sexta-feira, 19 de julho de 2019

A bola doce baila na boca / La bolha doce beila na boca



Eu levo uma bola doce mirandesa à apresentação do meu livro! Prometo e cumpro mas um belo dia esqueci-me. Mesmo assim, talvez o nome ficasse no ouvido e, na hora de votar, inscrevam a cruz naquela de sete camadas, com cheiro a canela e umas rendas à volta, a juntar a massa. Não há como enganar. Este sabor a sete pecados já ganhou fama. A bola doce é macia como a língua mirandesa. É uma sedução que se agarra aos lábios e toma conta do corpo inteiro. E a escrita só pode ser de corpo inteiro.
No planalto a bola doce nunca falta nas atividades culturais, é sempre a rainha da doçaria. Lembro-me de quando a vi pela primeira vez. Não sosseguei enquanto não a trinquei e senti o baile na minha boca. Que sabor, meu Deus! É, naturalmente, um bolo que traz as arribas à ideia. É por isso que a levo à apresentação dos meus livros. Vai bem uma bebida, um copo de vinho fino, o vinho do nosso Douro é o ideal. Até as encostas das vinhas são em socalcos. Está tudo ligado.
Ela, também, é de planalto, mas quer subir e andar nas bocas do mundo. E se gosto tanto e engordar um pouco, não importa. Bailo um repasseado, um pingacho ou mesmo as ligas verdes e volto a ser a mesma. Nem de cantiga preciso. A dança é a melhor ginástica e a música vive em mim. A dança mirandesa é de despique, com rendas, braços i pés no ar. Os passos são bem picados como os trabalhos que enfeitam o traje.
Para nos aproximarmos do céu, basta um bocado  de bola do doce e … numa dança mirandesa vamos mais depressa.



La BOLHA DOCE beila na boca.  


You lhiebo ua bolha doce a l’apersentaçon de l miu lhibro! Pormeto i cumpro mas, la cuonta ye que houbo ua beç que me çqueci. Mas talbeç l chamadeiro quedasse ne l oubido i na huora de botar póngan ua cruç naqueilha de siete camadas, cun cheiro a canela i uas rendas a la buolta, a juntar la massa. Nun hai q'anganhar. Este sabor a siete pecados yá ganhou lomeada. La bolha doce ye amerosa cumo la lhéngua mirandesa. Ye ua seduçon que s´agarra als beiços i toma cuonta de l cuorpo anteiro. I la scrita solo puode ser de cuorpo anteiro. 
An Miranda de l Douro la bolha doce nunca falta nas atebidades culturales, ye siempre la reina de la doçarie. Dou fé de quando la bi pula purmeira beç. Nun çcancei anquanto nun le botei ls dientes i senti l baile na mie boca. Que sabor, miu Dius! Ye, naturalmente, un bolho que trai las arribas a l’eideia. Ye por isso que la lhiebo culs lhibros por ende. Calha bien ua buída, cumo tal un copito de bino fino, l bino de l nuosso Douro. Até las lhadeiras de las binhas son an patacones. Stá todo lhigado.
Eilha tamien ye de l Praino, mas quier chubir i andar nas bocas de l mundo. I se me gusta tanto i you quedar mais ancha, tanto se me dá! Boto-me a beilar un repassiado, un pingacho ou mesmo las lhigas berdes i torno a ser la mesma. Mais a mais nien cantiga perciso. L baile ye la melhor ginástica i la música tengo-la an mi. L baile mirandé ye de d’afronta, cun  rendasi einaugas braços i pies al aire. Ls passos son bien picados cunsante ls anfeites de ls saiotes i ls chambres de las ties que béilan ne l terreiro.
I "para mos arrimarmos al cielo” solo cula bolha doce i … cua dança mirandesa bamos mais debrebe.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Poética Ave


Vislumbre de beleza lunar
Esfuma-se em negro pináculo.
E é de murmúrio, tremor
E de bruma teu abraço.

Verdes lábios a soletrar
Palavras de espuma e de espanto
E beijos de milhafre
Em alvo manto.

E se outrora foste quase inferno
O paraíso que, agora, vejo
É quase verdade.

