quinta-feira, 28 de março de 2019

Primavera





Este encanto que tu dizes
e as palavras que me cantas
quando em Março te levantas
e me abraças devagarinho

Este feitiço que espalhas
em explosões de alegria
este ritmo, este riso, esta fantasia
é um devaneio primaveril
num mundo insano

É até pecado sentir-te desta maneira
mas quero o teu ar de feiticeira
à solta no meu canteiro

Teresa Almeida Subtil



domingo, 17 de março de 2019

Intimidade




O percurso é curto e sinuoso. 
Lembro a naturalidade com que nasceu
Meu ramo de flores, folhas e nervuras.



As palavras
Serão garças ou estrelas e para serem ramo
Têm que ferver de intimidade.

Lembro a clareira e volto cheia de sede.
Talvez encontre a fonte e, no horizonte,
Os caminhos reverdeçam.
E as palavras gemam e regressem.

E é com avidez que aguardo
Que os poemas aconteçam
Em sua liberdade.


Teresa Almeida Subtil

sexta-feira, 8 de março de 2019

Laços de Ternura





Para além
da flor da amendoeira, da violeta, do rosmaninho,
de todos os perfumes
percebidos através da tua pele
e de todas as luzes que passaram pelos teus olhos,
lembrar-te-emos!

Os prados são verdes porque os amaste um dia,
e como eu queria dizer-te, ainda,
o bem que me fazia a tua luzidia voz.
Fonte que ria e chorava.

Viverei no teu lastro e a tua aura é de força,
Mulher que partiste e querias viver!
Vives connosco!

O amor é invencível, é para sempre!
vieste dizer-nos, jovem ainda.

E aqui estamos.
Mesmo que a vida nos falhe e nos silencie a voz,
nosso é o caminho das estrelas como tu.

Deslaçadas as águas do rio dos olhos,

precisamos da luz que derramaste.


É o amor, em crescendo, que redimensionas
para lá das estrelas.
Só com elas somos universo.

Teresa Almeida Subtil

(Poema inserido na temática "cancro da mama".)

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Dues lhénguas/Duas línguas






DUES LHÉNGUAS


Andube anhos a filo cula lhéngua trocida pula
oubrigar a salir de l sou camino i tener de
pensar antes de dezir las palabras ciertas:
ua lhéngua naciu-me comi-la an merendas buí-la an fuontes i rieiros
outra ye çpoijo dua guerra de muitas batailhas.

Agora tengo dues lhénguas cumigo
i yá nun passo sin dambas a dues.
Stou siempre a trocar de lhéngua mei a miedo
cumo se fura un caso de bigamie.

Ua sabe cousas que la outra nun conhece
ríen-se ua de la outra fazendo caçuada i a las bezes anrábian-se
afuora esso dan-se tan bien que sonho nas dues al mesmo tiempo.

Hai dies an que quiero falar ua i sale-me la outra.
Hai dies an que quedo cun ua deilhas tan amarfanhada que se nun la falar arrebento.
Hai dies an que se m’angarabátan ua cula outra
i apuis bótan-se a correr a ber quien chega purmeiro
i muita beç acában por salir ancatrapelhadas ua an la outra i a mi dá-me la risa.

Hai dies an que quedo todo debelgado culas palabras por dezir i ancarrapito-me neilhas cumo ua scalada
i deixo-las bolar cumo música
cul miedo que anferrúgen las cuordas que la sáben tocar.

Hai dies an que quiero traduzir ua pa la outra
mas las palabras scónden-se-me
i passo muito tiempo atrás deilhas.

Antre eilhas debíden l miu mundo
i quando pássan la frunteira sínten-se meio perdidas
i fártan-se de roubar palabras ua a la outra.

Ambas a dues pénsan
mas hai partes de l coraçon an que ua deilhas nun cunsigue antrar
i quando s’achega a la puorta pon l sangre a golsiar de las palabras.

Cada ua fui porsora de la outra:
l mirandés naciu-me purmeiro i you afize-me a drumir arrolhado puls sous sonidos
i ansinou l pertués a falar guiando-le la boç;
l pertués naciu-me a la punta de ls dedos
i ansinou l mirandés a screbir porque este nunca tubo scuola para adonde ir.

Tengo dues lhénguas cumigo
dues lhénguas que me fazírun
i yá nun passo nien sou you sien ambas a dues.


Duas línguas

Andei anos a fio com a língua torcida por a
obrigar a sair do seu caminho e ter de
pensar antes de dizer as palavras certas:
uma língua nasceu-me comi-a em merendas bebia em fontes e ribeiros
outra é despojo duma guerra de muitas batalhas.

