terça-feira, 25 de agosto de 2020

Folhas soltas

 

Agosto frio no rosto, já dizia a minha querida avó Adília. E, todavia, não. Agosto entrou em Miranda do Douro com desenvoltura: calor intenso, brilho de searas loiras debruçadas nas ribanceiras e gente a circular com alegria. Muitos já esqueceram a máscara, mas nada é seguro. Continuo mascarada e gosto de ler agosto poliglota, com férias na mirada, sem tempo contado, espelhos de rio, aromas de fiolho e madressilvas, sabor a figos maduros e amoras silvestres e sangue D’ouro correr nas entranhas. Folhas soltas de um livro transparente que amo e em que sinto a alma. E quantos mais o lerem mais se lhe fortalece o espírito e o desejo. É um livro de folhas soltas que se entrega e cativa com elegância e ancestralidade. É penedo que brada e se faz amigo. É laço que se solta e abraça. É aquela batida de passos em socalcos e cruza os céus como aves de saias brancas, esvoaçantes e chapéus floridos. Miranda é jovem, mormente quando busca e cava memórias em tempo enterrado. Miranda quer saber. Quer estribar-se no passado e arribar-se ao futuro.

Teresa Almeida Subtil

 



quinta-feira, 13 de agosto de 2020

L cio de la palabra / O cio da palavra

 L cio de la palabra

 

Rente al poema

Derramei pétalas

Nas bicos i nas bordas

Smiucei bersos a zeiá-los

Bibos

 

I la cada spanto

Abracei l'eimoçon

Cun medo de perdé-la

 

Deixei seinhas i l gusto

De tocá-la

La bertige de la sangre

I l cio de la palabra.




Rente ao poema

Espalhei pétalas

Nos bicos e nas bermas

Esmiucei versos a desejá-los

Vivos

 

E a cada espanto

Abracei a emoção

Com medo de perdê-la

 

Deixei sinais e o gosto

De tocá-la

A vertigem do sangue

E o cio da palavra.


Teresa Almeida Subtil

Tresmalhada Ternura