segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A LA FALA CUL MIRANDÉS



A la fala cul mirandés.

La lhéngua ye speque de l’eidentidade dun pobo. An Miranda fala-se mirandés zde que Pertual s’antende cumo naçon, ne l rincon stur-lhionés.
Cuntina a ser falada assi cumo cuntina a ser ousada la capa de ls pastores i dambas a dues sírben para arrolhar ls poucos haberes de la giente. Poucos ye un modo de dezir, porque Leite de Vasconcellos, Abade de Baçal, Padre Mourinho, Abade Sardinha, Domingos Raposo, Amadeu Ferreira i muitos outros botórun-la a ombros i solo assi puode seguir adelantre este tesouro. Ten reglas, ye ua lhéngua oufecial. I Júlio Meirinhos dou-le essa proua i essa dignidade pula Lei 7/99 de 29 de janeiro, aporbada por ounanimidade na Assamblé de la República. I la capa d’honras, mais afidalgada, fai figura na praça D. Juan III pulas manos de l scultor sendinés António Nobre. Ye ua eimaige que lhieba Miranda de l Douro até la cucruta de la fin de l mundo.
Nas scuolas por bias de la curgidade l sou diretor i de ls porsores de mirandés, ls alunos, na grande maiorie yá fálan mirandés i lhieban-lo, tamien, pul mundo afuora. Ye esse l camino.
Ben isto a perpósito de la “tertúlia” que ye un modo de dezir, un serano bilhingue, de la respunsablidade de l’Ounibersidade Sénior de Miranda de l Douro, a la qual tengo l gusto de pertencer.
De la mie parte la gana de ir a la fala cul mirandés i daprender quanto puoda. Quantos mais stubíren melhor será l’aprendizaige i l’alegrie. Ten que ser an pertués i an mirandés, para abraçar todos ls que la mamórun i ls que le gusta i quieren daprender.
Bamos alhá, para dezir l que mos dir na gana! Bamos a la fala cul mirandés!
Quedaremos cuntentos cun la sala chena.

Teresa Almeida Subtil


Cumo stamos an tiempo de reis, agora digo you:
Quien bos ben cantar ls reis
De nuite pula cidade
A la cierta quier star
Nesta ounibersidade
Quien bos ben cantar ls reis
De nuite pula gelada
A la cierta quier saber
Se stá buona la rabanada
Quien bos ben cantar ls reis
Por ua nuite sien lhuna
A la cierta quier saber
Las modas da nuossa tuna
Quien bos ben cantar ls reis
Numa eidade tan fadista
A la cierta quier saber
Se tu sós cuntrabandista
Quien bos ben cantar ls reis
Cun uas mirandesadas
A la cierta quier saber
Se trais lhonas i risadas.
Quien bos ben cantar ls reis
I trai un copo de bino
A la cierta quier saber
Se quieres seguir camino.
TAS


I agora dizes tu:


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Crepitosas pérolas

Manhã alta
E o raio de sol esgueirado da portada
Flui pela escada
E beija a estela regelada.

Manhã alta
E firme a árvore guinda-se
além das ameias e dia a dia
regenera-se
em sonhos de amendoeira.

Orvalhada e vistosa
A oliveira agiganta-se de beleza.

Crepitosas pérolas
Desprendem-se sobre o rio
E a orquestra das arribas.

Teresa Almeida Subtil



         


Feliç 2020


Para mi i para todos,
Cumo se fuora un admirable mundo nuobo.
I la tue risa ua racica de sol berdadeira i libre
Ou um praino siempre berde
Cun puras fuontes a cantar
I nua airaçada "un riu que you sei"
Mos salbe de l mofo q'anda por ende.
Que la bida seia amor
Cimprico camino an tue mirada.


Teresa Almeida Subtil



sábado, 21 de dezembro de 2019

Magia do Natal



Nunca esquecerei a magia do Natal, nem teus olhos em brasa em frente às filhós e às rabanadas. Não quero perder-me num universo sem estrelas. Quero o Natal todos os dia e a desoras.

Avó, continuas sentada ao lume a tender bolas de sertã na saia rodada, negra e comprida e o pano de linho entre ela e a massa. E o azeite no ponto, que bem cheirava! Se não fosse esse ambiente, a fogueira na praça e o beijo ao Menino Jesus, o Natal não era nada. Eu sonhava e rezava por brinquedos que nunca tive, mas quando acordava lá estava o sapatinho junto à cinza e qualquer coisa nele brilhava. "Lembraram-se de mim!" Era o mais importante. Que magia era aquela que não me dececionava! Bastava a reunião da família para que o calor irradiasse pela noite fora. Bastava que ninguém faltasse naquela hora. E como o silêncio falava! Depois as pessoas fizeram-se estrelas e deixaram o lume aceso para que o espírito de Natal não se apagasse em nós.