Agora tenho duas línguas comigo
e já não passo sem as duas
Estou sempre a trocar de língua com algum receio
como se fosse um caso de bigamia.

Uma sabe coisas que a outra não conhece
riem-se uma da outra fazendo troça e por vezes zangam-se
fora isso dão-se tão bem que sonho em ambas ao mesmo tempo.


Há dias em que quero falar uma e sai-me a outra.
Há dias em que fico com uma delas tão amarrotada que se não a falar expludo.
Há dias em que se me entrelaçam uma na outra
e depois começam a correr a ver quem chega primeiro
e muitas  vezes acabam por sair enrodilhadas e eu rio-me.

Há dias em que fico completamente curvado com as palavras por dizer e trepo por elas como uma escada
e deixo-as voar como música
com medo que enferrujem as cordas que as sabem tocar

Há dias em que quero traduzir uma para a outra
mas as palavras escondem-se-me
e gasto muito tempo à procura delas

Entre elas dividem o meu mundo
e quando passam a fronteira sentem-se um pouco perdidas
e estão sempre a roubar palavras uma à outra.

Ambas pensam
mas há partes do coração em que uma delas não consegue entrar
e quando se chega à porta põe o sangue a bolsar das palavras.

Cada uma foi professora da outra
o mirandês nasceu-me primeiro e eu habituei-me a dormir embalado pelos seus sons
quentes como grossas cordas
e ensinou o português a falar guiando-lhe a voz;
o português nasceu-me na ponta dos dedos
e ensinou o mirandês a escrever porque este nunca teve escola para onde ir.

Tenho duas línguas comigo
duas línguas que me fizeram
e já não passo nem sou eu sem as duas

Amadeu Ferreira
In Cebadeiros, ed. Campo das Letras, 2000.




(Amadeu Ferreira é um autor de referência. É vasta a sua obra e sobejamente conhecido o seu amor e empenho na defesa e divulgação da língua mirandesa.)




sábado, 16 de fevereiro de 2019

Perfume de jasmim /Cheirico de jasmin

A imagem pode conter: planta, árvore, flor, céu, ar livre e natureza

Perfume de jasmim

É na poesia
erupção da alma
que vivo além fronteiras,
é no verso que danço sem freios
e abraço o brilho das estrelas,
é no perfume que se exala do jasmim,
enredado e preso a seu jeito,
que colho discretos perfumes de amor.
É às pequenas coisas que a vida me prende,
e cada recanto tem um encanto especial,
como um poema solto em mim.
É na palavra indomada, plantada por ti,
que se desprende a original fragrância,
desigual no desejo e livre no querer.
É aquele jasmim
a poesia enluarada do jardim,
que aromatiza a noite que eu queria
e me envolve em perfumes e espuma de maresia.
É no ardor deste céu, neste mar planáltico,
que deixo as pétalas desfeitas do meu sentir.

Cheirico de jasmin (Lhéngua mirandesa)

Ye na poesie
relhistro de l'alma
que bibo pra lhá de las frunteiras,
ye ne l berso que beilo sien frenos
i abraço l brilho de las streilhas,
ye ne l prefume que sal de l jasmin,
anredado i preso a sou modo,
q´agarro scundidos cheiricos d'amor.
Ye a las pequerricas cousas que la bida me prende,
i cada requeixo ten un ancanto special,
cumo un poema suolto an mi.
Ye na palabra salbaige, puosta por ti,
que se çprende l'oureginal oulor,
zeigual ne l deseio i lhibre ne l querer.
Ye l simprico jasmin,
la poesie i la lhuna de l jardin,
q'aromatiza la nuite que you querie
i m’ambuolbe an cheiro i scuma de maresie.
Ye ne l ardor deste cielo, ne l mar de l praino,
que deixo las pítulas çfeitas de l miu sentir.

Teresa Almeida Subtil

(in Rio de Infinitos / Riu d'Infenitos)


