sábado, 23 de fevereiro de 2019

Dues lhénguas/Duas línguas






DUES LHÉNGUAS


Andube anhos a filo cula lhéngua trocida pula
oubrigar a salir de l sou camino i tener de
pensar antes de dezir las palabras ciertas:
ua lhéngua naciu-me comi-la an merendas buí-la an fuontes i rieiros
outra ye çpoijo dua guerra de muitas batailhas.

Agora tengo dues lhénguas cumigo
i yá nun passo sin dambas a dues.
Stou siempre a trocar de lhéngua mei a miedo
cumo se fura un caso de bigamie.

Ua sabe cousas que la outra nun conhece
ríen-se ua de la outra fazendo caçuada i a las bezes anrábian-se
afuora esso dan-se tan bien que sonho nas dues al mesmo tiempo.

Hai dies an que quiero falar ua i sale-me la outra.
Hai dies an que quedo cun ua deilhas tan amarfanhada que se nun la falar arrebento.
Hai dies an que se m’angarabátan ua cula outra
i apuis bótan-se a correr a ber quien chega purmeiro
i muita beç acában por salir ancatrapelhadas ua an la outra i a mi dá-me la risa.

Hai dies an que quedo todo debelgado culas palabras por dezir i ancarrapito-me neilhas cumo ua scalada
i deixo-las bolar cumo música
cul miedo que anferrúgen las cuordas que la sáben tocar.

Hai dies an que quiero traduzir ua pa la outra
mas las palabras scónden-se-me
i passo muito tiempo atrás deilhas.

Antre eilhas debíden l miu mundo
i quando pássan la frunteira sínten-se meio perdidas
i fártan-se de roubar palabras ua a la outra.

Ambas a dues pénsan
mas hai partes de l coraçon an que ua deilhas nun cunsigue antrar
i quando s’achega a la puorta pon l sangre a golsiar de las palabras.

Cada ua fui porsora de la outra:
l mirandés naciu-me purmeiro i you afize-me a drumir arrolhado puls sous sonidos
i ansinou l pertués a falar guiando-le la boç;
l pertués naciu-me a la punta de ls dedos
i ansinou l mirandés a screbir porque este nunca tubo scuola para adonde ir.

Tengo dues lhénguas cumigo
dues lhénguas que me fazírun
i yá nun passo nien sou you sien ambas a dues.


Duas línguas

Andei anos a fio com a língua torcida por a
obrigar a sair do seu caminho e ter de
pensar antes de dizer as palavras certas:
uma língua nasceu-me comi-a em merendas bebia em fontes e ribeiros
outra é despojo duma guerra de muitas batalhas.

Agora tenho duas línguas comigo
e já não passo sem as duas
Estou sempre a trocar de língua com algum receio
como se fosse um caso de bigamia.

Uma sabe coisas que a outra não conhece
riem-se uma da outra fazendo troça e por vezes zangam-se
fora isso dão-se tão bem que sonho em ambas ao mesmo tempo.


Há dias em que quero falar uma e sai-me a outra.
Há dias em que fico com uma delas tão amarrotada que se não a falar expludo.
Há dias em que se me entrelaçam uma na outra
e depois começam a correr a ver quem chega primeiro
e muitas  vezes acabam por sair enrodilhadas e eu rio-me.

Há dias em que fico completamente curvado com as palavras por dizer e trepo por elas como uma escada
e deixo-as voar como música
com medo que enferrujem as cordas que as sabem tocar

Há dias em que quero traduzir uma para a outra
mas as palavras escondem-se-me
e gasto muito tempo à procura delas

Entre elas dividem o meu mundo
e quando passam a fronteira sentem-se um pouco perdidas
e estão sempre a roubar palavras uma à outra.

Ambas pensam
mas há partes do coração em que uma delas não consegue entrar
e quando se chega à porta põe o sangue a bolsar das palavras.

Cada uma foi professora da outra
o mirandês nasceu-me primeiro e eu habituei-me a dormir embalado pelos seus sons
quentes como grossas cordas
e ensinou o português a falar guiando-lhe a voz;
o português nasceu-me na ponta dos dedos
e ensinou o mirandês a escrever porque este nunca teve escola para onde ir.

Tenho duas línguas comigo
duas línguas que me fizeram
e já não passo nem sou eu sem as duas

Amadeu Ferreira
In Cebadeiros, ed. Campo das Letras, 2000.




(Amadeu Ferreira é um autor de referência. É vasta a sua obra e sobejamente conhecido o seu amor e empenho na defesa e divulgação da língua mirandesa.)




sábado, 16 de fevereiro de 2019

Perfume de jasmim /Cheirico de jasmin

A imagem pode conter: planta, árvore, flor, céu, ar livre e natureza

Perfume de jasmim

É na poesia
erupção da alma
que vivo além fronteiras,
é no verso que danço sem freios
e abraço o brilho das estrelas,
é no perfume que se exala do jasmim,
enredado e preso a seu jeito,
que colho discretos perfumes de amor.
É às pequenas coisas que a vida me prende,
e cada recanto tem um encanto especial,
como um poema solto em mim.
É na palavra indomada, plantada por ti,
que se desprende a original fragrância,
desigual no desejo e livre no querer.
É aquele jasmim
a poesia enluarada do jardim,
que aromatiza a noite que eu queria
e me envolve em perfumes e espuma de maresia.
É no ardor deste céu, neste mar planáltico,
que deixo as pétalas desfeitas do meu sentir.

