domingo, 26 de novembro de 2017

De mão dada

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Eras ainda botão para seres molestada.
Perdida entre a noite e o dia. E olhos no chão.
Sofrida. Menina desbotada.
E pela vida estropiada, não percebias
Que nem todos os gestos seriam despudor.
Não chegaste a ser flor que ao orvalho abrisse
E a alvorada não te acordou mulher
Nem o amor te desabrochou as pétalas
Nem te aflorou a seda nem a formusura.
Olhos no chão. Dura sina. Enxutas lágrimas.
Quase a sucumbir, quase fora da estrada,
Surgiu a mão,
O aconchego e o estímulo.
E um mundo maior. E um poema que começaste a ler.
Abandonaste uma história escura,
De vão de escada.
Levantaste o olhar e nas estrelas escreveste.
Amanheces viva, agora. Passo seguro.
De mão dada. E a rua é tua amiga.
És gota que o sol beijou. Pássaro que voou.
Natureza. Mulher. Mãe – ternura.

Teresa Almeida Subtil
25-11-2017

(Desafio poético: um olhar sobre o assédio.)

(imagem retirada da internet)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

"...Há um rio que nos une. E um mar que nos recolhe. Há uma alvorada e um ocaso que nos define e aproxima.
E a inspiração, esse voo de águia sobre os penhascos que miram as águas puras do nosso rio, nasce em cada recanto, em cada meandro que o Douro desenha, como se dum fulgurante nascer do sol se tratasse.
Cito Alexandre O’Neil quando disse que;
“Há palavras que nos beijam/Como se tivessem boca”
E eu afirmo: como é bom sentir o afago desta boca!
Há quem junte palavras e há quem se faça juntar através das palavras. Na Teresa as palavras ganham vida própria em cada verso. Mexem dentro do peito de quem as lê e, surpreendentemente, permanecem lá bem junto ao lugar onde comummente existe a alma em forma de coração.
A Teresa parece que flutua sobre as nuvens tal é a intensidade do seu talento. E a magia que coloca em cada verso rouba brilho ao sol e constrói um novo céu.
"…de repente
O olhar fica cativo
Da liberdade do sol a romper o ventre dos dias
E da ternura a florir nas tuas mãos”
Há livros que tem o condão de nos fazer querer ler sem parar e, ao mesmo tempo, nos obrigam a voltar ao princípio para os voltar a ler.
Há livros que nos dominam, que se entranham nos nossos olhos, que abrem janelas para parapeitos desconhecidos, que descobrem horizontes para além do mais bonito dos ocasos. Este Rio de Infinitos tem tudo isto. Tem uma espécie de magia que nos prende em cada folha, uma vontade de liberdade traduzida na corrida louca do Douro até à Foz.
Este Rio de Infinitos não se lê. Vai-se lendo, calma e serenamente, saltando páginas, avançando e recuando para que nada falte, e tudo fique, com imenso prazer, a fazer parte do pouquinho que éramos e do tão grande que nos tornamos após o lermos.
É nesta imensidão de afectos que vale a pena experimentar a intensidade das palavras e guarda-las nos olhos que também existem no coração. "
Ricardo Silva Reis



Guardarei "nos olhos que existem no coração" esta viagem pelas páginas do meu "Rio de Infinitos / Riu d' Anfenitos", no Orfeão de Matosinhos. Uma viagem íntima, fluída e - gostosamente - partilhada.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Rio de Infinitos/ Riu d'anfenitos em Matosinhos

“Diz-me dos silêncios inquietos que cantam no teu olhar
Do rio de palavras selvagens preso em ti
Das melodias vadias que escreves ao luar,
Diz ao desassossego que ateias em mim
O poema que quero entender
E quando a minha pele começar a enrubescer
Diz-me tudo.
Não deixes nada por dizer”
E Teresa Almeida Subtil não vai deixar nada por dizer. Na próxima sexta-feira, dia 17, pelas 21 horas, no Salão Nobre do Orfeão de Matosinhos vai acontecer magia transformada em palavras. Terei o enorme prazer e a grande responsabilidade de apresentar o mais recente livro desta Escritora Mirandesa, Rio de Infinitos (Riu D’Anfenitos).
Não faltem. Vamos deixar que este rio inunde os nossos sentidos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A verdura do olhar / La berdura de l mirar

A verdura do olhar 

É em águas límpidas que me jogo
E da vida colho bálsamo azul.
Sensualidade florida, cachoeira arrebatada.
Língua sem freio, macia, desencravada.

