sábado, 9 de novembro de 2019

Flor do tempo

 Eras flor do tempo, entusiasmo, alegria

Eras estrela! Mesmo de candeeiro numa mão

E eu na outra, alumiavas o breu da noite.

Eras esgalhada numa época de portas baixas

E vistas estreitas.


Saí do mundo mágico e a cada regresso

Sentia-te as maleitas. E um dia

Caíste com o cesto dos marmelos e a chave do portão.

E o leito passou a ser-te sala, rua, quintal

E a vinha que já não desfolhavas, mas amavas.

E foste perdendo a razão.


Não voltaste a levar o banco ao arraial.

Nem à praça, nem ao poial das amigas.

Eras do tempo em que as viúvas não iam a festas

Nem cantavam na igreja.

Mas tu a cantar, rezavas.

A vida era bela. Deste-me este sentimento.


Partiste um dia e perdemos-te o chão sagrado

Mas o teu nome ficou exarado com a família

Adília do Nascimento, avó querida

Estrela que me guia

Poesia na minha vida.


Teresa Almeida Subtil




sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A Casa II


Estranha, de ausências desmedidas
Espaço imenso e paredes gretadas

E eu? A quem digo das emoções?

Nas janelas faltam chilreios
E gerânios esculpidos no horizonte.
Não vejo a ponte e as cores do alvoroço.

Só os verdes das magnólias
E as flores brancas dizem de nós.
E o azevinho de bolas vermelhas
Aproxima a ternura do Natal
Que desenhavas no olhar

Chegaram os primeiros frios
E, talvez, a fogueira
Arda no peito e o azevinho enfeite
O parapeito da chaminé
E o Natal comece hoje pela manhã
E o poema rebente na euforia de outrora
E o vazio se desfaça agora

Como se a casa voltasse
Em toda a harmonia do traço
E do laço branco que ataste
Nos meus cabelos de menina.

Teresa Almeida Subtil







segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Fascínio




 Não sei se o fascínio vem do brilho dos solitários

com coloridas folhas de parreira

se da beleza translúcida da jarra verde

comprada para o casamento da avó

se da travessa esmeralda, enfeitada

com uvas de rei da vinha da faceira.



Ou será apenas  um poema

que vive na sala um enredo outonal

filtrado à hora mágica do sol-pôr

ou a saudade esgueirada dum olhar amigo

pena esvoaçante de ave

pintada num elegante vaso antigo?


Teresa Almeida Subtil



terça-feira, 1 de outubro de 2019

Vamos!


O maestro tem a batuta na mão e traquejo de orquestra.
Não, não penses que estão no salão,
em qualquer lugar entram a tempo, gente sem idade.
Quero participar neste festival, todos são chamados,
é a aldeia global.
Quero entrar na hora e acertar o tom.
O maestro tem garra e sabe agarrar-nos a alma,
cada um dá o melhor de si, a sua própria voz;
até um cana rachada sente o apelo e responde à chamada.
O maestro não sabe de onde vem, não pertence a lugar nenhum,
apanha o melhor de cada um.
A pauta é de veredas abandonadas.
A melodia nasce nos caminhos.
Na diversidade está a beleza e a energia do trecho musical,
a criação.
No arrebatamento está a afinação.
Eu já tenho a bengala,
não importa de quem é a ideia,
a causa é comum: vamos!


Bamos! (lhéngua miandesa)

L maestro ten la bara na mano i saber d'ourquestra.
Nó, nun penses que stan ne l salon,
an qualquiera sítio éntran a tiempo, gente sien eidade.
Quiero partecipar neste festibal, todos son chamados,
ye l'aldé global.
Quiero antrar na hora i acertar l tono.
L maestro ten chama i sabe agarrar-mos l'alma,
cada un dá l melhor del própio, la sue própia boç;
até un canha rachada sinte l bózio i responde a la chamada.
L maestro nun sabe dadonde ben, nun pertence a lhugar niun,
apanha l melhor de cada un,
La pauta ye de breias abandonadas.
La melodie nace ne ls caminos.
Na dibersidade stá la beleza i l'einergie de l testo musical,
la criaçon,
ne l arrebatamiento stá l'afinaçon.
You yá tengo la caiata,
nun amporta de quien ye l’eideia,

la causa ye de todos: bamos!