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Minhas estrelas




É cedo, mas o jogo no relvado começou há muito, debaixo de chuva e de vento. Move-os o treino. E os três, atrás da vidraça, partilhavam emoções e saberes. “Eu já treino para passar a bola aos meus amigos. Quando for grande quero ser jogador de futebol,” dizia o Fernando de 5 anos. E foi fácil começarem a jogar no parapeito da janela. No meio, o António, de vinte e um meses, era o que mais vibrava nas passagens. A bola amarela era o sol que lhes faltava. E os olhos as estrelas, verdadeiros transmissores de alegria.
É que a pureza da vida sente-se pulsar nestes momentos. E os carros passavam. E os pequenos iam percebendo tamanhos, cores, velocidade… Aquele jovem, na berma da estrada, fazia atletismo, sem se desviar da sua faixa, e mantinha o ritmo para conseguir chegar à meta. Diria que os pinheiros brilhantes e esguios sorriam connosco, ao ritmo do balanço natural da natureza. E sentíamos a fluída energia matinal. Nosso balanço gostoso.
“Avó, aquela árvore está tão triste e despida!” E surgia a  conversa  entre o adormecimento e o acordar para a renovação, entre afagos e beijinhos que caíam como gotas de chuva na vidraça. 
E a avó vai escrevendo os poemas que melhor lhe sabem.

Teresa Almeida Subtil

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas sentadas e interiores

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Cartas de amor

Confesso que passei no Xaile de Seda da amiga Olinda Melo.




Confesso, ainda, que guardo cartas de amor, apertadas com uma fita. De seda atrevida.
Já mudaram algumas vezes de casa e até de gaveta. Um dia estacionaram na cómoda antiga.
Em festa!

Será que, agora, o amor é volátil como um perfume? Ou mais versátil? Menos romântico ou mais criativo? 
A verdade é que o molhinho de cartas está mesmo à mão e os poros transpiram magnetismo. Como se fora um campo liso na ânsia de ser cultivado. É o passo, a dança, o filme, o abraço, o beijo, o recanto, a fotografia... e os salpicos de pétalas secas. Incomparável aroma!

E meu molhinho de cartas de amor é meu segredo mais celebrado. Verdadeiro poema.

Desato o laço? Talvez! Para saborear a palavra, aquecer a tarde fria, sentir o sussurro do vento nas folhas amarelecidas e reviver emoções ao calor das brasas.

E daí... talvez não! Se acrescentar realidade à fantasia e me atrever a dar-te a mão? Apetece-me um bolero de Ravel! E um tango logo a seguir.


"Meu amor de algum dia!" Ouçamos nossa íntima melodia e vamos escrever mais uma carta - de corpo inteiro.

Teresa Almeida Subtil



sábado, 19 de janeiro de 2019

Ambiguidade


A geada roubou lírios à janela.

E as magnólias brancas e perfumadas

São agora escuras taças

Desabitadas.



Na lagoa nada se espelha

E as aromáticas da ribeira

Reclamam perfumes de outrora.



Falta o espírito dos licores

E a adega da motivação.



Há um chão em que a alegria dói

E a ambiguidade explode.



Ao longe um silvo de saudade

E linhas de palavras 

Geladas.



Teresa Almeida Subtil


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O beijo das borboletas




Ao virar a página

Um campo de girassóis!

E mil sóis a dançarem a valsa da vida

E minha saia amarela e teus olhos em fogo


E o verso, descrente, a alvorecer  

E o concerto ao assalto dos sentidos


E pétalas despertas ao beijo das borboletas

Numa raça de sol de Inverno


Teresa Almeida Subtil

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Candeia de azeite


São trilhos de pura intuição
Candeia de azeite
Clarão que não fulmina o olhar
Apenas vai despindo lentamente os véus
Que o ninho mitificam

Aproximo-me da claridade líquida
E quase descodifico a paisagem agreste
O voo das aves e a ambiência das palavras
Giestas bravas a chispar. Reflexo escrito
Sombras indecifráveis

E nas trevas a luz do poema
É meu lar
Pena em riste.

Teresa Almeida Subtil

(inspirado no poema "Aguardamos uma luz", de Graça Pires)



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Menino Jasus de la Cartolica

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Tenes stórias de lhuitas

I d' amores
I antre ls doutores sabida scritura


I se un nino se bir perdido
I de l Natal andar a la precura
Fazerei de l berso ua abintura

I de la tue capa mirandesa
Calor i agarimo

De la tierra pormetida

Teresa Almeida Subtil

                                                   

