quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Feliç 2020


Para mi i para todos,
Cumo se fuora un admirable mundo nuobo.
I la tue risa ua racica de sol berdadeira i libre
Ou um praino siempre berde
Cun puras fuontes a cantar
I nua airaçada "un riu que you sei"
Mos salbe de l mofo q'anda por ende.
Que la bida seia amor
Cimprico camino an tue mirada.


Teresa Almeida Subtil



sábado, 21 de dezembro de 2019

Magia do Natal



Nunca esquecerei a magia do Natal, nem teus olhos em brasa em frente às filhós e às rabanadas. Não quero perder-me num universo sem estrelas. Quero o Natal todos os dia e a desoras.

Avó, continuas sentada ao lume a tender bolas de sertã na saia rodada, negra e comprida e o pano de linho entre ela e a massa. E o azeite no ponto, que bem cheirava! Se não fosse esse ambiente, a fogueira na praça e o beijo ao Menino Jesus, o Natal não era nada. Eu sonhava e rezava por brinquedos que nunca tive, mas quando acordava lá estava o sapatinho junto à cinza e qualquer coisa nele brilhava. "Lembraram-se de mim!" Era o mais importante. Que magia era aquela que não me dececionava! Bastava a reunião da família para que o calor irradiasse pela noite fora. Bastava que ninguém faltasse naquela hora. E como o silêncio falava! Depois as pessoas fizeram-se estrelas e deixaram o lume aceso para que o espírito de Natal não se apagasse em nós.

Teresa Almeida Subtil

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"Podia ter sido"




   



Era o primeiro de Dezembro quando desembocámos no monumento natural Las Médulas – Leon –formações resultantes de extrações de ouro, há mais de 2000 anos e declarado património mundial pela UNESCO. É a maior exploração, a céu aberto, de todo o império romano. Podia ter sido outro o local para festejar o primeiro de Dezembro. Neste era mesmo improvável, mas tínhamos ido a Chaves, ao lançamento do livro do amigo José Maldonado e estávamos mais próximos daquela paisagem de uma beleza singular. Pareceram-me próximas e outros dizem que estão muito distantes. Depende do local de partida e do deslumbramento à chegada. Entrámos no primeiro restaurante para não perdermos tempo. Entre grafonolas e artigos agrícolas fomos bem servidos: “botillo del Bierzo” e “café de puchero”. A casa fora feita pedaço a pedaço num barracão que o casal havia comprado há anos. Tinham vindo de França onde o trabalho era ainda mais duro. Vendiam todos os objetos do espaço exceto a grafonola que nos interessava. Por ali havia aparelhos musicais muito antigos. Despojavam-se de tudo, mas da música não. E havia visita guiada aos tesouros. Apetecia-nos ficar mais um pouco, mas era urgente partir porque as tardes de Dezembro são muito curtas. Prometemos voltar.