Teresa Almeida Subtil
(In Rio de Infinitos / Riu d'Anfenitos)

Celebrando o Dia Mundial Da Música.




quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Voz de Outono



Voz que nasce nos olhos, na boca, na expressão… Anuncia-se em ondas sedutoras e roça, com elegância, os galhos da minha árvore preferida, salpicada de flores imaculadas. Agita as folhas do livro no meu regaço. Aconchego o xaile suave, ainda de algodão, sentindo a primeira brisa a eriçar a pele, e deixo voar os cabelos com os pássaros. Apetece ficar e apagar o som dissonante que a vida teima em mostrar. A tua voz, agora molhada, enrola as pétalas mais coradas em coreografias íntimas, até as pousar e aconchegar. Perfeita a pintura da tarde, não fora a passarada dar umas bicadas de última hora. Nada é estático e a tela nunca termina, nem o teu sopro no meu ombro, nem o natural balanço da árvore que a aragem vai despindo... E eu desligo, desligo tudo o que me atropela e entrego-me à melodia ímpar - pura carícia outonal. Como se o instante fosse criação absoluta e fizesse de nós folhas aos folhos arremetidas aos vãos de escada onde se mordem frutos maduros. Tua voz é tempo,  chama e eco que percorre o alpendre da nova estação, pulsar poético a que a natureza se rende.

Teresa Almeida Subtil












sábado, 21 de setembro de 2019

Centelha Concupiscente


Na pele dos dias intromete-se a palavra
E a melodia que a embriaga.
Emerge pura na orvalheira
Como se feiticeira fora.
É terra, é povo, é dor e fantasia
Guelra efervescente.
E ao primeiro golpe de sol
Contorce-se, esgueira-se pela escarpa
E resvala em murmúrio de nascente.  
É centelha que ao poema se entrega
Concupiscente.

Teresa Almeida Subtil






domingo, 15 de setembro de 2019

Dialética / Caminhos de liberdade



Não é muito habitual no Porto um clima tórrido como o de 14 de setembro último. Atravessar a Avenida dos Aliados fez-me lembrar o deserto lá para os lados de Abu Symbel, onde só experimentei o calor às 8 da manhã porque, a partir daí, já era impossível e o meu chapéu até era bem abonado. Subi lá para os lados da Sé e contornei pela esquerda até aos portões da Casa Museu Guerra Junqueiro, poeta, prosador, jornalista e político português (1850-1923),  “destacado escritor do Realismo, movimento literário que reproduz a ação social e política da segunda metade do século XIX”.
Por vezes sinto-me em casa, e este foi um desses gratificantes momentos, não fosse eu de terras de Freixo de Espada à cinta.
Rui Fonseca e Ana Homem Albergaria apresentavam, então, o seu livro de poesia, na simpática cafeteria, logo à entrada, do lado esquerdo. Fiquei atenta e motivada pela temática. Adentrar esta poética é um caminho aliciante. Criação que tem a sua origem na energia que Ana Albergaria imprimiu à sua exposição de pintura, por onde perpassam preocupações existenciais. O cruzamento da filosofia com a arte abriu, assim, portas à dialética da vida.
 Folheio o livro e, em olhar cruzado, surge a profundidade do tema que toca a criação, a interrogação, a busca da felicidade, a ética, a liberdade … surge a poesia como arte maior em que o ser humano se emociona, “se ergue e se constrói”.

Depois de desfrutarmos de um deslumbrante pôr – do- sol no Passeio das Virtudes e de experimentarmos os sabores moçambicanos da casa da tia Orlanda, encaminhámo-nos para a Feira do Livro onde nos aguardava o mundo das descobertas.
Enfim…” o Porto é lindo de morrer!”

Teresa Almeida Subtil

Corpo de mulher

“Que olhas tu mulher
Por entre roupagens de esperança
Onde o verde clareia a mudança?
Ainda que visivelmente semicoberta
Em teu olhar arguto,
És suficientemente capaz de veres além
Muito além deste parco aquém
Por onde a dialética do caminho se move.
Que olhas tu?
O futuro em teus braços
 A humanidade em teu seio?
E o mundo inteiro no teu colo?
Ou será algo mais
Para além deste teu inusitado e advertido olhar
Com o qual me encontro todos os dias
E me acena com sorriso
Num apelo longe de ir mais longe?...”

Rui Fonseca pg 50
Cumplicidade Poética

Saberei sempre como te tornar cúmplice,
Nesta busca, quase insana,
Pelo que me transcende.
E quando não souber mais
Como te fazer refém dos meus sentimentos,
Então deixarei que afogues
Todas as palavras frias e sem sentido,
No mar das minhas lágrimas.
 As outras,
As que se derretem em doçura
Como um beijo em lábios quentes;
As que se expandem em urgência de amor,
Transformando os padrões da nossa consciência;
As que gritam justiça, as que abraçam;
As que cantam a paz; as que dançam:
As que nos elevam a uma renovada existência;
Essas permanecerão dignas do teu nome: Poesia.
E tu e eu seremos nós, a coexistir na minha voz!

Ana Homem Albergaria pg28


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