Melodias que ao largo toquei
Como se fora
Poética ave.

Poético Páixaro (lhéngua mirandesa)

Relhistros  de belheza de lhuna
çfázen-se an negras puntas.
I ye de sonido a tembrar
I de nubrina tou abraço.

Berdes lábios a soletrar
Palabras de scuma i de spanto
I beisos de melhano
An albo manto.

I se datrás fuste quaije anfierno
L paraíso que, agora, beio
Ye quaije berdade.

Melodies que pul mar toquei
Cumo se fura
Poético páixaro.

Teresa Almeida Subtil

(Deixo, apenas, uns vislumbres colhidos pelo meu telemóvel)



Ilha do Pico - Açores

Quem sobrevoa a ilha do Pico, fica com vontade de desvendar segredos e mistérios que as erupções vulcânicas provocaram. Recortes de lava petrificada contrastam com azuis de céu e mar. E toda esta beleza invulgar, acrescida de uma vegetação luxuriante, prendem o olhar e a sensibilidade de quem se entusiasma e se deixa conquistar a cada passo, a cada paladar e a cada sorriso de quem pratica o espírito do amor.
Chegámos no auge das festas do Espírito Santo.



Currais na ilha do Pico.
São vinhas em chão de lava.

Foi dura a luta que, pela sobrevivência, o povo travou. Os muros protegem as parreiras dos ventos marítimos. É desde 2004 paisagem classificada, pela UNESCO, como património mundial.





O açor figura na bandeira, mas gostei de saber que o milhafre é ave mais emblemática dos Açores.

"O açor (Accipiter gentilis), do latim acceptore, significando que voa rapidamente, é uma ave de ... apelidadas hoje em dia pelos Açorianos de "milhafres" ou "queimados". Outra teoria aponta que o Açores provém do nome Azzurro em italiano ou Azureus em latim, que significa Azul em português, como referência ao céu ..."




Linda, acolhedora, airosa ...
É assim que nos recebe a ilha de S. Jorge - Açores.




Fajã dos Cubres - S. Jorge.
Sentimento-erupção e fogo diluído
Em fajãs de saudade.


Arte baleeira. Gravações sobre osso mandibular de cachalote, de Fátima Madruga.
Museu dos Baleeiros - ilha do Pico.


Na vila da Madalena gostam de partilhar rosquilhas e bolos da espécie com todos os que por ali andadrem. É uma simpatia dos imperadores (mordomos) do Espíriro Santo. São coroados, em grande cerimonial,todos os membros da família.
É um povo generoso e afável.



CALDEIRA na ilha do Faial.
Já tinha visitado a ilha do Faial, mas não tenho ideia de ter visto esta maravilha. São ilhas de bruma e nem sempre se mostram em todo o esplendor. Trouxe muros de hortênsias no olhar.



A despedida matinal, na ilha do Faial, foi brilhante e memorável. 






segunda-feira, 17 de junho de 2019

Frémito de ave




Amo a talha, o lagar, a candeia de azeite
E o lampião.
Amo o verde-mar a pique
Da natureza o deleite
E um fio d'ouro a entranhar-se
Num cibo de pão.

Amo a noite e tua saia
Negra de viúva.
E beijo-a como se fora
Manto e aurora
Cor azeitona
Madura uva.

Amo a oliveira
A luz e o chão

Palavra que incendeia
E o frémito de ave
Que perpassa
A tua mão.


Teresa Almeida Subtil


(Foto do Museu do azeite, em Mirandela)

terça-feira, 28 de maio de 2019

Teias de afeto / Telas de carino


Teias de afeto

Entrei na adega e já adivinhava
um tesouro nela agrilhoado
a sete chaves,
as chaves de um chamamento amigo.
A manobra na fechadura
ouvia-se no cimo do povo, certamente.
Gostei de franquear o portal de traça antiga
com tábuas cosidas a pregos por mãos de artista.

Entrei no empedrado miúdo do corredor enviesado,
que parecia ter crescido com os dias,
lenta e amorosamente.
Arrolhados estavam néctares apetecidos,
ancestrais saberes escondidos.

