia.
É no ardor deste céu, neste mar planáltico,
que deixo as pétalas desfeitas do meu sentir.

Cheirico de jasmin (Lhéngua mirandesa)

Ye na poesie
relhistro de l'alma
que bibo pra lhá de las frunteiras,
ye ne l berso que beilo sien frenos
i abraço l brilho de las streilhas,
ye ne l prefume que sal de l jasmin,
anredado i preso a sou modo,
q´agarro scundidos cheiricos d'amor.
Ye a las pequerricas cousas que la bida me prende,
i cada requeixo ten un ancanto special,
cumo un poema suolto an mi.
Ye na palabra salbaige, puosta por ti,
que se çprende l'oureginal oulor,
zeigual ne l deseio i lhibre ne l querer.
Ye l simprico jasmin,
la poesie i la lhuna de l jardin,
q'aromatiza la nuite que you querie
i m’ambuolbe an cheiro i scuma de maresie.
Ye ne l ardor deste cielo, ne l mar de l praino,
que deixo las pítulas çfeitas de l miu sentir.

Teresa Almeida Subtil

(in Rio de Infinitos / Riu d'Infenitos)


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Minhas estrelas




É cedo, mas o jogo no relvado começou há muito, debaixo de chuva e de vento. Move-os o treino. E os três, atrás da vidraça, partilhavam emoções e saberes. “Eu já treino para passar a bola aos meus amigos. Quando for grande quero ser jogador de futebol,” dizia o Fernando de 5 anos. E foi fácil começarem a jogar no parapeito da janela. No meio, o António, de vinte e um meses, era o que mais vibrava nas passagens. A bola amarela era o sol que lhes faltava. E os olhos as estrelas, verdadeiros transmissores de alegria.
É que a pureza da vida sente-se pulsar nestes momentos. E os carros passavam. E os pequenos iam percebendo tamanhos, cores, velocidade… Aquele jovem, na berma da estrada, fazia atletismo, sem se desviar da sua faixa, e mantinha o ritmo para conseguir chegar à meta. Diria que os pinheiros brilhantes e esguios sorriam connosco, ao ritmo do balanço natural da natureza. E sentíamos a fluída energia matinal. Nosso balanço gostoso.
“Avó, aquela árvore está tão triste e despida!” E surgia a  conversa  entre o adormecimento e o acordar para a renovação, entre afagos e beijinhos que caíam como gotas de chuva na vidraça. 
E a avó vai escrevendo os poemas que melhor lhe sabem.

Teresa Almeida Subtil

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas sentadas e interiores

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Cartas de amor

Confesso que passei no Xaile de Seda da amiga Olinda Melo.




Confesso, ainda, que guardo cartas de amor, apertadas com uma fita. De seda atrevida.
Já mudaram algumas vezes de casa e até de gaveta. Um dia estacionaram na cómoda antiga.
Em festa!

Será que, agora, o amor é volátil como um perfume? Ou mais versátil? Menos romântico ou mais criativo? 
A verdade é que o molhinho de cartas está mesmo à mão e os poros transpiram magnetismo. Como se fora um campo liso na ânsia de ser cultivado. É o passo, a dança, o filme, o abraço, o beijo, o recanto, a fotografia... e os salpicos de pétalas secas. Incomparável aroma!

E meu molhinho de cartas de amor é meu segredo mais celebrado. Verdadeiro poema.

Desato o laço? Talvez! Para saborear a palavra, aquecer a tarde fria, sentir o sussurro do vento nas folhas amarelecidas e reviver emoções ao calor das brasas.

E daí... talvez não! Se acrescentar realidade à fantasia e me atrever a dar-te a mão? Apetece-me um bolero de Ravel! E um tango logo a seguir.


"Meu amor de algum dia!" Ouçamos nossa íntima melodia e vamos escrever mais uma carta - de corpo inteiro.

Teresa Almeida Subtil



sábado, 19 de janeiro de 2019

Ambiguidade


A geada roubou lírios à janela.

E as magnólias brancas e perfumadas

São agora escuras taças

Desabitadas.



Na lagoa nada se espelha

E as aromáticas da ribeira

Reclamam perfumes de outrora.



Falta o espírito dos licores

E a adega da motivação.



Há um chão em que a alegria dói

E a ambiguidade explode.



Ao longe um silvo de saudade

E linhas de palavras 

Geladas.



Teresa Almeida Subtil


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O beijo das borboletas




Ao virar a página

Um campo de girassóis!

E mil sóis a dançarem a valsa da vida

E minha saia amarela e teus olhos em fogo


E o verso, descrente, a alvorecer  

E o concerto ao assalto dos sentidos


E pétalas despertas ao beijo das borboletas

Numa raça de sol de Inverno


Teresa Almeida Subtil

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Candeia de azeite


São trilhos de pura intuição
Candeia de azeite
Clarão que não fulmina o olhar
Apenas vai despindo lentamente os véus
Que o ninho mitificam

Aproximo-me da claridade líquida
E quase descodifico a paisagem agreste
O voo das aves e a ambiência das palavras
Giestas bravas a chispar. Reflexo escrito
Sombras indecifráveis

E nas trevas a luz do poema
É meu lar
Pena em riste.

Teresa Almeida Subtil

(inspirado no poema "Aguardamos uma luz", de Graça Pires)



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Menino Jasus de la Cartolica

Resultado de imagem para imagens do menino jesus da cartolinha

Tenes stórias de lhuitas

I d' amores
I antre ls doutores sabida scritura


I se un nino se bir perdido
I de l Natal andar a la precura
Fazerei de l berso ua abintura

I de la tue capa mirandesa
Calor i agarimo

De la tierra pormetida

Teresa Almeida Subtil

                                                   

O Menino Jesus da Cartolinha é uma imagem de referência, muito visitada na Concatedral de Miranda do Douro (um dos templos mais imponentes do país) É uma escultura de finais do séc. XVII ou princípio do séc XVIII, inspirada numa lenda datada da guerra da sucessão espanhola e do cerco a Miranda do Douro, devido à sua posição estratégica. Quando os mirandeses já se encontravam exaustos de sede, fome e cansaço, surge um jovem fidalgo, vestido de cavaleiro, a dar-lhes coragem: “a eles”! Depois de conseguirem expulsar o invasor, munidos de foices, gadanhas, espingardas e paus, procuraram o fidalgo que desaparecera tão misteriosamente como aparecera. Só poderia ter sido um milagre do Menino Jesus, reza a lenda. É hoje o padroeiro das crianças mirandesas. Um “ex-libris” da concatedral (antiga Sé de Miranda do Douro)
Este Menino tem um enxoval com fardas de cavaleiro, de fidalgo e outras peças de roupa muito peculiares, oferendas que espicaçam a curiosidade dos visitantes. A cartola já deve ser do séc. XIX ou XX, para conferir ainda mais nobreza à imagem. A capa de honras, marca da identidade mirandesa, não lhe poderia faltar. O seu ar de ingenuidade leva à emoção. E surgem outras lendas, naturalmente, como a da jovem freira que terá mandado esculpir a imagem de um amor não correspondido.
A festa de homenagem celebra-se no dia de reis, domingo antes ou depois do dia 6 de Janeiro.
Fontes: Trilhos da Cultura Popular Portuguesa
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ABRAÇO DE BOAS FESTAS

Adágio