O Menino Jesus da Cartolinha é uma imagem de referência, muito visitada na Concatedral de Miranda do Douro (um dos templos mais imponentes do país) É uma escultura de finais do séc. XVII ou princípio do séc XVIII, inspirada numa lenda datada da guerra da sucessão espanhola e do cerco a Miranda do Douro, devido à sua posição estratégica. Quando os mirandeses já se encontravam exaustos de sede, fome e cansaço, surge um jovem fidalgo, vestido de cavaleiro, a dar-lhes coragem: “a eles”! Depois de conseguirem expulsar o invasor, munidos de foices, gadanhas, espingardas e paus, procuraram o fidalgo que desaparecera tão misteriosamente como aparecera. Só poderia ter sido um milagre do Menino Jesus, reza a lenda. É hoje o padroeiro das crianças mirandesas. Um “ex-libris” da concatedral (antiga Sé de Miranda do Douro)
Este Menino tem um enxoval com fardas de cavaleiro, de fidalgo e outras peças de roupa muito peculiares, oferendas que espicaçam a curiosidade dos visitantes. A cartola já deve ser do séc. XIX ou XX, para conferir ainda mais nobreza à imagem. A capa de honras, marca da identidade mirandesa, não lhe poderia faltar. O seu ar de ingenuidade leva à emoção. E surgem outras lendas, naturalmente, como a da jovem freira que terá mandado esculpir a imagem de um amor não correspondido.
A festa de homenagem celebra-se no dia de reis, domingo antes ou depois do dia 6 de Janeiro.
Fontes: Trilhos da Cultura Popular Portuguesa
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ABRAÇO DE BOAS FESTAS

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Ousadie /Ousadia




... Ls suonhos ábren-se a lonjuras,
abinturo-me na seduçon de l mar i an nesgas de praia,
adonde l carino ye lhuzeiro, ua eisaltaçon, un bien maior.
Ambazbaco-me na Índia an bailes repasseados,
ne l sonido de las gaitas,
delareio nun porton de mar.
Nua baranda de l Faial - l splendor, l fascínio oureginal
Abro pastas de rosas prenhadas de madrugadas i mirares de beludo,
chiçpan streilhas nas palabras,
quedo-me na alegrie de la nuossa cantiga.
I esta ousadie nun domino nien ando a saber de salida,
mais que todo:
la poesie ye eimoçon, ye un brinde a la bida.

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... Os sonhos fazem-se ao largo,
embrenho-me na sedução do mar e em nesgas de praia
onde o carinho é luzeiro, uma exaltação, um bem maior.
Deslumbro-me na Índia, nos bailes repasseados, no som das gaitas de fole,
devaneio num portão de mar.
Numa varanda do Faial o esplendor, o fascínio original.
Abro pastas de rosas prenhes de madrugadas e olhares de veludo,
chispam estrelas nas palavras.
Permaneço na alegria da nossa canção,
e esta ousadia não controlo nem procuro saída,
mais que tudo:
a poesia é emoção, é um brinde à vida.

Teresa Almeida Subtil


(In  "Rio de infinitos/Riu d'Anfenitos")




quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Do Éden oriundo


Nem lagos, nem gelos
Nem ruínas, nem castelos
Nem pináculos de catedrais…

São ínfimas as gotas que encobrem o dia
E ébrios os sonhos que desabrocham
Suculentos frutos vermelhos

E Dezembro fecunda a palavra
No ventre do medronheiro
Do Éden oriundo.

Só pode ser sagrada, a palavra
A crescer em cada verso
Que ao fogo sobrevive.

Teresa Almeida Subtil





terça-feira, 27 de novembro de 2018

Tons

Cheguei de lides literárias onde me senti em casa. Partilhei o meu rio, o nosso rio – poeticamente - e desfrutámos os seus remansos e sobressaltos, suas margens de picões e vinhedos e a vida que a corrente provoca. Passei pelo Porto, como quem faz escala numa cidade de íntimas melodias. Desta vez até me aventurei pelo metro cujo trilho é o mesmo que percorri antes de acrescentar vida à minha própria vida.
Finalmente em casa e, depois de múltiplas atividades, lancei um olhar demorado à cor das hortênsias, agora arrepiadas e engalanadas pelo outono - minha estação inspiradora. Pertence-lhe a missão de dar as boas-vidas a quem entra e a quem passa. Os sorrisos de agradecimento, por via de regra, não se fazem esperar.
Fiz-me então ao almoço. (Que comemos hoje? O que houver por aí!) Num triz, estava na mesa um cozido mirandês e André Rieu como acompanhamento musical. O acompanhamento não foi da minha lavra e a bebida também não, mas estavam os ingredientes todos.
Tão natural como a sede, surgiu o apetite de escrever. Restava apenas a garrafa e André Rieu que tinha prometido ficar. É por isso que o vou ver pessoalmente à capital E eu que já não ia a Lisboa há tanto tempo! Valeu a pena esperar.
Reparei, e bem, que ainda havia um resquício de Douro na mesa. Brindemos!

Teresa Almeida Subtil


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Senti-me em casa.


