sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Literatura de Natal


 



Lhenços, gorras i saltaretes (Lhéngua mirandesa)



La gorra, mercada an cuntrabando, la tue eimaige de marca.
Tiempo de telhados scuros i pingones
Colgados. Arrebuçados de ls ninos.
I a salto era la bida antre pobos armanos.
I éran de seda ls lhenços
Que trazies acerca al coraçon.
Ls suonhos sobrában-te nas manos.
I passában pa las mies – pequerricas.
Multeplicados.
Las streilhas relhuzían ne ls tous uolhos.
I ls mius éran paixarinas i bretones.
Trinados i campaninas.
Antre ls dous, la risa era riu d'anfenitos.
La pienha de ls miedos era altar de salmos.
I na ternura de la tua boç i al friu abraçado
Trazies l Natal para nós.
Pai, que bien te quedaba la gorra!
.....
Lenços, boinas e rebuçados
A boina, comprada em contrabando, tua imagem de marca.
Tempo de telhados escuros e carambelo
Pendurado. Rebuçados da criançada.
E a salto era a vida entre povos irmãos.
E eram de seda os lenços
Que trazias junto ao coração.
Os sonhos sobravam-te nas mãos.
E passavam para as minhas – pequeninas.
Multiplicados.
As estrelas exultavam nos teus olhos.
E os meus eram borboletas e botões.
Trinados e campainhas.
Entre os dois, o riso era rio de infinitos.
O picão dos medos era púlpito de salmos.
E na ternura da tua voz e ao frio abraçado
Trazias o Natal para nós.
Pai, que bem te ficava a boina!
Teresa Almeida Subtil
.... Que reine o amor! Feliz Natal!

VIVA A POESIA!

 

Em homenagem a meus pais.
An houmenaige a mius pais.

...
Poema de linho / Poema de lhino
É de linho, dizes tu,
entranhando na palavra qualidade,
palavra, brilho sedutor
de quem tem algo de verdade!
Sentes-lhe ainda o toque e a melodia,
não escondes a vontade de partilhar o tesouro,
a alegria que realmente te invade.
Uma peça, corolário de emoções
vividas, habilidosamente, no tear.
Na toalha que me deste,
sobressai ainda um fio de emoção,
sobressai a textura, a cor
e o perfume do ribeiro,
amor que me veste.
E se alguém disser que é de linho
vai dar-lhe outro valor
porque à ideia vem o calor
e a riqueza da terra mãe.
Ah! E a camisa que o pai vestia
aquela elegância de quem passeia no olhar
a dureza e a utilidade do trabalho.
Linho, bragal do teu altar,
lençol bordado em oração,
luar, presença, convicção, encontro.
O xergão de palha durava a vida inteira
era de linho, dizes tu!
No serão de arte feita a preceito
não faltava o esmero, o jeito
e a escola de geração em geração.
Este chambre é de linho, dizes tu, e veio do baú da avó
e não só o elevas ao mundo dos afetos
como o queres gravar no coração dos teus netos.
Lembras-te do teu quarto?
Sim, aquela cortina com a renda larga,
cobiçada sem pudores? Velava o sacrário!
Sim, aquela que guardaste porque o sol a queimava
e porque a saudade te magoava.
Ah! E a blusa que ajustava o teu corpo esbelto,
aquela com que tanto bailaste!
Era de linho, dizes tu, mãe querida!
Um poema nascido no interior da terra
batido pelo sol da eira,
um poema de verdade.
Um poema de fazer amor sem medida.
Com o olhar inteiro e nu,
impregnando na palavra a qualidade,
é de linho, dizes tu!
é de linho, dizes tu!
....
Poema de lhino
Ye de lhino, dizes tu,
agarrando na palabra culidade,
palabra, relhampar sedutor
de quien ten algo de berdade!
Sintes-le inda l toque i la melodie,
nun scondes la gana de partelhar l tesouro,
l'alegrie que rialmente t'ambade.
Ua pieça, rosairo d'eimoçones
buídas, halblidosamente, ne l telar.
Na toalha que me deste,
subressal inda un filo d'eimoçon,
subressal la testura, la quelor
i l prefume de l rigueiro,
amor que me biste.
I se alguien dezir que ye de lhino
bai a dar-le outro balor
porque a l'eideia ben la calor
i la riqueza de la tierra mai.
Ah! I la camisa que pai bestie
aqueilha eilegáncia de quien passeia ne l mirar
la dureza i l'outlidade de l trabalho.
Lhino, bragal de l tou altar,
lhençol bordado an ouraçon,
lhuna, perséncia, certeza, ancuontro.
L xergon de palha duraba la bida anteira
era de lhino, dizes tu!
Ne l serano d'arte feita a modo
nun faltaba l smero, l jeito
i la scuola de geraçon an geraçon.
Este xambre ye de lhino, dizes tu, i bieno de l baú d'abó
i nun só l chubes al mundo de ls carinos
cumo l quieres grabar ne l coraçon de ls tous nietos.
Lhembras-te de l tou quarto?
Si, aqueilha cortina cula renda ancha,
cobiçada sien scrúpalos? Belaba l sacrairo!
Si, aqueilha que guardeste porque l sol la queimaba
i porque la soudade te ferie.
Ah! I l chambre que s´ajustaba al tou cuorpo spigado
aquel cun que tanto beileste!
Era de lhino, dizes tu, mai querida!
Un poema nacido ne l seno de la tierra
batido pul sol de las eiras,
un poema de berdade
Un poema de fazer amor a la ringalheira.
Cul mirar anteiro i znudo,
agarrando na palabra la culidade,
ye de lhino, dizes tu!
Ye de lhino, dizes tu!
Teresa Almeida Subtil






sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Voltarei!

Voltarei!



Dedico esta maravilhosa canção aos meus amigos blogueiros. Voltarei porque convosco sou muito mais feliz. Não quero perder a vossa canção sempre nova, sempre viva. E, por isso, continuo de janelas escancaradas. 
Beijos. 

Acrescento que preciso de tempo para publicar um livro. É um projeto que se vai arrastando. Aqui por casa também não está a ser fácil. Até tenho netos pequenos. E esse pormenor é poesia de enorme vivacidade. Mas ... abandonar este ambiente não está nos meus planos.
Abraço-vos com imenso carinho.
 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Tresmalhada Ternura




Um corso galgou a colina, em três ou quatro saltos, com elegância e velocidade. Nem deu tempo para o desejado registo fotográfico, mas o instante ficou gravado na memória, como uma prenda aos amantes da natureza. São terras da lombada, pródigas em perfumes de arçã e tomilho e aves pousando ao de leve. As rosas-de-lobo, com pétalas de puríssima seda, estavam no auge.

Depois da curva, era possível ver pegadas de cabra selvagem, bem marcadas pelo peso e pela pressa. Enquanto os caminheiros prosseguiam entre conversas e gargalhadas, um som de desassossego captou os olhares. E na clareira, a breves passos, assistiram ao sagrado momento do nascimento, entre estebas e rosmaninhos.

No meio do espanto, a cadela Violeta precipitou-se e o Pedro foi-lhe no encalço; pegou a chiba (assim lhe chamaram) ao colo – com infinito carinho - e voltou a colocá-la na cama que o destino lhe traçara. E a chiba fez a sua primeira corrida, mal se segurando nas pernas. Julguei ver (sem olhar) lágrimas de tresmalhada ternura. A desatinada Violeta talvez tivesse estropiado o recém- nascido, se lhe tivessem dado tempo. A mãe devia estar embrenhada na floresta, bem perto do receio e do apego.

 E o grupo prosseguiu a caminhada em comovido silêncio.

E do silêncio rompe o poema:

 

 Raiç d'arçana (Lhéngua mirandesa)

 

 Eiqui la palabra ye nial

Raiç d'arçana

Passo stribado

Beiso, seda puríssema

Floresta a oulear

Nuite atrecida

Albura a spigar l die

Zassossego

a spicaçar la chama

Risa a las braçadas

Abraço a cheirar a tomielho

Spiga antalisgada

Amor renacido

An tierras de la Lombada.


 Teresa Almeida Subtil

(Poema premiado em Versos de Amor de Manuel António Pina, Concurso - Museu Nacional da Imprensa/2020)

 







 

…..

 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Augas Bibas /Águas Vivas

 



Stan bibas las augas de l miu riu,
esta fala i este sentir fondo,
estas faias i esta abes
q’ábren alas al tiempo airaçado. Stan bibas estas yerbas
que na secura de l suolo
spárban poemas al aire
i bísten la fraga znuda i dura
de quelor, alegrie
i beisos demorados de berano.
Stan bibas las palabras que se sgódan als lhábios,
cun gusto a moras maduras
las mais negritas i chenas.
Stan bibas las augas de l miu riu,
seia atamadas, seia arressaiadas de febre
i brabura, cun ganas de resbalar
de las alturas, cun la fuorça
a chiçpar la nuite scura.