Só te ama quem por ti se lança sem decoro.
Quem se faz verbo e se conjuga no infinito.
Quem se magoa e se desnuda clara e bravia.
Te diz princípio, aventura. Nunca servil.

Ternura desfiada em flauta pastoril.
Cor de giesta e urze. Fala mirandesa. Festiva.
Âncora e eternidade.
Ribeira que canta a verdura do olhar,
Debruada de candura.
 

 La berdura de l mirar

Ye an augas claras que me jogo
I la bida s´ antende bálsamo azul.
Sensualidade florida, cachoeira arrebatada.
Lhéngua sien trabon, macie, zancrabada.

Solo t'ama quien por ti se lhança sien bargonha.
Quien se fai berbo i se cunjuga ne l'anfenito.
Quien se pica i se znuda clara i brabie.
Te diç percípio, abintura. Nunca serbil.
Buntade de bestir saia i corpete.

Soudade zlida an fraita pastoril.
Quelor de scoba i urze. Dança Mirandesa. Festiba.
Áncora i eiternidade.
Ribeira que canta la berdura de l mirar,
Debruada de candura. 


Teresa Almeida Subtil



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

L sonido de la senara / Melodia da seara


Nota de redação: A Seara Nova publica, nesta edição, um poema escrito em língua mirandesa, traduzido para português pela autora. Num contexto de cada vez mais intensa massificação cultural, pretende-se assinalar o mérito do estudo e da prática da língua e cultura mirandesas, como instrumento de resistência a esteriótipos culturais e factor de emancipação e desenvolvimento do interior do país.


 L sonido de la senara


De l berano la selombra, la boubice, la seduçon.
Tiempo moço i manos paridas de palabras ambergonhadas.
Manos q'ampálpan las cinzas i l bentre de la casa.
I la binha zértica a reclamar ls mostos i l rebolhiço.

Bazies, las tulhas son arcas de decoraçon.
L carino geme ne l sobrado i mius passos
Son campanas que dróban ne ls abraços sien tornar.
Perros i ls gatos (i las abes de la nuite) son bistas
I l´airico, ambencible, cubre la soudade que bózia.

De l rescaldo guardo l'oulor, l carino
I la colheita. L sonido de la senara. I la rebuolta.
I ne l'afago de la poesie partelhada cumo sustento
çcubro agora l carreiron de caminos outros.
Las eiras seran siempre adonde (i cumo) quejires.

Melodia da seara

Do estio a sombra, o desvario, a sedução.
Tempo moço e mãos paridas de palavras a recato.
Mãos que apalpam as cinzas e o ventre da casa.
E a vinha desértica a reclamar os mostos e o reboliço.

Vazias, as tulhas são arcas de decoração.
O carinho geme no sobrado e meus passos
São sinos que dobram nos abraços sem regresso.
Cães e os gatos (e as aves noturnas) são paisagem.
E a brisa, indomável, fecunda a saudade que grita.

Do rescaldo guardo o cheiro, o afago
E a colheita. A melodia da seara. E a revolta.
E no afago da poesia partilhada como alimento.
Desvendo agora o trilho de caminhos outros.
A eira será sempre onde (e como) quiseres.

Maria Teresa Almeida

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sei teus sinais / Sei tues seinhas

Sei teus sinais
Sei teus sinais


Cada socalco tem sua própria chama
E há lugares onde lugar não conheço e teimo.
Experimento a subida e desço em descaminho.
Em mistérios e interrogações flutuo.
E olho ao longe um lugar.
Como se tivesse cor e cheiro.
Ainda que volátil. Mais espírito que peso.

E escrevo a desnorte. E assim me envolvo.
Laços de seda e de murmúrios. Palavras-asas
Que perpassam e nos enleiam.
Sei teus sinais
Ponto de apoio – infinito voo.



Sei tues seinhas

Cada recalço ten sue própia chama
I hai lhugares adonde lhugar nun conheço i anteimo.
Spormento la chubida i abaixo an çcamino.
An mistérios i anterrogaçones sbolácio.
I uolho al loinge un lhugar.
Cumo se tubisse quelor i oulor.
Inda que dezipado. Mais sprito que peso.

I scribo sien tino. I assi m’ arrolho.
Lhaços de seda i de marmúrios. Palabras-ailas
Atrabéssan i mos amarfanhan.

Sei tues seinhas
Stribo-me – anfenito bolo.

Teresa Almeida Subtil

L sol de las froles