Poderia ter chovido como estava programado, mas o tempo abriu alas e até permitiu que entrássemos em grutas apertadas, com chapéu de lata e foco na mão. Três graciosas espanholas fizeram-nos companhia. Poderiam ter estado noutro local, mas passaram por ali e deram-nos indicações preciosas. “Afinal as galerias já abriram” diziam elas e eu nem queria acreditar na hipótese de me debruçar naquela varanda pendurada num abismo surreal. A terra e a pedra aglomeradas apresentavam tons vermelhos e alaranjados. Os morros lembravam as chaminés de fada da Turquia pela exuberância e pelo mistério. Castanheiros e carvalhos implantavam-se com arte num ambiente febril. Envolviam-nos melodias de há dois mil anos e só as ouve quem lhes pressente a evasão. Deveria haver horas de descanso, música e poesia para alimentar o espírito. Só poderia ser assim. Há pessoas predestinadas para se guindarem às estrelas após árduos trabalhos e projetos de futuro. Garimpavam ouro com técnicas especiais.
Poderíamos não ter vindo ao lançamento do livro “Podia ter Sido”, mas ainda bem que viemos e ouvimos da voz do autor que caminhos outros poderia ter andado, mas foram aqueles os que trilhou.
Na verdade, talvez tivéssemos visto só metade da paisagem, mas valeu a pena. Regressámos ao hotel Termas que nos agradou sobremaneira. Boa relação preço-qualidade. Logo à entrada o perfume era de bem-estar, o que à partida é uma nota de boas-vindas. Limpo, cuidado e sem pretensões. Escolha acertada, pensava eu. Pessoal do tipo familiar e o pequeno-almoço também. “Prove a minha compota de abóbora! dizia-me a responsável. O rapaz da receção acompanhou-nos e resolveu de imediato as ligações tecnológicas ao mundo a que estamos habituados.
Há pessoas que vestem Zara e parecem uns príncipes e outras que vestem grandes marcas e parecem espantalhos, disse isto (mais ou menos) no último programa Prós e contras” o jornalista Luís Osório. Concordo
Poderia não ter acontecido, mas na manhã do dia seguinte acordaram-nos as saudades dos amigos e com eles caminhámos por uma cidade onde não faltam lojas com boas marcas e onde os buracos surgem a cada passo porque em cada espaço, que é preciso remodelar, surgem ruínas romanas e já sabemos que ninguém avança sobre achados arqueológicos. O cordeiro assado no forno era do outro mundo. Já na despedida, passámos pelo Hotel Vidago onde, em tempos áureos, eu e a minha amiga participámos num seminário. Agora os preços são para elites e os campos de golfe também.
Desta vez a separação doeu mais um pouco. E nós seguimos em direção ao Porto onde a magia da cidade invicta era sublinhada pelas iluminações de Natal.
De facto, podia ter sido outro o destino do fim de semana, mas registo-o porque me soube a amizade, a história, a beleza paisagística e a gastronomia transmontana.

Teresa Almeida Subtil
01-12-2019




terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Reino de Fantasia




Lembro a alegria da cerejeira grávida e vermelha e as cestas recheadas de amizade. Lembro a horta farta e cuidada e os sucos a dar de beber à sede na canícula do verão. Do calor e da sombra tenho saudades. E da merenda com frutos tropicais e compotas da ribeira. E do cristalino espelho de água e do mundo que nele vibrava. E do meu voo de borboleta entre a magia que pintava. Ah! E a simplicidade das cantigas que soltavam a melodia e a festividade de um reino de fantasia!
Sei que nunca mais chega Agosto. Era de outro calendário onde já não me reconheço. E as as mãos, inquietas, imbuídas de ternura e perfumes de goivos, escrevem em desatino e a poesia explode sem tino, nem lei, e tocam apenas a pele dos dias como se fossem frutos maduros plenos de paladar.

O reino arrefeceu ... mas as mãos recusam-se a regelar.

Teresa Almeida Subtil

domingo, 24 de novembro de 2019

Quase nada



Agita-se o Outono e é Novembro
A chuva miúda fustiga-me os cabelos
E gotas descem aos lábios
A desluzir palavras
E a deslaçar os dedos.

Quase nada
Apenas estrelas tombam dos candelabros
Para acenderem olhos nos olhos
Fantasia a arder em luz coada.

Um aroma a goivos
Evade-se pela porta entreaberta
E reflexos de lamparinas rubras
Deslizam na rua quebrada.

E a gigantesca árvore é já poema
Com alma e pena de bailarina
Vibrante sina que prende a noite
À saudade. Vadia, a palavra
É humidade que penetra e liberta

Volúpia de ondas azuis 

Marés secretas.

TeresaAlmeida Subtil



domingo, 17 de novembro de 2019


O grito

E do lixo saiu o grito
E do grito saiu a vida
E a vida é tão bela
Que o lixo serve de estufa
A uma nova estrela

Expurgado o dia entre o terror
E a alegria
O mundo amedrontado
Prossegue a lenta agonia
Sabendo que a cada momento
Há ceifas de humanidade


E o caixote poderá ser
O mar, o camião, a vala,
O forno crematório, a podridão.
E o grito sairá de qualquer lugar
Para esmagar a falsidade, o ilusório
A maldade e os jogos de poder


E do lixo saiu o grito
E do grito saiu a vida
E a vida é tão bela
Que o lixo serve de estufa
A uma nova estrela




Teresa Almeida Subtil

Adágio