Na verdade, o meu "Rio de Infinitos/ Riu d'Anfenitos" teve o acolhimento caloroso de amigos amantes de poesia. Transmontanos e não só. E os momentos que vivi na Casa de Trás-os-Montes e Alto - Douro, em Lisboa, ficarão guardados no lugar dos meus tesouros. 
Celebrou-se a poesia e a amizade.




terça-feira, 13 de novembro de 2018

Convite

É já na próxima quinta-feira  (15/11 - pelas 18h) que, a convite da Casa de Trás-os-Montes e Alto-Douro, será feita uma sessão de apresentação do meu livro "Rio de Infinitos / Riu d'Anfenitos".




A apresentação será feita pela Drª Adelaide Monteiro.

No final será servido um "Douro de Honra" com a actuação do grupo musical "Os Maranus"


Uma honra será, também, a presença e o abraço dos amigos.


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Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro
Campo Pequeno, 50 - 3º Esq.1000-081 Lisboa

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Se vieres ...




Lança-me nos ombros um xaile de seda das índias
E o abalo de especiarias de Bombaim,
Tozeur ou de Fez. E chá de menta e amendoim.
Toca, toca-me a pele numa melodia andina.
E da Argentina guarda-me o arrepio do tango.

Da vertigem de Iguaçu faz-me verso-aventura
E exalta a rima que se esconde na magia
Das chaminés de fada.
Veste-me a saia mexicana bordada e comprida
Que faz do armário a 5ª avenida. Eleva-me
Na escadaria de Chichinitza e que o sol
Serpenteie a palavra.

Despe-me em Copacabana,
Capri ou Palma querida. Traz a iguana amiga
e as tulipas da Holanda. De Paris
Entrecruza a arte de rua e desce
Ao sabor de crepes e abraços.

Mete o Sena, o Tamisa, o Reno e os Fiordes
Na mesma estrofe. Traz-me terras de fogo
E os vulcões de Lanzarote,
E as cores macias das hortênsias dos Açores.

Se vieres …
Apanha um barco à deriva no Douro
Escala as arribas, dedilha um socalco de Outono
E mata a sede nos lábios abertos das folhas
Que se tingem de abandono.

Teresa Almeida Subtil



domingo, 28 de outubro de 2018

O baú dos afetos / L baúl de ls carinos


O baú dos afetos

Pudesse eu voltar às palavras
acariciar pedaços de papel amarelecido,
desabafos, inquietações, questões,
liberdade expressa em dias de proibição,
rugas de um tempo presente na emoção.
Pudesse eu voltar a sentir
o amor dos primeiros traços, florir
em pequeninos ramos de candura,
tocar o verde trevo de 4 folhas,
pura exaltação, páginas redondas,
perfumes de breve caminho.

Pudesse eu acariciar missivas apaixonadas,
as primeiras, gostadas e sem retribuição.
Cada letra era um mapa, um cartão de identidade,
corações a rebentarem nas pintas dos is,
impressões da idade, aqui e ali.
Pudesse eu não sentir esta dor fina
este vazio dos temas, das conversas
e, sobretudo, o pulsar da adolescência
expressa em aprimorada ortografia.
Pudesse eu abrir as cores em que a sentia,
cheirar palavras amedrontadas
perdidas num baú de afetos.
Pudesse eu folhear o meu primeiro livro,
sacrário esvaziado, silente perplexidade,
melodia viva, saudade, memória perdida.





L baúl de ls carinos

Pudisse you tornar a las palabras,
fazer festicas a cachicos de papel amarelhecido,
zabafos, anquietaçones, questones,
lhiberdade screbida an dies de proibiçon,
angúrrias dun tiempo persente na eimoçon.
Pudisse you tornar a sentir
l amor de ls purmeiros traços, florir
an pequerricos galhos de candura,
tocar l berde trebo de quatro fuolhas,
pura eisaltaçon, páiginas redondas,
prefumes de brebe camino.


Pudisse you acarinar missibas apaixonadas,
las purmeiras, gustadas i sien tornas.
Cada lhetra era un mapa, un carton d'eidentidade,
coraçones a rebentáren nas pintas de ls is,
ampressones de l'eidade, eiqui i eilhi.
Pudisse you nun sentir este delor fino
este baziu de ls temas, de las sinagogas
i, subretodo, l pulsar de l'adolescéncia
spressa an aprimorada ourtografie.
Pudisse you abrir ls quelores an que la sentie,
cheirar palabras amedruncadas
perdidas nun baúl de carinos.
Pudisse you folhear l miu purmeiro lhibro,
sacrairo uoco, calhado spanto,
melodie biba, soudade, mimória perdida.


Teresa Almeida Subtil

(In Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)

Voz de Outono