:::


Águas vivas


Estão vivas as águas do meu rio,

esta fala e este sentir intenso,

estas escarpas e estas aves

e estas farpas que abrem

asas ao tempo.

Estão vivas estas ervas

que na secura do chão

atiram poemas ao ar

e vestem a fraga nua e dura

de cor, alegria e beijos

de longo e intenso verão..

 

Estão vivas as palavras

que se roçam aos lábios,

com gosto a amoras maduras,

as mais negras e plenas.

Estão vivas as águas do meu rio,

ora serenas, ora cheias de febre

e bravura, com ganas

de resvalar das alturas,

com ganas de estrelar

a noite escura..

Teresa Almeida Subtil
(in Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos)

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Cativa-me

Cativa-me o berço da tarde

E em cada árvore
Borboletas que pinto.
Cativa-me desde sempre
A clareira a anunciar
Um palácio de cristal
E um mundo transparente.
Cativam-me
Oceanos de vida
Bondade e conhecimento.
E principalmente
Crianças a brincar
E olhos felizes.
Tantos! E ainda mais.
Como se a vida mudasse
Num clique de graça
E o terror acabasse
Na brisa que passa.
Cativa-me a inspiração
E prossigo
Na claridade
Que poderá despontar
Em qualquer folha
De um livro.
Teresa Almeida Subtil
02.09.21
Feira do livro-Porto







quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Brisa poética

 Tenho vontade de luzir um chapéu de palha.

 Abas largas e alças

 Sandálias e sedas. E pássaros nos olhos.

 

 Chegou o verão! E ao meu rosto sereno

 Falta o calor da sesta e a cor do trigo maduro

 Sol puro no meu rosto

 Gozo poético.

 

 E a sombra da parreira na varanda

 E a tarde transgressiva.

 

E se o verão é poeta, fingidor e abusado

 Vou esvoaçar entre as pingas

 Alongar o verde da folha

 Onde resplandece a magnólia

 E a melancolia.

 

Chama-me a fantasia. Os pés ganham confiança

 E a brisa beija-me o corpo arrepiado.

 O chapéu procura o verão

 E enlouquecido

 Baila descompassado.


Teresa Almeida Subtil










sábado, 14 de agosto de 2021

Alboroço

VAI SER UM ALBOROÇO!
"Alboroço é mirandês da garganta ao ouvido. Com todos os sentidos. É um ciclo de programação cultural na Terra de Miranda. Desafia o momento, instiga novas reflexões sobre os territórios rurais do interior e inspira releituras acerca da relação da comunidade com o espaço público, com o património e com a arte. É uma oportunidade de cruzar olhares outrora distantes. Alboroço é urgente. Irrompe no silêncio e agita a terra com música, teatro, performance e circo contemporâneo nas treze freguesias do Concelho de Miranda do Douro."

Camino screbido na lhinha de l’hourizonte
Deseio lhargo, sentido ne l coraçon
I quaije se béien las rugas chenas de giente
I se scuitan ls segredos de las piedras
Ne l sonido de l’arruada
Alboroço a zafiar la solidon.
Esta nuite Infainç spertou
L ancanto de las casas, de las cruzes
De las eigreijas i de l berano
Chica beilou la gana de bibir
I la malta cantou i sonhou
La tierra a zambuober
I quanto mais scuro mais se bei
Benírun de baixo
Fazírun bruído
Na aldé cul gusto de ninos a correr
Al aire de la nuite d’Agosto.

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https://www.facebook.com/alboroco/videos/245215577424354

Caminho escrito na linha do horizonte Desejo imenso sentido no coração quase s veem as ruas cheias de gente
E se escutam os segredos das pedras na música da arruada
Alvoroço a desafiar a solidão

Esta noite Ifanes despertou
O encanto das casas e dos cruzeiros
Das igrejas e do verão
Chica bailou a gana de de viver
E a malta cantou e sonhou
A terra a desenvolver

E quanto mais escuro mais se vê
Vieram de longe
Trouxeram clamor
À aldeia com gosto de meninos a correr
Na brisa da noite de Agosto.
Chica bailou a vontade de viver
Das Igrejas e do verão
Teresa Almeida Subtil














quinta-feira, 29 de julho de 2021

Do Guadiana ao Douro

Era quase noite quando passámos pelo acampamento e trocámos acenos com os pinheiros verdes e aprumados de sempre. Passava das 23h quando nos levantámos da mesa de jantar em frente ao Guadiana. No dia seguinte passaria a vigorar o horário relativo às restrições impostas pela Covid-19, e já não seria possível desfrutar calmamente do jantar, do convívio e da maravilhosa noite de verão. O Algarve era, agora, a zona mais permeável do país. Os ingleses deram à sola mais cedo do que previam.

