terça-feira, 28 de maio de 2019

Teias de afeto / Telas de carino


Teias de afeto

Entrei na adega e já adivinhava
um tesouro nela agrilhoado
a sete chaves,
as chaves de um chamamento amigo.
A manobra na fechadura
ouvia-se no cimo do povo, certamente.
Gostei de franquear o portal de traça antiga
com tábuas cosidas a pregos por mãos de artista.

Entrei no empedrado miúdo do corredor enviesado,
que parecia ter crescido com os dias,
lenta e amorosamente.
Arrolhados estavam néctares apetecidos,
ancestrais saberes escondidos.

Em garrafas e canecas demorava o olhar,
concupiscente,
mas logo seguia com avidez
o teu andar de contentamento. E o sabor da vida
pairava no primor de cada detalhe,
no suporte de cada garrafa especial,
esculpido na madeira de árvore antiga.

Seguia entre teias de afeto,
tecidas caprichosamente.
Enleava-me nos fios e não me importava,
desfrutava do enredo, da ocasião.
Sentámo-nos no chão, junto ao pipo
e o ar de verão entrava pela janela de pedra
sem vidraça nem portada.
Abriste a torneira, segurei o copo:
o vinho e a conversa sabiam bem!
E na naturalidade daquela tarde,
como a folha de hera enleada,
desfrutava dos prazeres da adega.

Não sei como, mas trouxe a garrafa de jeropiga
guardada a sete chaves no pensamento.





Telas de carino (língua mirandesa)

Antrei na dega i yá adebinaba
un tesouro neilha agrilhonado
a siete chabes,
las chabes dun chamamiento amigo.
La manobra na fechadura.
oubie-se, a la cierta, a la punta de riba de l pobo.
Gustei de scancarar l portal de calatriç antigo
cun trabas cosidas a crabos por manos d'artista.

Antrei ne l ampedriado menudo de l corredor retrocido
que parecie tener crecido culs dies,
debagarosa i amorosamente.
Arrolhados stában nétares apetecidos,
ancestrales saberes scundidos.

An garrafas i jarras s’ amboubaba l mirar,
sensual,
mas lhougo seguie cun deseio
l tou andar de cuntento. I l sabor de la bida
bie-se na perfeiçon de cada cachico,
ne l assiento de cada garrafa special,
sculpido na madeira d'arble antiga.

Seguie antre telas de carino,
tecidas cun smero.
Anredaba-me ne ls filos i nun me amportaba,
çfruitaba de l anleio, de l’oucasion.
Sentemos-mos ne l suolo, an pie de l cubete
i l aire de berano antraba pula jinela de piedra
sien bidraça nien portalada.
Abriste la torneira, sigurei l copo:
l bino i la cumbersa sabien bien!
I na naturalidade daqueilha tarde,
cumo la fuolha de yedre anroscada,
çfruitaba de ls prazeres de la dega.

Nun sei cumo, mas truxe la garrafa de jeropiga
guardada a siete chabes ne l pensar.


Teresa Almeida Subtil
(in "Rio De Infinitos / Riu D'Anfenitos)







quarta-feira, 22 de maio de 2019

A Casa


Desenhei a casa com gente dentro
E um lugar ao sol para cada um.
Ao centro a jarra de água fresca
E temporãs flores silvestres 
Colhidas à luz da manhã.

O pomar toca-se,  saboreia-se 
E funde-se no sorriso 
E na melodia que perpassa por ti.

A energia da parreira atravessa as janelas
E traz o fascínio dos brilhos da Faceira.
E num romântico reflexo de lua
Vejo o rio beijar a laranjeira.

A casa nasceu ali, naturalmente.
E não falta ninguém.
Há bolas e bonecas onde convém.
E os espaços crescem com a gente.

Teresa Almeida Subtil




terça-feira, 14 de maio de 2019

O riso do urso






O alvoroço de giestas, estevas e urzes
Entrelaça em velhos cancelos
Autênticas joias silvestres

E se, num rasgo de exaltação,
Abril libertou aromas de liberdade

Maio tem a porta escancarada

E entre os sons de natureza
Ouve-se um urso-pardo

Em estridente gargalhada.

Teresa Almeida Subtil



segunda-feira, 6 de maio de 2019

Ergues-te MÃE!


Ergues-te, Mãe, na rosa que hoje abriu
Imaculada!

E no riso que revigora meus passos
E ainda que lassos sejam meus versos
Minhas lágrimas se aglutinam
E meu ser é ternura, flor do teu mirar

E uma ave sobrevoa as arribas
E a madressilva vai florir ao alto do picão
Onde tua luz se desprende.

E eu canto e cantarei
Um hino de amor
Onde te ergues, Mãe!

Teresa Almeida Subtil










Tresmalhada Ternura