Cheirico de jasmin (Lhéngua mirandesa)

Ye na poesie
relhistro de l'alma
que bibo pra lhá de las frunteiras,
ye ne l berso que beilo sien frenos
i abraço l brilho de las streilhas,
ye ne l prefume que sal de l jasmin,
anredado i preso a sou modo,
q´agarro scundidos cheiricos d'amor.
Ye a las pequerricas cousas que la bida me prende,
i cada requeixo ten un ancanto special,
cumo un poema suolto an mi.
Ye na palabra salbaige, puosta por ti,
que se çprende l'oureginal oulor,
zeigual ne l deseio i lhibre ne l querer.
Ye l simprico jasmin,
la poesie i la lhuna de l jardin,
q'aromatiza la nuite que you querie
i m’ambuolbe an cheiro i scuma de maresie.
Ye ne l ardor deste cielo, ne l mar de l praino,
que deixo las pítulas çfeitas de l miu sentir.

Teresa Almeida Subtil

(in Rio de Infinitos / Riu d'Infenitos)


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Minhas estrelas




É cedo, mas o jogo no relvado começou há muito, debaixo de chuva e de vento. Move-os o treino. E os três, atrás da vidraça, partilhavam emoções e saberes. “Eu já treino para passar a bola aos meus amigos. Quando for grande quero ser jogador de futebol,” dizia o Fernando de 5 anos. E foi fácil começarem a jogar no parapeito da janela. No meio, o António, de vinte e um meses, era o que mais vibrava nas passagens. A bola amarela era o sol que lhes faltava. E os olhos as estrelas, verdadeiros transmissores de alegria.
É que a pureza da vida sente-se pulsar nestes momentos. E os carros passavam. E os pequenos iam percebendo tamanhos, cores, velocidade… Aquele jovem, na berma da estrada, fazia atletismo, sem se desviar da sua faixa, e mantinha o ritmo para conseguir chegar à meta. Diria que os pinheiros brilhantes e esguios sorriam connosco, ao ritmo do balanço natural da natureza. E sentíamos a fluída energia matinal. Nosso balanço gostoso.
“Avó, aquela árvore está tão triste e despida!” E surgia a  conversa  entre o adormecimento e o acordar para a renovação, entre afagos e beijinhos que caíam como gotas de chuva na vidraça. 
E a avó vai escrevendo os poemas que melhor lhe sabem.

Teresa Almeida Subtil

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas sentadas e interiores

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Cartas de amor

Confesso que passei no Xaile de Seda da amiga Olinda Melo.




Confesso, ainda, que guardo cartas de amor, apertadas com uma fita. De seda atrevida.
Já mudaram algumas vezes de casa e até de gaveta. Um dia estacionaram na cómoda antiga.
Em festa!

Será que, agora, o amor é volátil como um perfume? Ou mais versátil? Menos romântico ou mais criativo? 
A verdade é que o molhinho de cartas está mesmo à mão e os poros transpiram magnetismo. Como se fora um campo liso na ânsia de ser cultivado. É o passo, a dança, o filme, o abraço, o beijo, o recanto, a fotografia... e os salpicos de pétalas secas. Incomparável aroma!

E meu molhinho de cartas de amor é meu segredo mais celebrado. Verdadeiro poema.

Desato o laço? Talvez! Para saborear a palavra, aquecer a tarde fria, sentir o sussurro do vento nas folhas amarelecidas e reviver emoções ao calor das brasas.

E daí... talvez não! Se acrescentar realidade à fantasia e me atrever a dar-te a mão? Apetece-me um bolero de Ravel! E um tango logo a seguir.


"Meu amor de algum dia!" Ouçamos nossa íntima melodia e vamos escrever mais uma carta - de corpo inteiro.

Teresa Almeida Subtil



sábado, 19 de janeiro de 2019

Ambiguidade


A geada roubou lírios à janela.

E as magnólias brancas e perfumadas

São agora escuras taças

Desabitadas.



Na lagoa nada se espelha

E as aromáticas da ribeira

Reclamam perfumes de outrora.



Falta o espírito dos licores

E a adega da motivação.



Há um chão em que a alegria dói

E a ambiguidade explode.



Ao longe um silvo de saudade

E linhas de palavras 

Geladas.



Teresa Almeida Subtil


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O beijo das borboletas




Ao virar a página

Um campo de girassóis!

E mil sóis a dançarem a valsa da vida

E minha saia amarela e teus olhos em fogo


E o verso, descrente, a alvorecer  

E o concerto ao assalto dos sentidos


E pétalas despertas ao beijo das borboletas

Numa raça de sol de Inverno


Teresa Almeida Subtil

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Candeia de azeite


São trilhos de pura intuição
Candeia de azeite
Clarão que não fulmina o olhar
Apenas vai despindo lentamente os véus
Que o ninho mitificam

Aproximo-me da claridade líquida
E quase descodifico a paisagem agreste
O voo das aves e a ambiência das palavras
Giestas bravas a chispar. Reflexo escrito
Sombras indecifráveis

E nas trevas a luz do poema
É meu lar
Pena em riste.

Teresa Almeida Subtil

(inspirado no poema "Aguardamos uma luz", de Graça Pires)