sábado, 13 de outubro de 2018

Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos

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Foi, para mim, uma subida honra integrar na minha obra o prefácio de Domingos Raposo, ilustre professor e dinamizador da língua mirandesa. Uma mão preciosa, devo dizer.

PREFÁCIO – ANTRADA
Teresa Almeida Subtil é natural de Lagoaça, povoação sobranceira ao Douro Superior, com grande beleza natural, clima ameno e um solo pródigo em frutos, e, culturalmente falando, integra as designadas “Terras de Miranda”, com bem referia Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal.
E se o ser humano é filho do meio em que nasce, do lar em que se cria e da formação que recebe, Teresa Almeida Subtil não é exceção. A pureza do meio, a educação esmerada do lar, a riqueza da formação adquirida fizeram-na grande e levaram-na, por inclinação própria, a seguir a nobre missão de ensinar, que exerceu sempre com elevado profissionalismo, competência e entrega. Amante da dança e da pintura, a que também se dedica nas horas de lazer, deixou-se guiar, nos últimos tempos, pelo pulsar e força da poesia, que lhe corre nas veias, a jorro, genuína, natural, fluida. A fim de não desperdiçar o bafo da inspiração, assumiu, como motu proprio, o lema do pintor grego Apelles, “nulla dies sine linea” – nem um só dia sem (uma) linha -, até porque desde cedo compreendeu que “scripta manent”, ou seja, que os escritos permanecem. Essa produtividade levou-a à perfeição técnica do poema, prenhe de simbologia e emoção, como podemos comprovar com a presente obra, que resulta da seleção (nada fácil de fazer) de uma vasta lista de poemas.
Mas esta obra ganha ainda um valor redobrado porque sendo a autora uma apaixonada pela língua mirandesa, que aprendeu, de per si, sem a ter mamado no leite materno, aparece traduzida, em mirandês, pelo próprio punho, dando um grande exemplo de que querer é poder e de divulgação daquela que é a segunda língua oficial de Portugal.
Escrever poesia é uma arte e toda a arte é maravilhosa porque se por um lado é inútil “não mata a fome, não mitiga a sede, não protege do frio e do vento” (Ruy Guerra), por outro é transformadora porque inebria o espírito, aquece a alma, desvenda e ilumina caminhos, muitas vezes sombrios, escondidos, subterrâneos. E Teresa Almeida Subtil, com um incontornável e não explicado deslumbramento, que nos fascina, apresenta-nos, nesta obra, caminhos dessa transformação, tendo como ponto de partida e fio condutor o Rio (Douro) – que a marcou profundamente desde a infância – no seu sentido mais abrangente e metafórico: “rasgo a Primavera do alto das arribas do Douro”; “sinto o eco das margens a pulsar”; estão vivas as águas do meu rio”; “diz-me do rio de palavras selvagens preso em ti”; “… ser-te-ia nascente e foz a um tempo”; (…). O seu Rio é imenso, infinito: tem sol, sombras, arribas, fauna, flora, gente, etnografia, atrações, mistérios, cores, aromas, paladares, fragores, sonoridades, acordes, amores, choros, cantos, “cantando o amor em cada passo e em cada batida de inquietação”.
Teresa Almeida Subtil, com clareza, sensibilidade estética e cumplicidade com o seu Rio (fonte de sonhos, afetos, desafios, preces, promessas, esperanças…) compõe poemas com essência e perfume, vestindo-os a preceito como se vestisse um corpo com o fato e os adereços do melhor estilista, mostrando que “a poesia é emoção, um grito de liberdade, um brinde à vida”. E se para ela ser poeta é “… dar-te a chave do céu e do prazer”, também faz jus ao sentimento de Florbela Espanca: “tem de mil desejos, o esplendor; possui um astro que flameja; tem garras e asas de condor; tem fome e sede de Infinito; condensa o mundo num só grito”, como testemunha nesta obra, de forma brilhante, guiada pelas suas memórias, vivências, introspeções/intimidades, valores, leituras, telas de vida, evocações, projetos, trajetos e horizontes.

