domingo, 24 de novembro de 2019

Quase nada



Agita-se o Outono e é Novembro
A chuva miúda fustiga-me os cabelos
E gotas descem aos lábios
A desluzir palavras
E a deslaçar os dedos.

Quase nada
Apenas estrelas tombam dos candelabros
Para acenderem olhos nos olhos
Fantasia a arder em luz coada.

Um aroma a goivos
Evade-se pela porta entreaberta
E reflexos de lamparinas rubras
Deslizam na rua quebrada.

E a gigantesca árvore é já poema
Com alma e pena de bailarina
Vibrante sina que prende a noite
À saudade. Vadia, a palavra
É humidade que penetra e liberta

Volúpia de ondas azuis 

Marés secretas.

TeresaAlmeida Subtil



domingo, 17 de novembro de 2019


O grito

E do lixo saiu o grito
E do grito saiu a vida
E a vida é tão bela
Que o lixo serve de estufa
A uma nova estrela

Expurgado o dia entre o terror
E a alegria
O mundo amedrontado
Prossegue a lenta agonia
Sabendo que a cada momento
Há ceifas de humanidade


E o caixote poderá ser
O mar, o camião, a vala,
O forno crematório, a podridão.
E o grito sairá de qualquer lugar
Para esmagar a falsidade, o ilusório
A maldade e os jogos de poder


E do lixo saiu o grito
E do grito saiu a vida
E a vida é tão bela
Que o lixo serve de estufa
A uma nova estrela




Teresa Almeida Subtil

sábado, 9 de novembro de 2019

Flor do tempo

 Eras flor do tempo, entusiasmo, alegria

Eras estrela! Mesmo de candeeiro numa mão

E eu na outra, alumiavas o breu da noite.

Eras esgalhada numa época de portas baixas

E vistas estreitas.


Saí do mundo mágico e a cada regresso

Sentia-te as maleitas. E um dia

Caíste com o cesto dos marmelos e a chave do portão.

E o leito passou a ser-te sala, rua, quintal

E a vinha que já não desfolhavas, mas amavas.

E foste perdendo a razão.


Não voltaste a levar o banco ao arraial.

Nem à praça, nem ao poial das amigas.

Eras do tempo em que as viúvas não iam a festas

Nem cantavam na igreja.

Mas tu a cantar, rezavas.

A vida era bela. Deste-me este sentimento.


Partiste um dia e perdemos-te o chão sagrado

Mas o teu nome ficou exarado com a família

Adília do Nascimento, avó querida

Estrela que me guia

Poesia na minha vida.


Teresa Almeida Subtil




sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A Casa II


Estranha, de ausências desmedidas
Espaço imenso e paredes gretadas

E eu? A quem digo das emoções?

Nas janelas faltam chilreios
E gerânios esculpidos no horizonte.
Não vejo a ponte e as cores do alvoroço.

Só os verdes das magnólias
E as flores brancas dizem de nós.
E o azevinho de bolas vermelhas
Aproxima a ternura do Natal
Que desenhavas no olhar

Chegaram os primeiros frios
E, talvez, a fogueira
Arda no peito e o azevinho enfeite
O parapeito da chaminé
E o Natal comece hoje pela manhã
E o poema rebente na euforia de outrora
E o vazio se desfaça agora

Como se a casa voltasse
Em toda a harmonia do traço
E do laço branco que ataste
Nos meus cabelos de menina.

Teresa Almeida Subtil







Tresmalhada Ternura