Em garrafas e canecas demorava o olhar,
concupiscente,
mas logo seguia com avidez
o teu andar de contentamento. E o sabor da vida
pairava no primor de cada detalhe,
no suporte de cada garrafa especial,
esculpido na madeira de árvore antiga.

Seguia entre teias de afeto,
tecidas caprichosamente.
Enleava-me nos fios e não me importava,
desfrutava do enredo, da ocasião.
Sentámo-nos no chão, junto ao pipo
e o ar de verão entrava pela janela de pedra
sem vidraça nem portada.
Abriste a torneira, segurei o copo:
o vinho e a conversa sabiam bem!
E na naturalidade daquela tarde,
como a folha de hera enleada,
desfrutava dos prazeres da adega.

Não sei como, mas trouxe a garrafa de jeropiga
guardada a sete chaves no pensamento.





Telas de carino (língua mirandesa)

Antrei na dega i yá adebinaba
un tesouro neilha agrilhonado
a siete chabes,
las chabes dun chamamiento amigo.
La manobra na fechadura.
oubie-se, a la cierta, a la punta de riba de l pobo.
Gustei de scancarar l portal de calatriç antigo
cun trabas cosidas a crabos por manos d'artista.

Antrei ne l ampedriado menudo de l corredor retrocido
que parecie tener crecido culs dies,
debagarosa i amorosamente.
Arrolhados stában nétares apetecidos,
ancestrales saberes scundidos.

An garrafas i jarras s’ amboubaba l mirar,
sensual,
mas lhougo seguie cun deseio
l tou andar de cuntento. I l sabor de la bida
bie-se na perfeiçon de cada cachico,
ne l assiento de cada garrafa special,
sculpido na madeira d'arble antiga.

Seguie antre telas de carino,
tecidas cun smero.
Anredaba-me ne ls filos i nun me amportaba,
çfruitaba de l anleio, de l’oucasion.
Sentemos-mos ne l suolo, an pie de l cubete
i l aire de berano antraba pula jinela de piedra
sien bidraça nien portalada.
Abriste la torneira, sigurei l copo:
l bino i la cumbersa sabien bien!
I na naturalidade daqueilha tarde,
cumo la fuolha de yedre anroscada,
çfruitaba de ls prazeres de la dega.

Nun sei cumo, mas truxe la garrafa de jeropiga
guardada a siete chabes ne l pensar.


Teresa Almeida Subtil
(in "Rio De Infinitos / Riu D'Anfenitos)







quarta-feira, 22 de maio de 2019

A Casa


Desenhei a casa com gente dentro
E um lugar ao sol para cada um.
Ao centro a jarra de água fresca
E temporãs flores silvestres 
Colhidas à luz da manhã.

O pomar toca-se,  saboreia-se 
E funde-se no sorriso 
E na melodia que perpassa por ti.

A energia da parreira atravessa as janelas
E traz o fascínio dos brilhos da Faceira.
E num romântico reflexo de lua
Vejo o rio beijar a laranjeira.

A casa nasceu ali, naturalmente.
E não falta ninguém.
Há bolas e bonecas onde convém.
E os espaços crescem com a gente.

Teresa Almeida Subtil




terça-feira, 14 de maio de 2019

O riso do urso






O alvoroço de giestas, estevas e urzes
Entrelaça em velhos cancelos
Autênticas joias silvestres

E se, num rasgo de exaltação,
Abril libertou aromas de liberdade

Maio tem a porta escancarada

E entre os sons de natureza
Ouve-se um urso-pardo

Em estridente gargalhada.

Teresa Almeida Subtil



segunda-feira, 6 de maio de 2019

Ergues-te MÃE!


Ergues-te, Mãe, na rosa que hoje abriu
Imaculada!

E no riso que revigora meus passos
E ainda que lassos sejam meus versos
Minhas lágrimas se aglutinam
E meu ser é ternura, flor do teu mirar

E uma ave sobrevoa as arribas
E a madressilva vai florir ao alto do picão
Onde tua luz se desprende.

E eu canto e cantarei
Um hino de amor
Onde te ergues, Mãe!

Teresa Almeida Subtil