segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Vão de infinitos / Preça d'anfenitos



Vão de infinitos

É a varanda de grades da cor do tempo
que me leva em breve enleio e receio de entardecer.
É na varanda solta no descampado do olhar
que me debruço e me entronco na árvore onde me fiz.

É o toque na parreira de pele retesada
e rasgada que me diz da erupção que sentia
e das escadas que subia e descia,
querendo entender-me no emaranhado da vida.

Era em vão de infinitos que a varanda se espraiava.
E eu, debruçada, a sentir-me nada, não cabia em mim.
E eu, num chão de inquietudes a agigantar-me
para as dúvidas que nunca resolvi.

Aninhada em ti,
parecia que a aldeia ao longe era igual à minha,
embora a raia nos falasse de outra língua
e de outro país. Na minha varanda percebia a raia
e adivinhava que nem a vinha, nem a aldeia que avistava,
encobriam o reboliço do rio
que bem fundo cavava o fragaredo.
Nem eu nem o rio conhecíamos limites
e apesar do aperto e da inquietude,
saltávamos e corríamos
na pressa dum tempo a descobrir.




  

 Preça d´anfenitos (lhéngua mirandesa)

Ye la baranda de grades de la quelor de l tiempo
que me lhieba an brebe anleio i arrecelo d'entardecer.
Ye na baranda suolta ne l çcampado de l mirar
que m´astribo i m´antronco n´arble adonde me fiç.

Ye l toque na parreira de piel retesada
i resgada que me diç de l manantial que sentie
i de las scaleiras que chubie i abaixaba,
querendo antender-me ne l eimaranhado de la bida.

Era an preça d'anfenitos que la baranda se spraiaba.
I you, debruçada, a sentir-me nada, nun cabie an mi.
I you, nun suolo d'anquietudes a agigantar-me
pa las dúbedas que nunca resolbi.

Arrimada a ti,
parecie que l'aldé al loinge era eigual a la mie,
anque la raia mos falasse d'outra lhéngua
i d'outro paíç. Na mie baranda percebie la raia
i çcunfiaba que nien la binha, nien l'aldé q'abistaba,
tapában l rebolhiço de l riu
que bien fondo scababa l fragaredo.
Nien you nien l riu coinciemos lhemites
i indas que l aperto i l'anquietude,
saltábamos i corríemos
na priessa dun tiempo a çcubrir.

Teresa Almeida Subtil


(in Rio de Infinitos /Riu d'Anfenitos)


7 comentários:

  1. Que bonito poema, Teresa, e gostei especialmente dos versos finais. Um abraço.

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  2. Nossa... Teresa, que belo poema! Inspiradíssima amiga!
    Quando revelamos algumas coisas próprias do ser humano, as palavras tomam uma dimensão muito maior, talvez pelas verdades deixadas, talvez por revelarmos nossa intimidade, nossa história, nossas fraquezas, claro, nem sempre coisas nossas, pois o poeta é um fingidor...
    Beijo, querida, uma boa semana.

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  3. "a violência das margens" sobre o caudal do Rio, não é verdade, Teresa?
    belíssimo poema, minha amiga.

    uma cachoeira de palavras suculentas e belas - como uvas maduras que muitos desejarão, mas raros alcançam.

    adorei. beijo

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  4. Um vão, uma varanda de oportunidades mil, embora de grades, mas de la quelor de l tiempo. E o tempo por vezes é amigo. Dá-nos tempo para nos debruçarmos sobre a vida e alongar a vista para além do horizonte. Uma dança entre o que temos e o que há-de vir: recolhermo-nos no nosso ninho e deixar a vida passar ou aproveitar a correnteza que segue imparável? Este poema, sublime, dá-nos a resposta. Obrigada, querida Teresa.

    Beijinhos

    Olinda

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  5. Boa tarde, querida amiga Teresa!
    Muito interessante este paralelo entre você e o Rio... somos ou deveríamos ser como eles... no percurso que desembocar no mar da vida.
    Deus a abençoe muito!
    Bjm fraterno e carinhoso de paz e bem

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  6. Que belo olhar para fora e para dentro de si mesmo, Teresa. E que belas imagens para traduzir esse caudal que nos sufoca com beleza. Isto é que viver profundamente o seu tempo, o seu lugar. Belíssimo, Teresa!
    Um beijo,

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  7. Um maravilhoso poema... em que a alma lusa, se espraia em todos os sentidos... como sempre de uma leitura deliciosa... para ler e reler!... E anotar no meu caderninho de futuros destaques, para Janeiro, deixar por lá no meu canto... :-))
    Muitos parabéns, Teresa, pelo seu grande e arrebatador talento, para a poesia!...
    Beijinho
    Ana

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