Teresa Almeida Subtil

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"Podia ter sido"




   



Era o primeiro de Dezembro quando desembocámos no monumento natural Las Médulas – Leon –formações resultantes de extrações de ouro, há mais de 2000 anos e declarado património mundial pela UNESCO. É a maior exploração, a céu aberto, de todo o império romano. Podia ter sido outro o local para festejar o primeiro de Dezembro. Neste era mesmo improvável, mas tínhamos ido a Chaves, ao lançamento do livro do amigo José Maldonado e estávamos mais próximos daquela paisagem de uma beleza singular. Pareceram-me próximas e outros dizem que estão muito distantes. Depende do local de partida e do deslumbramento à chegada. Entrámos no primeiro restaurante para não perdermos tempo. Entre grafonolas e artigos agrícolas fomos bem servidos: “botillo del Bierzo” e “café de puchero”. A casa fora feita pedaço a pedaço num barracão que o casal havia comprado há anos. Tinham vindo de França onde o trabalho era ainda mais duro. Vendiam todos os objetos do espaço exceto a grafonola que nos interessava. Por ali havia aparelhos musicais muito antigos. Despojavam-se de tudo, mas da música não. E havia visita guiada aos tesouros. Apetecia-nos ficar mais um pouco, mas era urgente partir porque as tardes de Dezembro são muito curtas. Prometemos voltar.

Poderia ter chovido como estava programado, mas o tempo abriu alas e até permitiu que entrássemos em grutas apertadas, com chapéu de lata e foco na mão. Três graciosas espanholas fizeram-nos companhia. Poderiam ter estado noutro local, mas passaram por ali e deram-nos indicações preciosas. “Afinal as galerias já abriram” diziam elas e eu nem queria acreditar na hipótese de me debruçar naquela varanda pendurada num abismo surreal. A terra e a pedra aglomeradas apresentavam tons vermelhos e alaranjados. Os morros lembravam as chaminés de fada da Turquia pela exuberância e pelo mistério. Castanheiros e carvalhos implantavam-se com arte num ambiente febril. Envolviam-nos melodias de há dois mil anos e só as ouve quem lhes pressente a evasão. Deveria haver horas de descanso, música e poesia para alimentar o espírito. Só poderia ser assim. Há pessoas predestinadas para se guindarem às estrelas após árduos trabalhos e projetos de futuro. Garimpavam ouro com técnicas especiais.
Poderíamos não ter vindo ao lançamento do livro “Podia ter Sido”, mas ainda bem que viemos e ouvimos da voz do autor que caminhos outros poderia ter andado, mas foram aqueles os que trilhou.
Na verdade, talvez tivéssemos visto só metade da paisagem, mas valeu a pena. Regressámos ao hotel Termas que nos agradou sobremaneira. Boa relação preço-qualidade. Logo à entrada o perfume era de bem-estar, o que à partida é uma nota de boas-vindas. Limpo, cuidado e sem pretensões. Escolha acertada, pensava eu. Pessoal do tipo familiar e o pequeno-almoço também. “Prove a minha compota de abóbora! dizia-me a responsável. O rapaz da receção acompanhou-nos e resolveu de imediato as ligações tecnológicas ao mundo a que estamos habituados.
Há pessoas que vestem Zara e parecem uns príncipes e outras que vestem grandes marcas e parecem espantalhos, disse isto (mais ou menos) no último programa Prós e contras” o jornalista Luís Osório. Concordo
Poderia não ter acontecido, mas na manhã do dia seguinte acordaram-nos as saudades dos amigos e com eles caminhámos por uma cidade onde não faltam lojas com boas marcas e onde os buracos surgem a cada passo porque em cada espaço, que é preciso remodelar, surgem ruínas romanas e já sabemos que ninguém avança sobre achados arqueológicos. O cordeiro assado no forno era do outro mundo. Já na despedida, passámos pelo Hotel Vidago onde, em tempos áureos, eu e a minha amiga participámos num seminário. Agora os preços são para elites e os campos de golfe também.
Desta vez a separação doeu mais um pouco. E nós seguimos em direção ao Porto onde a magia da cidade invicta era sublinhada pelas iluminações de Natal.
De facto, podia ter sido outro o destino do fim de semana, mas registo-o porque me soube a amizade, a história, a beleza paisagística e a gastronomia transmontana.

Teresa Almeida Subtil
01-12-2019




terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Reino de Fantasia




Lembro a alegria da cerejeira grávida e vermelha e as cestas recheadas de amizade. Lembro a horta farta e cuidada e os sucos a dar de beber à sede na canícula do verão. Do calor e da sombra tenho saudades. E da merenda com frutos tropicais e compotas da ribeira. E do cristalino espelho de água e do mundo que nele vibrava. E do meu voo de borboleta entre a magia que pintava. Ah! E a simplicidade das cantigas que soltavam a melodia e a festividade de um reino de fantasia!
Sei que nunca mais chega Agosto. Era de outro calendário onde já não me reconheço. E as as mãos, inquietas, imbuídas de ternura e perfumes de goivos, escrevem em desatino e a poesia explode sem tino, nem lei, e tocam apenas a pele dos dias como se fossem frutos maduros plenos de paladar.

O reino arrefeceu ... mas as mãos recusam-se a regelar.

Teresa Almeida Subtil

Oitavo dia