quarta-feira, 9 de março de 2022

Sou mulher!

A escalada é íngreme e não sei onde vou

Levo os filhos pela mão

São todos meus. Os que saltam o espanto

E os que ficam.

E os que gritam.

Por ti, por nós, meu coração é fogo

O fogo que atearam.

E prossigo na aflição que não sossego.

Logo, logo teremos tudo,

Digo enquanto mordo as palavras

E engulo as lágrimas.

Não deixei nada, sou empurrada

Não sei onde vou

E a destruição é o mundo que abandono

Só conheço a dor que aperto

Sou uma qualquer que foge

Não sei onde estou, não sei onde vou.

Sou ucraniana.

Sou mulher!

 

Teresa Almeida Subtil
08/o3/2022





sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Literatura de Natal


 



Lhenços, gorras i saltaretes (Lhéngua mirandesa)



La gorra, mercada an cuntrabando, la tue eimaige de marca.
Tiempo de telhados scuros i pingones
Colgados. Arrebuçados de ls ninos.
I a salto era la bida antre pobos armanos.
I éran de seda ls lhenços
Que trazies acerca al coraçon.
Ls suonhos sobrában-te nas manos.
I passában pa las mies – pequerricas.
Multeplicados.
Las streilhas relhuzían ne ls tous uolhos.
I ls mius éran paixarinas i bretones.
Trinados i campaninas.
Antre ls dous, la risa era riu d'anfenitos.
La pienha de ls miedos era altar de salmos.
I na ternura de la tua boç i al friu abraçado
Trazies l Natal para nós.
Pai, que bien te quedaba la gorra!
.....
Lenços, boinas e rebuçados
A boina, comprada em contrabando, tua imagem de marca.
Tempo de telhados escuros e carambelo
Pendurado. Rebuçados da criançada.
E a salto era a vida entre povos irmãos.
E eram de seda os lenços
Que trazias junto ao coração.
Os sonhos sobravam-te nas mãos.
E passavam para as minhas – pequeninas.
Multiplicados.
As estrelas exultavam nos teus olhos.
E os meus eram borboletas e botões.
Trinados e campainhas.
Entre os dois, o riso era rio de infinitos.
O picão dos medos era púlpito de salmos.
E na ternura da tua voz e ao frio abraçado
Trazias o Natal para nós.
Pai, que bem te ficava a boina!
Teresa Almeida Subtil
.... Que reine o amor! Feliz Natal!

VIVA A POESIA!

 

Em homenagem a meus pais.
An houmenaige a mius pais.

...
Poema de linho / Poema de lhino
É de linho, dizes tu,
entranhando na palavra qualidade,
palavra, brilho sedutor
de quem tem algo de verdade!
Sentes-lhe ainda o toque e a melodia,
não escondes a vontade de partilhar o tesouro,
a alegria que realmente te invade.
Uma peça, corolário de emoções
vividas, habilidosamente, no tear.
Na toalha que me deste,
sobressai ainda um fio de emoção,
sobressai a textura, a cor
e o perfume do ribeiro,
amor que me veste.
E se alguém disser que é de linho
vai dar-lhe outro valor
porque à ideia vem o calor
e a riqueza da terra mãe.
Ah! E a camisa que o pai vestia
aquela elegância de quem passeia no olhar
a dureza e a utilidade do trabalho.
Linho, bragal do teu altar,
lençol bordado em oração,
luar, presença, convicção, encontro.
O xergão de palha durava a vida inteira
era de linho, dizes tu!
No serão de arte feita a preceito
não faltava o esmero, o jeito
e a escola de geração em geração.
Este chambre é de linho, dizes tu, e veio do baú da avó
e não só o elevas ao mundo dos afetos
como o queres gravar no coração dos teus netos.
Lembras-te do teu quarto?
Sim, aquela cortina com a renda larga,
cobiçada sem pudores? Velava o sacrário!
Sim, aquela que guardaste porque o sol a queimava
e porque a saudade te magoava.
Ah! E a blusa que ajustava o teu corpo esbelto,
aquela com que tanto bailaste!
Era de linho, dizes tu, mãe querida!
Um poema nascido no interior da terra
batido pelo sol da eira,
um poema de verdade.
Um poema de fazer amor sem medida.
Com o olhar inteiro e nu,
impregnando na palavra a qualidade,
é de linho, dizes tu!
é de linho, dizes tu!
....
Poema de lhino
Ye de lhino, dizes tu,
agarrando na palabra culidade,
palabra, relhampar sedutor
de quien ten algo de berdade!
Sintes-le inda l toque i la melodie,
nun scondes la gana de partelhar l tesouro,
l'alegrie que rialmente t'ambade.
Ua pieça, rosairo d'eimoçones
buídas, halblidosamente, ne l telar.
Na toalha que me deste,
subressal inda un filo d'eimoçon,
subressal la testura, la quelor
i l prefume de l rigueiro,
amor que me biste.
I se alguien dezir que ye de lhino
bai a dar-le outro balor
porque a l'eideia ben la calor
i la riqueza de la tierra mai.
Ah! I la camisa que pai bestie
aqueilha eilegáncia de quien passeia ne l mirar
la dureza i l'outlidade de l trabalho.
Lhino, bragal de l tou altar,
lhençol bordado an ouraçon,
lhuna, perséncia, certeza, ancuontro.
L xergon de palha duraba la bida anteira
era de lhino, dizes tu!
Ne l serano d'arte feita a modo
nun faltaba l smero, l jeito
i la scuola de geraçon an geraçon.
Este xambre ye de lhino, dizes tu, i bieno de l baú d'abó
i nun só l chubes al mundo de ls carinos
cumo l quieres grabar ne l coraçon de ls tous nietos.
Lhembras-te de l tou quarto?
Si, aqueilha cortina cula renda ancha,
cobiçada sien scrúpalos? Belaba l sacrairo!
Si, aqueilha que guardeste porque l sol la queimaba
i porque la soudade te ferie.
Ah! I l chambre que s´ajustaba al tou cuorpo spigado
aquel cun que tanto beileste!
Era de lhino, dizes tu, mai querida!
Un poema nacido ne l seno de la tierra
batido pul sol de las eiras,
un poema de berdade
Un poema de fazer amor a la ringalheira.
Cul mirar anteiro i znudo,
agarrando na palabra la culidade,
ye de lhino, dizes tu!
Ye de lhino, dizes tu!
Teresa Almeida Subtil






sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Voltarei!

Voltarei!



Dedico esta maravilhosa canção aos meus amigos blogueiros. Voltarei porque convosco sou muito mais feliz. Não quero perder a vossa canção sempre nova, sempre viva. E, por isso, continuo de janelas escancaradas. 
Beijos. 

Acrescento que preciso de tempo para publicar um livro. É um projeto que se vai arrastando. Aqui por casa também não está a ser fácil. Até tenho netos pequenos. E esse pormenor é poesia de enorme vivacidade. Mas ... abandonar este ambiente não está nos meus planos.
Abraço-vos com imenso carinho.
 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Tresmalhada Ternura




Um corso galgou a colina, em três ou quatro saltos, com elegância e velocidade. Nem deu tempo para o desejado registo fotográfico, mas o instante ficou gravado na memória, como uma prenda aos amantes da natureza. São terras da lombada, pródigas em perfumes de arçã e tomilho e aves pousando ao de leve. As rosas-de-lobo, com pétalas de puríssima seda, estavam no auge.

Depois da curva, era possível ver pegadas de cabra selvagem, bem marcadas pelo peso e pela pressa. Enquanto os caminheiros prosseguiam entre conversas e gargalhadas, um som de desassossego captou os olhares. E na clareira, a breves passos, assistiram ao sagrado momento do nascimento, entre estebas e rosmaninhos.

No meio do espanto, a cadela Violeta precipitou-se e o Pedro foi-lhe no encalço; pegou a chiba (assim lhe chamaram) ao colo – com infinito carinho - e voltou a colocá-la na cama que o destino lhe traçara. E a chiba fez a sua primeira corrida, mal se segurando nas pernas. Julguei ver (sem olhar) lágrimas de tresmalhada ternura. A desatinada Violeta talvez tivesse estropiado o recém- nascido, se lhe tivessem dado tempo. A mãe devia estar embrenhada na floresta, bem perto do receio e do apego.

 E o grupo prosseguiu a caminhada em comovido silêncio.

E do silêncio rompe o poema:

 

 Raiç d'arçana (Lhéngua mirandesa)

 

 Eiqui la palabra ye nial

Raiç d'arçana

Passo stribado

Beiso, seda puríssema

Floresta a oulear

Nuite atrecida

Albura a spigar l die

Zassossego

a spicaçar la chama

Risa a las braçadas

Abraço a cheirar a tomielho

Spiga antalisgada

Amor renacido

An tierras de la Lombada.


 Teresa Almeida Subtil

(Poema premiado em Versos de Amor de Manuel António Pina, Concurso - Museu Nacional da Imprensa/2020)

 







 

…..

 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Augas Bibas /Águas Vivas

 



Stan bibas las augas de l miu riu,
esta fala i este sentir fondo,
estas faias i esta abes
q’ábren alas al tiempo airaçado. Stan bibas estas yerbas
que na secura de l suolo
spárban poemas al aire
i bísten la fraga znuda i dura
de quelor, alegrie
i beisos demorados de berano.
Stan bibas las palabras que se sgódan als lhábios,
cun gusto a moras maduras
las mais negritas i chenas.
Stan bibas las augas de l miu riu,
seia atamadas, seia arressaiadas de febre
i brabura, cun ganas de resbalar
de las alturas, cun la fuorça
a chiçpar la nuite scura.

:::


Águas vivas


Estão vivas as águas do meu rio,

esta fala e este sentir intenso,

estas escarpas e estas aves

e estas farpas que abrem

asas ao tempo.

Estão vivas estas ervas

que na secura do chão

atiram poemas ao ar

e vestem a fraga nua e dura

de cor, alegria e beijos

de longo e intenso verão..

 

Estão vivas as palavras

que se roçam aos lábios,

com gosto a amoras maduras,

as mais negras e plenas.

Estão vivas as águas do meu rio,

ora serenas, ora cheias de febre

e bravura, com ganas

de resvalar das alturas,

com ganas de estrelar

a noite escura..

Teresa Almeida Subtil
(in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Cativa-me

Cativa-me o berço da tarde

E em cada árvore
Borboletas que pinto.
Cativa-me desde sempre
A clareira a anunciar
Um palácio de cristal
E um mundo transparente.
Cativam-me
Oceanos de vida
Bondade e conhecimento.
E principalmente
Crianças a brincar
E olhos felizes.
Tantos! E ainda mais.
Como se a vida mudasse
Num clique de graça
E o terror acabasse
Na brisa que passa.
Cativa-me a inspiração
E prossigo
Na claridade
Que poderá despontar
Em qualquer folha
De um livro.
Teresa Almeida Subtil
02.09.21
Feira do livro-Porto







Sou mulher!