terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Reino de Fantasia




Lembro a alegria da cerejeira grávida e vermelha e as cestas recheadas de amizade. Lembro a horta farta e cuidada e os sucos a dar de beber à sede na canícula do verão. Do calor e da sombra tenho saudades. E da merenda com frutos tropicais e compotas da ribeira. E do cristalino espelho de água e do mundo que nele vibrava. E do meu voo de borboleta entre a magia que pintava. Ah! E a simplicidade das cantigas que soltavam a melodia e a festividade de um reino de fantasia!
Sei que nunca mais chega Agosto. Era de outro calendário onde já não me reconheço. E as as mãos, inquietas, imbuídas de ternura e perfumes de goivos, escrevem em desatino e a poesia explode sem tino, nem lei, e tocam apenas a pele dos dias como se fossem frutos maduros plenos de paladar.

O reino arrefeceu ... mas as mãos recusam-se a regelar.

Teresa Almeida Subtil

domingo, 24 de novembro de 2019

Quase nada



Agita-se o Outono e é Novembro
A chuva miúda fustiga-me os cabelos
E gotas descem aos lábios
A desluzir palavras
E a deslaçar os dedos.

Quase nada
Apenas estrelas tombam dos candelabros
Para acenderem olhos nos olhos
Fantasia a arder em luz coada.

Um aroma a goivos
Evade-se pela porta entreaberta
E reflexos de lamparinas rubras
Deslizam na rua quebrada.

E a gigantesca árvore é já poema
Com alma e pena de bailarina
Vibrante sina que prende a noite
À saudade. Vadia, a palavra
É humidade que penetra e liberta

Volúpia de ondas azuis 

Marés secretas.

TeresaAlmeida Subtil



domingo, 17 de novembro de 2019


O grito

E do lixo saiu o grito
E do grito saiu a vida
E a vida é tão bela
Que o lixo serve de estufa
A uma nova estrela

Expurgado o dia entre o terror
E a alegria
O mundo amedrontado
Prossegue a lenta agonia
Sabendo que a cada momento
Há ceifas de humanidade


E o caixote poderá ser
O mar, o camião, a vala,
O forno crematório, a podridão.
E o grito sairá de qualquer lugar
Para esmagar a falsidade, o ilusório
A maldade e os jogos de poder


E do lixo saiu o grito
E do grito saiu a vida
E a vida é tão bela
Que o lixo serve de estufa
A uma nova estrela




Teresa Almeida Subtil

sábado, 9 de novembro de 2019

Flor do tempo

 Eras flor do tempo, entusiasmo, alegria

Eras estrela! Mesmo de candeeiro numa mão

E eu na outra, alumiavas o breu da noite.

Eras esgalhada numa época de portas baixas

E vistas estreitas.


Saí do mundo mágico e a cada regresso

Sentia-te as maleitas. E um dia

Caíste com o cesto dos marmelos e a chave do portão.

E o leito passou a ser-te sala, rua, quintal

E a vinha que já não desfolhavas, mas amavas.

E foste perdendo a razão.


Não voltaste a levar o banco ao arraial.

Nem à praça, nem ao poial das amigas.

Eras do tempo em que as viúvas não iam a festas

Nem cantavam na igreja.

Mas tu a cantar, rezavas.

A vida era bela. Deste-me este sentimento.


Partiste um dia e perdemos-te o chão sagrado

Mas o teu nome ficou exarado com a família

Adília do Nascimento, avó querida

Estrela que me guia

Poesia na minha vida.


Teresa Almeida Subtil




sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A Casa II


Estranha, de ausências desmedidas
Espaço imenso e paredes gretadas

E eu? A quem digo das emoções?

Nas janelas faltam chilreios
E gerânios esculpidos no horizonte.
Não vejo a ponte e as cores do alvoroço.

Só os verdes das magnólias
E as flores brancas dizem de nós.
E o azevinho de bolas vermelhas
Aproxima a ternura do Natal
Que desenhavas no olhar

Chegaram os primeiros frios
E, talvez, a fogueira
Arda no peito e o azevinho enfeite
O parapeito da chaminé
E o Natal comece hoje pela manhã
E o poema rebente na euforia de outrora
E o vazio se desfaça agora

Como se a casa voltasse
Em toda a harmonia do traço
E do laço branco que ataste
Nos meus cabelos de menina.

Teresa Almeida Subtil







segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Fascínio




 Não sei se o fascínio vem do brilho dos solitários

com coloridas folhas de parreira

se da beleza translúcida da jarra verde

comprada para o casamento da avó

se da travessa esmeralda, enfeitada

com uvas de rei da vinha da faceira.



Ou será apenas  um poema

que vive na sala um enredo outonal

filtrado à hora mágica do sol-pôr

ou a saudade esgueirada dum olhar amigo

pena esvoaçante de ave

pintada num elegante vaso antigo?


Teresa Almeida Subtil



terça-feira, 1 de outubro de 2019

Vamos!


O maestro tem a batuta na mão e traquejo de orquestra.
Não, não penses que estão no salão,
em qualquer lugar entram a tempo, gente sem idade.
Quero participar neste festival, todos são chamados,
é a aldeia global.
Quero entrar na hora e acertar o tom.
O maestro tem garra e sabe agarrar-nos a alma,
cada um dá o melhor de si, a sua própria voz;
até um cana rachada sente o apelo e responde à chamada.
O maestro não sabe de onde vem, não pertence a lugar nenhum,
apanha o melhor de cada um.
A pauta é de veredas abandonadas.
A melodia nasce nos caminhos.
Na diversidade está a beleza e a energia do trecho musical,
a criação.
No arrebatamento está a afinação.
Eu já tenho a bengala,
não importa de quem é a ideia,
a causa é comum: vamos!


Bamos! (lhéngua miandesa)

L maestro ten la bara na mano i saber d'ourquestra.
Nó, nun penses que stan ne l salon,
an qualquiera sítio éntran a tiempo, gente sien eidade.
Quiero partecipar neste festibal, todos son chamados,
ye l'aldé global.
Quiero antrar na hora i acertar l tono.
L maestro ten chama i sabe agarrar-mos l'alma,
cada un dá l melhor del própio, la sue própia boç;
até un canha rachada sinte l bózio i responde a la chamada.
L maestro nun sabe dadonde ben, nun pertence a lhugar niun,
apanha l melhor de cada un,
La pauta ye de breias abandonadas.
La melodie nace ne ls caminos.
Na dibersidade stá la beleza i l'einergie de l testo musical,
la criaçon,
ne l arrebatamiento stá l'afinaçon.
You yá tengo la caiata,
nun amporta de quien ye l’eideia,

la causa ye de todos: bamos!

Teresa Almeida Subtil
(In Rio de Infinitos / Riu d'Anfenitos)

Celebrando o Dia Mundial Da Música.




Adágio