quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O buraco da moura










O lugar era corpo inteiro. Alvoroço dos sentidos.
E a canícula do dia era ali que se despia.
Ao fundo a cicatriz e a sede. Santa a fonte,
incrustada no fragaredo. Eu apenas espreitava
a gruta profunda e escura. Amava a melodia
daquele fio de água. E a ternura tresmalhada.

E quando a tarde amolecia perdidamente
e os acepipes atiçavam a vontade, era ali
que se degustavam os melhores frutos do mundo.
Douro naturalmente. Nem os deuses resistiam.

E o verso é agora regresso, fralda de memória.
Desafio incontido. Vinho desarrolhado.
Mistério decantado. Linho estendido. Brancura imaculada.
Paz e espada. É fim de jornada, seda e frescura.

Pele macia, aveludada. Perfume e flor do dia.

Teresa Almeida Subtil

12 comentários:

  1. Nem os deuses resistem ao Douro: "Desafio incontido. Vinho desarrolhado.
    Mistério decantado." Magnífico poema, Teresa.
    Gostei tanto que li e reli até ao espanto.
    A música e o vídeo, sublimes.
    Um beijo, minha Amiga.

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  2. Provavelmente, referes-te a um local em concreto a que chamavam (e eventualmente ainda chamam) "buraco da moura". E voltaste lá, sob a forma poética e fizeste com que visionasse o local (à minha maneira, claro, e talvez inspirado por um poço das feiticeiras que conheci em criança.
    E o teu regresso poético, escusado seria dizê-lo, é fantástico, os meus parabéns pelo teu talento.
    Continuação de boa semana, amiga Teresa.
    Beijo.

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    1. Hesitei, mas gostei de atribuir ao poema o nome do local. Queria torná-lo imorredouro. A fonte era sulfurosa e todo o cenário era inspirador. Íamos a cavalo, em família, e há muitos anos que não vou por ali.
      Grata pela sensibilidade, querido amigo Jaime Portela.

      Beijinhos.

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  3. são lugares assim, "de corpo inteiro" que marcam o carácter e entre-tecem os fios e a matriz...

    a Poeta há-de vir depois, na fascinação e na "ternura tresmalhada" a celebrar o "verso e reverso" da(s) memória(s) e o gratificante prazer da partilha, seja ela o vinho (desarrolhado) ou "o perfume e a flor do dia"

    gostei muito, Teresa. parabéns, um poema inexcedível!

    beijo, amiga

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  4. Um poema belíssimo, inscrito na arte da Poesia, com
    a tua excelência, sensibilidade e esta capacidade tão tua,
    no dizer poético, como um sopro na delicadeza com as palavras
    bordadas de significados a ecoarem em nós, teus leitores!...
    O vídeo-música é mágico e lindo, acompanhar com
    a magia do teu poema, Teresa.
    Adorei, minha amiga!!
    Um domingo alto astral!
    Beijinhos.

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  5. É isso, inexcedível, como escreve Manuel Veiga. A memória vista como algo a ser capturado, como matéria ou instrumento de revelação. E, então, descobrimos como carecemos da poesia porque nos vemos lendo e relendo o poema "exaustivamente". Aqui e agora, este poema é pura nutrição. Ou melhor degustação. Maravilhoso!
    Beijo,

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  6. Vi como um belo diário de memórias, degustando, bebendo na fonte do que era belo e trazia muita felicidade.
    Beijo, querida Teresa.

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  7. Olá, Teresa

    Poema perfumado e com saboroso. Lugar que ganha vida através de palavras escolhidas com arte.
    A musica, divina.

    Bj

    Olinda

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  8. O nome do local
    onde as palavras se bebem como um rio
    às mãos cheias
    Bj

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  9. Num quase Olimpo... Lindo, embriagador, envolvente!
    Ah, as palavras, Teresa, tão bem que as tratas..!

    Um beijinho :)

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