sábado, 30 de dezembro de 2017

Abraço furtivo

É fácil saltares a janela e rumares à galhardia de finais dos anos sessenta. Leva os discos que trazias quando um dia bateste à minha porta. Esquece a cena em que atirei a foto que, no comboio, te dei. Quando nos olhámos pela vez primeira. Esquece. Eu não consigo. Quando prometias tesouros e melodias que amei. E amo. Era eu menina de colégio e de medo. Esquece. Eu não consigo. Voltaste da guerra e, de novo, bateste. A porta era outra e eu já longe daquele abraço furtivo. Já não encontro a tua veia poética.  Que à época, era só minha. Diz-me da poesia e das das noites em que os Beatles nos esfarrapavam a roupa. Tão pouca!

Muda o ano e a vida arde na fogueira. E um Porto Fino borbulha entre a ousadia e a imaginação.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Hora da Poesia Rádio Vizela


Acabei de gravar "Lhenços, boinas i saltaretes" para um programa que não gosto de perder: "A hora da poesia", na rádio Vizela. O meu coração enche-se de glória por levar a LÍNGUA MIRANDESA", pouco que seja, a um espaço que trata a poesia com esmero, devoção e brilho. Apesar de eu ser neofalante, a minha paixão é um voo sem limites.
O meu Pc fez atualizações demoradas mas como - por encomenda - deixou-me uma fabulosa imagem do meu rio. Como se quisesse felicitar-nos. É ele que me arrepia e me eleva às alturas em que sinto o eco da palavra.
O meu imenso abraço a Conceição Lima e à Rádio Vizela.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Lenços, boinas e rebuçados

Publiquei este poema (pela primeira vez), na "LITERATURA DE NATAL" da Academia de Letras de Trás-os- Montes/2017. É que sinto nele várias assinaturas. O Natal, na minha infância  era íntimo e pleno de afetos. 




Lenços, boinas e rebuçados

A boina, comprada em contrabando
Tua imagem de marca.
Tempo de telhados escuros e carambelo
Pendurado. Rebuçados da criançada.
E a salto era a vida entre povos irmãos.
E eram de seda os lenços
Que trazias junto ao coração.

Os sonhos sobravam-te nas mãos.
E passavam para as minhas – pequeninas.
Multiplicados.
As estrelas exultavam nos teus olhos.
E os meus eram borboletas e botões.
Trinados e campainhas.

Entre os dois, o riso era rio de infinitos.
O picão dos medos era púlpito de salmos.
E na ternura da tua voz e ao frio abraçado
Trazias o Natal para nós.

Pai, que bem te ficava a boina!

Teresa Almeida Subtil





Participação em E-Book, no Solar dos Poetas




domingo, 10 de dezembro de 2017

Natal 2017


Arde o madeiro perto da igreja
Sinos repicam e rasgam os céus
E em toda a bondade que em nós se almeja
Há um verdadeiro encontro com Deus

Sem roupa, sem abrigo e sem comida
Falham desígnios do criador
É por isso que se espera outra vida
Nosso mundo reclama o salvador

E com as cantigas de antigamente
Fica mais forte esta dor, mais pungente
Mais distante e amargo o bem-querer

E por cada sofrimento inocente
A humanidade chora descrente
O deus menino está AINDA por nascer

Teresa Almeida Subtil






sábado, 2 de dezembro de 2017





E o perfume?

Hei-de levar as palavras desajustadas, duras e toscas
e delas farei rústicos peitoris onde se espelhará a alvorada.
Hei de atirar a raiva pelas janelas, e elas só poderão ser azuis
com caixilhos de luar. As rendas e as cortinas serão esburacadas,
marcadas e furadas pelos beijos de sol e até de vento.
O meu poema terá que ter ritmo, calor, movimento.
Nascerá pela tarde à hora do sol-pôr e lutará contra
a torrente que força o rio a escurecer. Serei verde, sempre verde,
e viverei na alegria da oliveira e no romantismo da laranjeira.
Será na árvore milenar, na pele duramente enrugada,
nos nós gretados de ausências, de precariedade, 
que os ninhos de esperança terão lugar. Dela penderá o cântaro,
abraçado pela cintura da tarde, só para ver a sede acontecer.
Quero ser o sumo das palavras espalhadas pelo pomar,
morto de saudades. Meus cabelos serão líquenes
 em cinzento prateado, plenos de liberdade. Do azedume
farei vigílias. As portas irão abrir-se aos pardais
desamparados. Presente estará sempre o amor. E o perfume?
Virá do jasmim, entrançado na parede, alicerce do poema,
e percorrerá a varanda voltada a nascente.


I l prefume?

Hei-de lhebar las palabras zajustadas, duras i mal andonadas
i deilhas fazerei rústicos peitoriles adonde se spelhará l'ourora.
Hei d'atirar la rábia pulas jinelas, i eilhas só poderan ser azules
cun queixilhos de lhuna. Las rendas i las cortinas seran sburacadas,
marcadas i furadas puls beisos de sol i até de biento.
L miu poema deberá tener cumpasso, calor, córrio.
Nacerá pula tarde a l'hora de l çponer l sol i lhuitará acontra
la torriente que lheba l riu a scurecer. Serei berde, siempre berde,
i bibirei na alegrie de l'oulibeira i ne l remantismo de la laranjeira.
Será na arble milenar, na piel duramente angurriada,
ne ls nuolos sgretados d'ouséncias, sien speques,
que ls nials de sperança teneran lhugar. Deilha se colgará l cántaro,
abraçado pula cintura de la tarde, solo para ber la sede acuntecer.
Quiero ser l çumo de las palabras spargidas pul pomar,
muorto de soudades. Mius pelos seran patrielhas
 an cinza pratiado, chenos de lhiberdade.De l azedume
fazerei begílias. Las puortas eiran abrir-se als páixaros
zamparados. Persente stará siempre l amor. I l prefume?
Benerá de l jasmin, antalisgado na parede, pie-de-amigo
de l poema, i zinará pula baranda birada a naciente.


Teresa Almeida Subtil 

(in Rio de Infinitos/ Riu d'Anfenitos)

L sol de las froles