Os poemas deixam-nos perceber que a autora comunga o pensamento de outros poetas consagrados. Sabe “que o sonho comanda a vida” e com ele “o mundo pula e avança” (António Gedeão); que “o meu pensamento é um mundo subterrâneo… Escuto-o… como um eterno rio indescoberto, mais que a ideia de rio certo e abstracto” (Fernando Pessoa); “mas não calo a voz do chão que grita dentro de mim”, fazendo o “rio feliz a ir de encontro ao mar, desaguar, e, em largo oceano, eternizar o seu esplendor torrencial de rio” (Miguel Torga). Torrente, qual “caudal sagrado” de infinitos, que abre espaços à reflexão, à afetividade, à solidariedade… e faz de cada poema um “dia novo, de renovo e poesia”, como Torga gostava de dizer.
Teresa Almeida Subtil, sente o prazer da escrita e escreve com palavras “tecidas de luz” (Eugénio de Andrade), em intimidade com os versos e a musicalidade das sílabas, com o coração cheio, seguindo a transparência das estrelas, compondo, com uma imaginação transbordante e apaixonada, autênticos hinos ao Sol “com notas marciais, que soam como um clarim (Gomes Leal) e “com o desejo de ser apenas harmonia, cantando a luz que todo o espaço inflama, e sonhando a perfeita e mística alegria” (Teixeira de Pascoaes).
Parafraseando Manuel Alegre, este é “um livro de poesia por onde corre o sangue, a escrita, a vida”. “Pois só no poema um povo amanhece” (Sophia de Mello Breyner Andresen). Por isso, deixemo-nos levar por este “Rio de Infinitos”, escrito com cintilante claridade, onde a autora, norteada pelo maior dos ideais, permite que nos enriqueçamos e deleitemos com as suas magníficas criações, deixando-nos a esperança num amanhecer resplandecente, puro, expurgado de males e livre para pensar, sonhar, agir, repleto de Amor. Amor que conseguiu pintar com a sua cor preferida: a brisa da vida.
                                                                                                                                      
                                                                                                                           Domingos Raposo



7 comentários:

  1. Teresa, já tinha lido este texto no teu livro. Claro que é excelente e é sempre muito bom quando alguém sabe abordar bem a nossa escrita, como o fez o Professor Domingos Raposo.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  2. um texto excelente e uma fecunda análise da obra e do universo poético da Poeta Teresa Almeida Subtil

    permito-me destacar a afirmação eloquente de quem, com conhecimento e autoridade escreve "Teresa Almeida Subtil, com clareza, sensibilidade estética e cumplicidade com o seu Rio (fonte de sonhos, afetos, desafios, preces, promessas, esperanças…) compõe poemas com essência e perfume, vestindo-os a preceito como se vestisse um corpo com o fato e os adereços do melhor estilista, mostrando que “a poesia é emoção, um grito de liberdade, um brinde à vida”. E se para ela ser poeta é “… dar-te a chave do céu e do prazer”

    e quanto me agrada a subsequente evocação de Florbela Espanca.

    não será novidade para ti, dizer-te, minha amiga Teresa Almeida, que sou fã incondicional da tua poesia e quanto me deixa feliz a leitura deste texto exemplar e este luminoso olhar sobre a tua obra.

    parabéns
    beijo


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  3. O prefácio do professor Raposo Domingos se basta para traduzir o Rio de Infinitos de Teresa Almeida Subtil. No mais, é procurar a medida das suas palavras na medida de cada poema e vamos descobrir que a régua e compasso se equivalem. É o olhar de quem leu bem o que estava bem escrito pelas suas mãos, Teresa!
    Um beijo, Teresa!

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  4. Para “ definir “ a tua poesia , um prefácio eloquente é definitivo quanto à beleza e profundidade estética .
    Porque a tua poética é algo que se entranha na pele como a seiva nas árvores dos açudes . Tão líquida como a água do teu rio de afectos .
    Parabéns pelo teu percurso, pela tua poesia , querida amiga Teresa
    Ler- te , é estar longe e perto das arribas ou lugares que te inspiram
    Parabéns
    O nosso abraço

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  5. Só agora me apercebi deste post.
    Domingos Raposo dirigiu-te palavras fartas, ricas de contexto, com os imprescindíveis afectos. E tu mereces.
    Parabéns, Teresa!

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  6. Um prefácio merecidíssimo, pela excelência da sua obra, Teresa... e pela sua admirável aposta, em não deixar cair no esquecimento, a nossa segunda linda oficial... da qual, tanta gente no nosso próprio país, nem terá a noção de tal... nem da sua existência, sua riqueza histórica e cultural e devida importância...
    Muitos parabéns, pelo seu meritório e valoroso percurso poético, Teresa!
    Beijinho
    Ana

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