Vai longe o tempo do acampamento. Não era de finalistas, era apenas o apelo do mar. E demorávamos o dia inteiro para ali chegar. Vem-me à ideia o espírito campista. Um chá à chegada era uma nota de boas-vindas, um brinde aconchegante. E, no dia seguinte, um balde de conquilhas como gesto de boa vizinhança de quem partilhava o chão, de quem se aproximava no passo, no estendal, na mesa e na cadeira. As tendas enchiam o pinhal de vida e alegria.

E quando se fala em Monte Gordo digo: conheço, foi aí que a minha Guida deixou as fraldas. Com mais umas saídas à Sanábria-Espanha, acabaram os acampamentos. Foi, no entanto, uma enriquecedora experiência.

Com um tom moreno regresso a Miranda do Douro, entre o JN, a Visão, alguns livros, plantas, malotes e esta repetida vontade de poetizar as encostas ora verdes ora nuas do Marão. É uma serra que me habituei a amar porque a atravessava ao crescer. As cicatrizes dos incêndios custam a passar. Apesar disso, a poesia do Marão é intensa em qualquer estação. E, como não vou ao volante, vou-me embrenhando em cada recorte de paisagem. "Já passaste o túnel? ", pergunta a que deixou as fraldas no acampamento. O túnel do Marão  e a autoestrada encurtaram distâncias. E de aeronave  Porto-Faro faz-se apenas em 45 minutos. E eu já não tomo enjomin, só um ben-u-ron para aliviar a pressão nos ouvidos durante a aterragem.

A passagem pelo Porto na ida e no regresso é um hábito gratificante. Desta vez pude participar - presencialmente - num evento de arte grafite e arte poética. Eventos culturais entusiasmam e enriquecem quem os promove e quem participa. É sempre preferível que sejam presenciais, mas a pandemia provocou reuniões online, modalidade que veio para ficar, com vantagens evidentes nalguns casos.

Ao alto das minhas hortênsias esperava-me a lua e eu, reconhecida, aceno-lhe com beijos.

Quem vive em Miranda do Douro ou em Lagoaça não tem fronteiras no olhar. Como o meu rio Douro que salta, encolhe-se, esbraceja e espraia-se infinitamente. E, se lhe põem algemas, é para saltar com mais força. Até chispa!

Teresa Almeida Subtil.



domingo, 18 de julho de 2021

L sol de las froles



Solo para saber

La fala, la chama

I l oulor

De las froles

De la Toscana

Corri balhes, prainadas

Lhunas i airaçadas

 

I hoije  bien senti

La calor de las pessonas

I l carino

De ti

 

Tue ye l'arte sagrada

I las quelores de la palabra

I siempre miu

L sol de las froles.

 

Teresa Almeida Subtil




sexta-feira, 11 de junho de 2021

Por ali ...




Era dia de sedas estampadas
Vestidos,, laçarotes
Risadas, merendolas
E bailarotes

Lia-se a exuberância das papoilas em gritos
De liberdade
E nos minúsculos malmequeres a carícia
Que apetecia

A Ribeirica luzia espelhos de água e morria
De saudade

Eram verdes e avulsos os poemas
Translúcidas as folhas, as flores e as borboletas

A pardalada carpia amores
E a brisa tocava-me a pele como se fora
Melodia morna e atemporal

Mesmo ali
Bordei nos ombros
Ramalhetes de emoção
E no meu peito
A tua mão

Teresa Almeida Subtil 









sábado, 29 de maio de 2021

Quanto menos podemos mais queremos …


 

O café sabe-me pela vida

Só tomo um por dia

Uma ninharia.

Se forem dois a noite é mal dormida

Ou mesmo em claro.

O café muda a minha forma de viver

E se juntarmos o prazer de te encontrar

Julgo que estou no céu ou para lá dele

Ninharias, dizes tu e digo eu.

 

Hoje senti falta de um café. Tanto!

E pensei: ora essa! Vou tomar!

A alegria veio da cápsula que deixei por ali

E a saborosa bebida faltava-me, afinal.


O corpo disse a urgência

Vício que assumo e sofro

Sempre que o desejo aniquilo.

Ninharias, dizes tu e digo eu.

 

Mas contar a quem me quer

Não é o café (o meu até é fraco)

É partilhar, é sentir a amizade

E rir de uma banalidade.



Teresa Almeida Subtil






  

 

Aos meus amigos